“Deixaram o Senhor, Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito, e foram-se após outros deuses, dentre os deuses das gentes que havia ao redor deles, e os adoraram, e provocaram o Senhor à ira. Porquanto deixaram o Senhor e serviram a Baal e Astarote.” Jz 2:12, 13

― Capitão! Não obtemos resposta pelo radio, e os outros comunicadores estão na mesma situação…

Alec Cample era expert em se perder em pensamentos, mas já era certo que sua idade era um dos principais motivos de suas divagações, que com o tempo se tornaram tão constantes quanto os sonhos que tiravam seu sono.

― Capitão?

― Sim.

― Continuamos sem respostas senhor.

― Esta bem. ― Após viver tantos anos no comando, Alec, aprendera a esconder sua preocupação do rosto e da voz. ― Continue tentando, alguém verá nossa mensagem.

― Esta bem, com sua licença senhor…

Sem prestar atenção ao que o marujo dizia, Alec o dispensou e voltou a consciência para seus pensamentos.

Durante o arrastar dos seus últimos 23 anos, Alec, se entregou a vida no mar, abandonando a família e os amigos. Com o tempo, acabou deixando de lado a solidão, mas durante as últimas viagens um crescente desejo de ver os filhos, há muito crescidos, e a esposa divorciada que nunca deixara de amar, se apoderou de sua mente.

Virando de lado, de forma que a ampla visão do mar que entrava pela janela não obstruísse suas vistas, Alec se deu em frente à parede que guardava sua enorme coleção de porta retratos. Levantando, Alec tomou em suas mãos um pequeno porta retrato, decorado com conchas, e caminhou até sua cabine que ficava ao lado de seu escritório.

Lá, fechou sua janela e se sentou em sua cama, onde mirou o espelho que cobria toda parede leste. Ao perceber seu reflexo, o velho capitão começou a pesar em sua consciência, como a idade lhe afetara, e como ocorrera nos últimos dias, um consciente desejo de abandonar aquela vida e voltar para a França surgiu.

Voltando novamente a concentração, passou a mão no pouco cabelo que cobria sua cabeça, se lembrando dos fios dourados que antigamente chegavam ao pescoço, e descendo a mão, sentiu as rugas que davam a sua pele uma aparência de papel velho.

Cansado da vida, Alec recostou sua cabeça e apertando o porta retrato de conchas contra seu peito, fechou as pálpebras dos olhos.

Estava escuro, chovia forte, e um espetáculo de raios jamais visto pelo capitão rasgava os céus. Aos poucos, distinguiu os gritos de horror que vinham de todas as direções do navio. Com um salto, Alec pulou de sua cama, não percebendo o pequeno porta retrato espatifado ao lado de sua cama, e com o coração acelerado, correu para fora de sua cabine, encontrando uma névoa espessa, de tal forma que jamais vira, nos corredores do navio.

Sem compreender, Alec percebeu que os gritos vinham do convés do navio, e sem que percebesse, se viu correndo em direção as escadas.

Sem se dar conta que alguém o seguia em sua corrida, parou para acalmar a coluna que começara a cobrar seu preço, e com um baque sentiu uma mão cobrindo sua boca e o puxando para fora dos corredores.

Tentando se livrar de seu opressor, sentiu o halito em seu ouvido.

― Não grite, eles podem nos ouvir.

Sentindo a pressão sobre sua boca diminuir, Alec se virou e encontrou um de seus marujos, com uma insana expressão no rosto.

― O que está acontecendo, – percebendo uma infinidade de cortes nos braços do marujo, o capitão olhou em seus olhos e concluiu – quem pode nos ouvir?

― Os demônios, a cidade el.. ela…corra, se salve, eles passarão pelos portões, não há pra onde fugir… começou. ― ajoelhando no chão, o marujo puxou um crucifixo em seu pescoço e apertou contra a boca tentando conter o medo.

Tendo certeza que o homem enlouquecera, Alec se afastou e sem cogitar correu para as escadas.

Chegando ao convés, Alec percebeu que os gritos haviam cessado, mas sem conseguir enxergar o que estava a meio metro de sua frente, pela nevoa que adensara ainda mais e pela chuva que caia de forma assustadora, gritou.

― Quem está aí? ― repetiu seu grito por três vezes, sem receber resposta.

Olhando adiante, sem entender, a nevoa começou a cessar, e além da chuva, Alec distinguiu os contornos de gigantescas labaredas de fogo.

― É lindo, não acha? A queda da cidade dos Anjos.

Em estado de choque, o capitão olhou para trás e se viu em frente a um vulto negro que o observava. Percebendo que a voz, vinha do vulto, Alec correu em sua direção, mas ao se aproximar dois metros, uma intensa pressão o obrigou a parar. Sem entender, sentiu seu corpo flutuar, ficando há meio metro do chão.

Aproximando, o vulto revelou suas mãos, de uma cor branca intensa, e do nada fez surgir uma lamina negra como a noite.

Sem ao menos pensar, lagrimas começaram a jorrar de seu rosto e uma intensa dor se apoderou de sua cabeça.

― Como são tolos, vocês humanos, realmente acreditaram que eles iram protege – lá? – Com uma voz seca e sem vida, o vulto se arrastou até perto de Alec, revelando um rosto palito e liso como o mais polido mármore, e fios loiros como os raios solares. ― Los Angeles, a cidade dos Anjos.

Estampando um breve sorriso, o ser a sua frente tocou sua cabeça e com um rápido palpitar, Alec sentiu uma onda de dor invadindo sua mente.

― Aliás, Alec, é este seu nome não é? Pude ver em seus pensamentos, sinto muito pelos seus marujos.

Erguendo as mãos, o ser a sua frente fez toda a névoa se dissipar e com uma nova onda de dor, Alec percebeu os inúmeros corpos mutilados no convés do navio.

Permitindo que as lagrimas inundassem seus olhos, cegando a macabra visão que o rodeava Alec apertou os olhos e como aprenderá em suas meditações, juntou seus pensamentos em torno da dor, clareando assim, os sentidos.

Sem entender um intenso bater de asas surgiu no ar e em sequência a dor o deixou enquanto seu corpo desabava no chão. Uma grande onda de alegria o invadiu enquanto todo o medo o deixava. Viu então, há alguns metros do navio quem lhe libertara da pressão, enquanto o ser se encolhia em um canto do navio, tentando fugir.

― Anjos…

― Capitão! Capitão!

Alec abriu os olhos e com um surto de adrenalina pulou da cama. Se deu conta então, de que tudo fora um sonho apenas.

Olhando para o homem a sua frente, percebeu o pavor, e sem compreender, não teve dúvidas que este era o marujo do sonho.

― Corre, CORRA…

Correndo pelos corredores do navio, percebeu a tempestade que se precipitava dos céus, e a fina nevoa que começava a adentrar o navio. Chegando as escadas, tomou impulso e subiu os degraus aos pulos como há muito tempo não fazia. Ouviu então os gritos e parou, assim que contemplou o horizonte que se abriu das escadas.

― Meu Deus…


capa_principium

Autor: Hian Lauderson

Wattpad: HianAP

Livro: PRINCIPIUM

Baseado em eras esquecidas, dimensões nunca antes tocadas por humanos, mundos há muito comentados, demônios, anjos e muita magia, eu lhes apresento PRINCIPIUM, o alvorecer da grande guerra.

Iai galera d’a taverna, aqui é Hian Lauderson, quero convida-los a conhecer o primeiro livro da saga Principium. Juntamente com alguns dos eventos ocultos pelo mundo moderno, a saga mostra o crescimento, o desenvolvimento, e o desenrolar do Kali Yuga – ou como preferirem, o apocalipse. Enquanto as trevas ganham o horizonte, encontre a luz nas primeiras estrelas que surgem… afinal…

“Pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia.”  

MARCOS 4:22


Recado do Taverneiro: Esse post é um dos primeiros, onde eu ficava mais nas sombras e deixava o autor se apresentar, com um trechinho do seu trabalho. As coisas não são mais assim XD
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