Yara levou seu saco de pano para a nuvem mais escondida que encontrou. Olhou ao redor, sentou-se e abriu-o devagar, afastando o rosto para não ser ofuscada. Mas o objeto que tirou de dentro dele não parecia nem um pouco especial: era uma caixinha de metal com vários botões.

Balançou-a, mas ela não fez nada. Tentou falar com ela. Sem resposta. Apertou um a um os botões. No último, a caixa fez um barulho tão alto que Yara quase a derrubou na nuvem, perdendo-a para sempre.

Os padrões logo ficaram evidentes. Yara sabia que os habitantes do Chão tinham costumes estranhos, mas não sabia que poderiam fazer um som tão atraente, ou que tinham vozes tão bonitas. A canção falava de esperança, e sobre coragem para viver a vida. Passou horas ouvindo aquelas melodias, e algumas a induziram a movimentar o corpo seguindo seu ritmo.

— Yara?

O aparelho caiu, atravessando a nuvem em direção ao Chão.

— Não! — Os sons diminuíram até sumirem.

— O que está fazendo?

Por alguns segundos ficou ali, parada, digerindo o susto e a perda do objeto. Então virou-se e gritou para a pessoa atrás dela:

— Foi sua culpa! Por sua causa eu derrubei o meu…

— O seu o quê?

Yara voltou a si e percebeu com quem estava falando. Era Alto.

— Eh… Nada.

— Venha comigo, menina.

Apesar de jovem, sabia que desacatar Alto era algo impensável, e previa uma bronca no final daquele caminho. Saltaram pelas nuvens em direção ao Sol e chegaram a um local que nunca tinha visto.

Era uma construção simples como as outras, mas as nuvens que compunham as paredes e o chão eram tão escuras que ficou com receio que elas se desfizessem em chuva ao pisá-las. Mas foi para lá que Alto saltou, e sua única opção foi entrar atrás dele. Talvez fosse essa a sua punição, ser chovida e expulsa do país.

— Esse lugar é estável, Yara. Não se preocupe.

Entrou no recinto, insegura. No centro, havia uma estrutura cilíndrica nublar alta, e algo ali em cima brilhava.

— Não costumo trazer pessoas tão jovens aqui. Mas sua curiosidade em relação ao Chão tem se mostrado bastante precoce.

— Você já esteve lá?

— Já. Sei que tem perguntas, mas é melhor que veja por você mesma.

A garota se aproximou do que parecia um pilar, cilíndrico e com o triplo de seu tamanho. Saltou e tentou olhar por cima dele, agarrando-se à borda com os braços. A estrutura despencou com o peso da garota, derrubando-a na nuvem. Quando se levantou, viu que ela não havia se quebrado, mas dobrado como um canudo, e o seu topo agora apontava na direção de Yara. Ali, no centro da estrutura, havia imagens de algo verde, que balançava conforme o vento.

Sentou-se, maravilhada com o que via.

— Isso é o Chão?

— Sim. Essa construção reflete nuvens e partículas de água de todo o céu, é possível ver todo o planeta daqui.

Tocou na estrutura, levando-a um pouco para a direita. A imagem exibia agora outro lugar, um monte de pedras próximas a uma corrente de água, que brilhava em um milhão de pontos esparsos com o reflexo do Sol. Yara conhecia pássaros parecidos com os que voavam por ali, mas nunca vira a água do Chão, e imaginou se era para lá que a chuva ia depois de cair.

Sentado nas pedras, um homem segurava um objeto, e após algum tempo ele o puxou, retirando de dentro da água um animal molhado, brilhante e bastante incomodado.

— O quê…?

— É um peixe. Eles vivem na água que fica junto ao Chão. Há muitos outros animais lá embaixo, até mesmo pássaros que não voam, e que por isso nunca passaram por nosso país.

— Por que não podemos conhecer o Chão?

— Porque é um lugar muito perigoso, Yara, ao menos enquanto os humanos estiverem por ali. Em breve isso não será mais uma preocupação…

Trecho do conto Vida Chãoniana de Wilson Faws (Trasgo#11)


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