Lucas corria como se fugisse da morte. Ouvia o pulsar acelerado do seu coração, abafando o som dos próprios passos. As pernas pareciam ter vida própria. As mãos sujas de sangue enchiam-no de pavor. Escorregou em alguma coisa e caiu. Rolou pelo declive; não conseguia parar. Os galhos arranharam as costas e os braços; as mãos buscaram inutilmente por apoio; os pés afundaram no solo macio, até que, diminuindo a velocidade, prostrou-se por completo.

Enquanto o sol cedia espaço às sombras da noite, as lembranças vinham fragmentadas: a pressa de chegar em casa; a saída antes do final da tarde; a busca pelo avô; a pescaria; o rio; a corrida… Faltava alguma coisa, mas ele não sabia o quê.

Sentiu seu corpo queimar de dentro para fora. A cabeça doía. Tentou reerguer-se, mas as pernas pareciam não suportar mais seu peso. Apoiou as mãos sobre a terra úmida; sentia a dor dilacerar a carne. Tentou gritar, na esperança de conseguir expulsar aquela sensação, mas o som que saiu assemelhava-se a urros desesperados.

O que ele era, afinal? Um estranho? Foi esse novo eu que o fez se levantar e voltar a correr. Agora, suas mãos apoiavam-se ao solo, feito um cão. Os dedos transformados em garras, o pelo escuro recobria os braços.

Os cheiros da mata misturavam-se com a maresia, penetravam-lhe as narinas; mentalmente os separava, reconhecia cada um. Não muito longe, a luz do farol do Cabo de Santa Marta castigado pelas ondas. Os pontinhos luminosos que banhavam a Vila Prainha, onde morava com o avô, identificavam as casas e as pequenas ruas, e um pouco mais a oeste as luzes mais fracas de Laguna tremiam na noite escura.

Por que não estava pescando com seu avô? Por que o sangue cobria partes do seu corpo? Como veio parar ali? A agonia o invadiu.

Precisava retornar pelo mesmo caminho, precisava reencontrar seu avô, que sempre tinha as respostas. Como em tantas outras ocasiões, ele o acordaria e o reconfortaria, mostrando que tudo não passara de um pesadelo.

O trajeto até o rio foi ágil. Ouvira o barulho da água antes mesmo de se aproximar. A brisa suave trouxe-lhe, além do cheiro de sangue, vozes indistintas: aqui…; talvez um animal…; é o velho Chico; tem mais dois aqui... Tudo naquele momento, todas as informações misturavam-se dentro de Lucas, que tentava, desesperado, emergir da confusão interna que tomava conta de sua consciência.

Seguiu apressado, mas cauteloso.

Próximo ao pequeno rio, escondido pelas árvores, pôde ver um corpo caído sobre as pedras.

Vovô!

Perto dele, dois corpos sem a cabeça. O primeiro teve os braços separados do tronco, o outro foi rasgado ao meio. O sangue que ainda escorria pelas pedras coloria a água.

Vieram à tona flashes de momentos que, até então, pareciam ter se apagado da memória de Lucas: o avô sendo ameaçado com uma arma; a busca frenética do outro ladrão por algum objeto na mochila; o movimento do velho amedrontando o assaltante; a reação do comparsa matando Chico, seu avô, com um tiro na cabeça… Relembrou a angústia de estar mais afastado, sem poder auxiliar o velho; reviveu o próprio grito de indignação e, em seguida, a corrida que empreendeu na direção dos assaltantes. Depois disso, somente escuridão.

Totalmente absorto com a recente descoberta, não percebeu já haver caminhado até a margem. Estava totalmente exposto.

― Olhem lá! ― alguém gritou.

Todos se voltaram em sua direção. Os fachos de luz das lanternas mostraram sua figura horrenda. Houve pânico entre o pequeno grupo. Alguns correram de volta à estrada, outros paralisaram.

Lucas acelerou de volta ao abrigo da mata. Foi quando escutou o primeiro disparo. Eram pescadores armados.

Urrando, deu um passo à frente, como se quisesse dizer que havia feito justiça com as próprias mãos; não deveriam temê-lo. Ele, Lucas, também era um pescador, como todos. Fazia parte da vila. Não tinham o direito de matá-lo. Observou-os. Não conseguiu vislumbrar qualquer tipo de simpatia, só o cheiro do medo era perceptível.

Outro tiro.

Este atingiu um tronco ao lado. Instintivamente Lucas abaixou-se. Naquele momento, soube que não haveria mais espaço para ele na comunidade.

Embrenhou-se mais uma vez no mato fechado, desviando-se das árvores com agilidade. Tinha pouco tempo antes que voltassem com mais homens e a ajuda dos cães de caça do Roger.

Trazidas pelo vento, emergiram novas lembranças de sonhos tão reais quanto os que vivenciara nas últimas horas. Um odor diferente fez os pelos se erguerem e os músculos retesarem.

Parou, rosnou e uivou na direção daquele cheiro. A resposta veio em igual intensidade. Um vulto aproximou-se da margem da estrada, logo à frente. Em seguida outro apareceu, maior, tanto em altura quanto em músculos. O pelo refletia o brilho da lua, revelando um tom prateado em meio aos fios negros. Logo atrás, mais dois pares de olhos brilhavam. Pareciam aguardar algum tipo de sinal.

Havia ali outros iguais a ele. Aquela visão remeteu-o às noites em que acordava suado, sujo e exausto nos braços do avô. Então, este lhe falava sobre histórias de lobos e de homens.

Retesou os músculos para se defender de um possível ataque. O que testemunhou, no entanto, surpreendeu-o.

Uma das feras foi diminuindo de tamanho, perdendo os pelos, clareando a pele. O focinho e a boca retrocederam, oferecendo a visão de um rosto de traços marcantes. Os outros dois, entretanto, mantiveram sua forma lupina.

Os pescadores chegariam em breve. Lucas precisava sair dali. Não sabia como fazer para se comunicar, explicar que não podia perder tempo. Mas o seu interlocutor pareceu captar seus pensamentos:

― Meu nome é Marcos ― disse ele. ― Precisamos conversar.

― Não tenho tempo pra isso ― respondeu Lucas em pensamento e recuou. ― Tenho que voltar pra casa.

Sua movimentação atraiu a atenção dos lobos escondidos entre as árvores. Eles avançaram, arreganhando os dentes, obstruindo o caminho.

― Vocês não podem me impedir de voltar.

O lobo alfa ergueu uma das mãos, contendo os companheiros.

― Podemos, mas não vamos. Só quero que ouça o que tenho a dizer.

― Então fale de uma vez.

Marcos pareceu escolher as palavras.

― Venho acompanhando você desde que sua mãe o entregou a Chico. Presenciei sua primeira transformação. Nós nos revezamos, vigiando-o durante sua infância, ensinando como caçar, como se defender. Um filhote, quando se transforma, se não tiver orientação, morre.

― Isso significa que meus sonhos…

― Exato. Não eram apenas sonhos.

O jovem lobo recuou dois passos. O tempo parecia girar ao contrário, revelando imagens e sons. A antiga história que Chico lhe contara sobre a loba que abandonara o filhote com um humano começava a fazer sentido.

― Minha mãe… Também era uma loba?

― Sim.

Lucas não se contentaria com meias respostas. Queria a verdade, sentia-se no direito de tê-la.

― E por que ela me deixou com o Chico?

― Porque tinha medo que você fosse como o seu pai. Achava que, convivendo com os humanos, poderia ter alguma chance.

― Como assim?

― Alguns de nós não conseguem se controlar. O lobo enlouquece e acaba atacando a alcateia. Não distingue amigos de inimigos. Sara amava seu pai…

― E o que aconteceu com ele?

― Eu o matei ― disse Marcos.

Lucas sentiu o peito apertar. A vida tal qual ele conhecia havia desmoronado. Uivou, tentando afastar a angústia que o invadia.

― Você chega no pior dia da minha vida, quando o homem que me criou com todo cuidado e amor é assassinado, pra me dizer que matou meu verdadeiro pai?

― Ele não era só seu pai. Era meu irmão.

Aquela revelação chocou-o ainda mais. Já não sabia o quanto seria possível confiar em Marcos.

― Se você teve coragem de matar o próprio irmão, o que fez com minha mãe?

― Nada. Depois de entregar você para o velho, ela perdeu a vontade de viver.

Pela primeira vez, Lucas sentiu-se desprotegido e inseguro com relação ao futuro.

― E quanto aos outros? Os normais?

― Juntaram-se à alcateia.

Lucas procurava uma brecha. Um instante apenas de distração para poder escapar e seguir seus próprios instintos. Não pretendia juntar-se a quem quer que fosse por imposição.

― Caso eu me recuse?

Rapidamente, Marcos reassumiu a sua forma lupina.

― Essa não seria a sua melhor escolha.

Os gritos dos pescadores chegaram com o vento. O latido longínquo de seus cães revelava o paradeiro da fera.

Os três lobos aguardavam a decisão do mais jovem. Não havia, naquele momento, um caminho melhor ou pior para Lucas, apenas o instinto de sobrevivência. Era a esse chamado que deveria se unir.

Resignado, abaixou a cabeça, juntou-se aos novos companheiros e sumiu em meio à mata.

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Autora: Ceres Marcon

Wattpad: @CeresMarcon

Facebook: Ceres Marcon Escritora

Twitter: @ceres_marcon

Site da Escritora: ceresmarcom.com.br

Galera, Taverneiro aqui para falar dessa escritora incrível. Esse conto, Lembranças de Sangue, é uma leitura com um clima muito bacana da lenda do lobisomem, onde a Ceres mostra a habilidade que ela tem com descrições na medida certa e em conduzir uma história e nos deixar curiosos por mais. ^^

Algo que por motivos mais particulares me chamou a atenção foi que ela adota um clima de companheirismo e matilha que eu particularmente gosto muito nas histórias com lobos. Quem já jogou algum RPG de lobisomens da White Wolf sabe o clima bacana e as possibilidades de interação que esse clima traz, e ainda assim ele é pouco utilizado.

Mas quem melhor para falar desse conto que a própria Ceres, não é, dá uma olhada:

“Pessoal!fotolateral

Já pensaram como é a energia que está em volta de tudo, principalmente quando precisamos tomar uma decisão?

O conto é exatamente sobre isso, sobre o possível, sobre aquilo que, mesmo em forma de metáfora, pode ser refletido em nossas vidas, em nosso dia a dia. Daquelas coisas que odiamos, mas com as quais precisamos conviver e que, invariavelmente, nos fazem engolir grosso e passar por cima de nossos desejos e vontades para não sermos devorados pelo que quer que seja.

Este conto tem muito da minha energia, assim como também terá da de todos vocês, quando lerem.

Espero que vocês gostem do meu conto e possam curtir a energia do sétimo filho!

Agradeço a vocês pela leitura e comentários.”

 

Sensacional, não acham? 😀

Ela tem diversos outros contos e livros que vocês podem encontrar nos links dessa postagem ou na amazon. Ela está para lançar o Livro Ascendente, uma história de anjos e demônios, que assim que sair eu vou colocar um trechinho aqui para vocês sentirem um gostinho do livro. Quem se interessar pode curtir a pagina do livro lá no face, para ficar por dentro das novidades e para não perder a pré-venda. ^^

Fiquem com a sinopse do Ascendente para atiçar a curiosidade, e saibam vale a pena dar uma olhada nos outros trabalhos dessa mulher, vai por mim. 🙂

 

       Quinze anos após o homicídio de seus pais – Haziel, um anjo, e Stella, um demônio –, o especialista em exorcismos e Mestiço Thomas precisa reaver o Speculum Animae, uma pedra que lhe dará poder e força suficientes para se tornar um anjo puro e terminar com a perseguição frequente a que foi imposto por ser uma mistura impensável dentro da criação. No entanto, para que isso aconteça, ele precisa descobrir como liberar o poder da pedra, cobiçada também por Lúcifer e pelos Arcanjos. Conseguirá Thomas, com a ajuda da Nefilim Mariana, localizar a pedra e cumprir seu intento, enquanto Caliel, um Trono sem quaisquer escrúpulos e líder dos soldados alados, o persegue para entregá-lo, junto com a pedra aos Arcanjos?O Ascendente_BANER