Bom dia galera! Hoje vou falar de um projeto que, acredite se quiser, não tem nada a ver comigo XD, mas quando eu vi esse nome, eu pensei “só pode ser destino” rs, Hoje eu vou falar da coletânea de contos de fantasia que está na catarse agora, Os Contos de Taverna!

 

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       Eu já estava a algum tempo explorando a catarse verificando algum projeto bacana, e eis que eu vejo um que teve a mesma ideia que a minha ao fazer esse site, uma taverna para contar as histórias, e passá-las adiante.

       Os Contos de Taverna é uma coletânea de contos de fantasia medieval que está na catarse agora, esperando bravos aventureiros para ajudá-la!

       Esse livro está sendo produzido por gente muito talentosa, como a Jana P. Bianchi (autora do ótimo Lobo de Rua) e tem até um conto do Mark Lawrence (autor da Trilogia dos Espinhos!), e eu tive a oportunidade de ler os contos, e eles estão excelentes!

       Os contos são todos de fantasia medieval, embora eles abordem diferentes temas e trabalham vários aspectos dentro da fantasia, desde aventura clássica, intrigas, contos que exploram mais o psicológico dos personagens, enfim, tem para todo gosto, e todos muito bem escritos.

       Sobre o livro físico: ele está bonitão!
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Ele vai ter capa flexível, 15,5 x 23cm de tamanho, com 240 páginas. Mas dependendo das metas que forem sendo atingidas, ele vai melhorando a versão física, podendo até ser em capa dura.
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Existem diversos valores para você contribuir com o projeto, e tem recompensas muito boas, como outros livros dos autores, até bolsas e marca páginas personalizados.

       Enfim, eu tive a oportunidade de ler o livro, e acredite, é muito bom e vale apena ser apoiado! No próximo post eu vou falar melhor de cada conto e de cada autor para vocês não terem mais dúvida se devem apoiar ou não… ^^

       La na página da página da Catarse tem todas as informações bem mais detalhadinho, deem uma passada por lá:

       Contos de Taverna – Catarse

Vocês também podem dar uma olhada no Clube de Autores de Fantasia no facebook, que é um grupo bem legal e está encabeçando o projeto! 🙂

Agora, fiquem com uma pequena introdução ao livro escrita pela Jana P. Bianchi, que mostra um pouquinho do que está por vir…XD

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Introdução: Oferendas

Pois é Preciso Entender a Razão Deste Encontro
Jana P. Bianchi

A taverneira pousou o banquinho no chão com um bufar de esforço. Puxou as saias e o avental para cima e subiu no móvel.

— Baku, traga-me o fogo.

A velha criatura com rosto de garoto puxou para si uma das lamparinas da mesa mais próxima. Mais por exibicionismo do que por necessidade, Baku-Karin aninhou um ramo do fogo em suas mãos em concha e cruzou a taverna com passos cuidadosos, grunhindo palavras de dominação em sua língua natal para manter a pequena chama sob controle.

A taverneira estendeu a enorme peça de cera azul na direção de Baku e fez um sinal afirmativo. Nos olhos negros sem pupila do ser da floresta, os reflexos das chamas bruxuleavam em desacordo com as labaredas originais, centelhas de uma vida quente aprisionada em um corpo de criança afogada. Com cuidado, Baku abriu as mãos pálidas e o fogo escorreu para o pavio da vela em um único movimento fluido.

A taverneira sorriu para o menino de cabelos negro-esverdeados e pousou a vela no altar. Aninhou as mãos rechonchudas na frente do corpo e admirou um pouco seu repositório de tantas fés.

— Lina! Lina! — Chamou Baku, depois de alguns instantes, com a entonação pouco natural de quem usava a voz de outro.

Lina despertou de seu devaneio e olhou ao redor. Baku-Karin alternava o olhar apreensivo entre a taverneira e os clientes da taverna, que já interrompiam sua comilança e bebedeira à espera do pronunciamento da matrona rechonchuda.

— Boa noite, senhoras e senhores.

Vozes, grunhidos, sussurros, rosnados, assovios e ondas telepáticas de todos os tipos responderam ao cumprimento.

Lina sorriu. Caminhando lentamente, a taverneira adentrou a área reservada do bar, sentou-se em sua banqueta alta e espalmou as duas mãos sobre o balcão. Baku, como lhe era de costume, sentou-se de cócoras no chão, bem a seu lado.

— Como sabem, o mundo está morrendo.

Houve um burburinho geral, misto de concordância e discordância. Lina, experiente em reboliços de taverna e manifestações em geral, apenas aguardou por alguns instantes. Logo, os protestos cessaram.

A taverneira pigarreou antes de continuar.

— Os ventos sopram na direção do ponto cardeal que bem entendem. Animais tentam acasalar com pares que não são seus, corpos mortos se recusam a repousar e o ano não se divide mais em quatro estações de mesma duração. Se os boatos forem verdadeiros, choveu para cima em Aríete no último verão.

Murmúrios brotaram, menos veementes.

— O mundo está morrendo — sentenciou a taverneira.

Baku ainda não sabia controlar muito bem as reações daquele menino, por isso riu. Notando a falta de reciprocidade, pôs-se a choramingar, resmungar, xingar e, enfim, soluçar, testando as reações que obtinham melhor recepção. Lina estendeu a mão para baixo, acalmando-o. O garoto enlaçou sua mãozinha na dela e se calou.

— Há deuses que criaram mundos através do sopro. Há deuses que destroem o que criaram com dilúvios vermelhos. Há deuses que vivem no fundo do mar, há deuses que vivem no breu e deuses do trovão que vivem além deste mundo, encarrapitados em árvores celestiais. — O céu da tarde não parecia anunciar a chuva, mas a Taberna foi iluminada por um instante pela luz de um relâmpago sem trovão. — Há deuses que são sete, há deuses que se vestem de animais, há deuses que se afogam, deuses que pregam o amor livre e deuses que enxergam através das árvores. Há deuses de pele escura que já foram homens, mas que hoje vivem às beiras do rio eterno que corre em um círculo sem início e sem fim. Há deuses caídos, deuses esquecidos, deuses da lama e deuses do vento.

Lina apontou para seu altar. A luz que emanava a vela azul iluminava igualmente criaturas de cerâmica sentadas em flores que nunca morriam, amuletos tribais de madeira, esculturas feitas com ligas de metais estelares, imagens de barro e de madeira de sacerdotes esquecidos, bonecos de pano espetados por alfinetes, recipientes de vidro com líquidos que pareciam ter vida própria e outros tantos símbolos de fés.

— E existem os deuses que constroem mundos. Alcovas férteis para que novos deuses possam prosperar.

Mais protestos, dessa vez um pouco mais inflamados.

— O fato é que estes deuses estão negligenciados, e isso não é bom. Vejam bem: é com o substrato de outras histórias que sustentam seus próprios universos… Como esperar prosperidade se, há tempos, ninguém os alimenta direito?

Baku batucou uma marchinha no assoalho de madeira. Além dele, ninguém se manifestou. Em ritmo algum.

— E é por isso que vocês, contadores de histórias, estão aqui. Por isso que convoquei os melhores entre os melhores contadores de histórias de cada uma das tribos, bandos, legiões, academias, impérios, tribos e alcateias desse país.

— Vamos sacrificar os que contarem histórias ruins? — Gritou uma selvagem do Oeste, balançando a pulseira cheia de relíquias de inimigos canibalizados.

Alguns riram, outros arrotaram, alguns ainda argumentaram, inflamados. A taverneira apenas revirou os olhos.

— As histórias são as oferendas, Aika. Caso não tenha ficado claro. — Ela suspirou. — Preciso de vocês.

No recinto, fez-se a terceira parte do silêncio. Finalmente, alguém deu um tapa no tampo da mesa.

— Apoiado — respondeu o bardo de pele escura.

— Apoiado — endossou a viajante no tempo.

— Apoiado — acrescentou o filósofo centenário.

— Apoiado — grunhiu o velho selvagem.

— Apoiado — cantarolou a fada.

Baku se levantou e pôs-se a correr pela taverna, batendo palminhas excitadas.

Lina sorriu.

— Pois bem. Quem se habilita a começar?

Em algum ponto no fundo da taverna, uma caneca caiu com estardalhaço. Mãos rápidas enxugaram a mesa com um fino lenço de linho, mas houve quem viu o líquido se esparramar até formar a silhueta de um homem alado, a sombra de um antigo guerreiro caído.

Um instante depois, uma rajada de vento forte abriu a porta, derrubou chapéus, levantou saias e apagou as velas.

A chama do círio azul, no altar, foi a única a resistir.

Com um sorriso no rosto, o primeiro contador de histórias se levantou, fez uma reverência na direção da vela e pôs-se a falar…

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