Liberdade: 1 Direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem; 2 Condição do homem ou da nação que goza de liberdade; 3 Conjunto das ideias liberais ou dos direitos garantidos ao cidadão….

       Bom dia galera! ^^ Hoje vamos falar de uma distopia que se passa em um Brasil onde a escravidão jamais foi abolida, e onde todos são severamente governados pelo governo. Promessa de Liberdade, de Evelyn E. Postali!

       A Evelyn Postali já apareceu por aqui com um conto, e uma coletânea, recomendo dar uma olhada nesses posts. XD                                                        

       Bom, todos aqui devem conhecer o período de escravidão no Brasil, não é? Pessoas feitas de objetos com o proposito apenas de realizar seus trabalhos, tratadas como inferiores e punidas severamente por qualquer deslize, até ter seus sonhos e esperanças estraçalhados. Um baita período ferrado da história do Brasil e do mundo. Aqui em Promessa de Liberdade, vemos um brasil onde esse período por algum motivo não acabou em 1888, e sim perdurou até a era moderna.

       O livro acompanha a história de Carlos de Almeida Paes Leme, é filho de um dos homens mais poderosos do país e dono da maior rede de treinamento escravo. Carlos é severamente contra as ideias do pai, ele se vê em um dilema pesado quando acaba por se envolver com um escravo fugitivo. Essa é uma sinopse muito superficial se comparada a profundidade das discussões que são levantadas no livro.

       Quando eu comecei a ler eu já pensei, sendo critico além da conta XD “Não é possível esse cenário, a escravidão nunca se sustentaria em apenas um pais do mundo, o resto do mundo acabaria por intervir”, mas a autora me fez duvidar bastante disso, fazendo um estudo breve da política que se formou em torno da condição de escravidão, e como os produtos exportados eram muito mais baratos, e assim o Brasil ainda conseguia ter o apoio de diversos países no mundo. Isso me fez pensar em alguns países no mundo de hoje que exploram trabalhadores, conseguem itens muito mais baratos que o normal e ainda assim, todo mundo compra de lá, sem nem falar muito disso, será que existe algum pais assim? …

       O governo brasileiro é autoritário, lembrando em vários momentos o período da ditadura militar. Não só negros são escravos, mas o preconceito é forte em todas as outras áreas, com homossexuais, com mulheres, etc. A censura também está presente controlando todos os aspectos culturais.

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       Negros inferiorizados, mulheres destinadas a empregos menores ou funções domesticas, homossexualidade sendo tratada como depravação. A autora manipula muito bem esses temas polêmicos, e consegue fazer um paralelo entre essa sociedade escravagista e a nossa, de uma forma que nos faz ver com clareza diversos problemas que enfrentamos, e quase não nos damos conta, como toda distopia de qualidade faz!

      Algumas coisas me incomodaram no livro, uma delas foi a tentativa de explicação histórica do porque a escravidão continuou, que eu particularmente preferia que fosse ignorado ou tratado de forma mais vaga, deixando o próprio leitor ficar pensando o que poderia ter acontecido. E algumas cenas eu acho que se estendem demais, mas nada que comprometa a leitura.

       Enfim, a Evelyn Postali nos deu uma distopia incrível, com as características que consagraram o gênero, e 100% brasileira. Se você é fã de distopias já famosas, como 1984 e Admirável Mundo Novo, vale a pena dar uma oportunidade para essa leitura.

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       Você pode encontrar o livro na Amazon e a versão física no Clube de Autores:

Promessa de Liberdade – Amazon

Clube de Autores

      E pode ficar sabendo mais do trabalho dessa escritora super talentosa nas redes oficiais dela:

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Blog Tudo o que se Prende no Olhar

       E sempre lembrando, se vocês verem algum livro nacional de fantasia, ficção e terror aí que vocês tenham gostado bastante, não hesitem em falar comigo, estou sempre interessado no que está acontecendo nesse basilzão. ^^

Formato: eBook Kindle

Número de páginas: 211 páginas

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       E agora, fiquem com um trecho do livro para terem um gostinho….

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O baixo e a guitarra, afinados e lustros, descansavam escorados nas cadeiras e a bateria e teclado aguardavam imóveis pelas mãos ágeis dos donos. A organização do espaço do pequeno palco costumava ser a mesma de todos os ensaios das quintas-feiras. Os músicos, porém, assistiam à cena televisiva de pé, diante do aparelho preso à parede, quase em frente ao balcão, atentos ao cenário de protestos e aos comentários.

Ondas de gás brancas dançavam como personagem principal na tela da televisão, carregadas pelo vento, por entre a multidão dispersa na rua de forma aleatória. A câmera focalizava os rostos apavorados dos manifestantes, atordoados pelo efeito do vapor intoxicante. Olhos cheios de lágrimas, gritos, mãos para o alto, pernas trôpegas. A polícia, mascarada e protegida, avançava de cassetetes erguidos, por trás de escudos transparentes, no ritmo militar forte, dissipando a esperança, a justa ação de reivindicar mudanças.

— A situação aqui é crítica, Elaine. Estamos tentando entender o que gerou a dispersão. — O repórter tentava alinhar-se á câmara, sendo empurrado de um lado para outro ou desviando-se dos que corriam, passando por ele.

Mostrando uma sequência de imagens sem estabilidade, o cinegrafista também se desequilibrava em meio ao tumulto e a dificuldade de encontrar a estabilidade se fazia cada vez mais evidente. Quando o foco voltou-se para um dos passantes e ressaltou o sangue na testa, a chamada do estúdio entrou de forma inesperada.

— A polícia militar continua em frente ao Palácio Iguaçu. A multidão dispersou-se. Segundo fontes oficiais, o Governador agirá em defesa dos direitos dos cidadãos. — A mulher juntava os papéis da mesa. — Em São Paulo, os manifestantes entraram em conflito muito antes de chegarem ao Palácio dos Bandeirantes. Cerca de cem mil pessoas driblaram a barreira policial e o exército se movimentou para impedir o avanço até a sede do governo paulista.

— Estamos ao vivo aqui, Elaine, atrás da linha do exército, mantendo uma distância segura do foco de conflitos. — A figura do repórter apareceu iluminada. — Lá – apontou —, você pode ver a nuvem de fumaça. Há pouco a polícia lançou bombas de efeito moral. O comandante da PM autorizou o uso de balas de borracha caso o grupo insista no avanço.

— A polícia não teve dó, dessa vez. — Miguel Beyer, o baterista, descruzou as mãos e as enfiou nos bolsos do jeans esgarçado nos joelhos. Olhou para Vinícius, ao lado, e prosseguiu. — Vamos ter mais feridos e os caras vão fazer leis mais severas. Pra ferrar todo mundo. É para aprender. E nós sabemos qual será o fim do jovem Alcântara. Vai se cagar todo nas mãos dos agentes da ASN[1] e nunca mais ouviremos falar dele.

Vinícius Heckman, o tecladista, meneou a cabeça em desacordo, suspirando. A situação se agravava a cada ano.

— O que temos em Manaus, Fonseca? — Uma chamada para a capital amazonense mostrou uma tomada da Avenida Brasil. — O que pode nos dizer da manifestação?

— Ela terminou cedo, Elaine. — O câmera girou mostrando a frente da sede do governo amazonense. — Como você pode ver, ela se dissipou bem antes da noite. Estamos com a avenida praticamente vazia. Durante a tarde os protestos foram tranquilos, sem enfrentamento com a segurança.

— Bom ouvir, Fonseca. — Ela girou o corpo ficando de frente para a tela. — A assessoria da presidência divulgou hoje uma nota oficial dizendo que o povo tem direito a manifestar-se, mas que o vandalismo será combatido. — Uma vinheta interpôs-se e o assunto mudou. — A Petrobrás anunciou para o próximo trimestre a construção da 66ª plataforma marítima. Estima-se uma abertura de mil novas vagas escravas. Cerca de 500 negros serão remanejados. As 15 baixas na última plataforma da costa do sudeste não desencorajou o projeto. A nova plataforma produzirá cerca de 90% do petróleo produzido pela construída anteriormente.

— Não temos muita chance nesse país. — O cabeludo, Sílvio Muniz, sentado na cadeira com o encosto à frente levantou-se. — Mantenham a boca calada. É o melhor a fazer. Não quero discussões acaloradas com clientes do bar nem quero separar qualquer tipo de briga com os seguidores da banda.

— Até quando, Silvio? — Vinícius perguntou ligando o teclado. — Não temos liberdade para sermos quem verdadeiramente somos. — Tocou alguns acordes. — Daqui um tempo vamos ser proibidos de ter tatuagens. Ou de termos cabelos longos.

O aparelho de televisão foi desligado e os três uniram-se aos instrumentos, tocando alguns acordes, esperando os outros membros da banda chegar.