Bom dia gente! Como vocês estão? Ta tudo bem por aí? Espero que sim. Hoje eu vou falar de uma obra recente de um ótimo autor nacional que é o Saulo Moreira, e o seu livro, Resquícios de Nós Mesmos. Um suspense com um toque de terror sobrenatural, intrigante e tenso. Vamos falar mais sobre ele…

Esse é um livro de suspense sobrenatural que tem como protagonista o detetive Sandro.

Sandro é um detetive nerd, muito bom no seu trabalho, mais que mesmo assim não recebe o reconhecimento que deveria, tendo que lidar com seu chefe, o delegado José de Arimatéia, sempre o botando para baixo, e o seu chefe não-oficial, Alisson, que também é um detetive, mas que por ser filho do delegado acaba abusando dessa autoridade e sendo mais um nas costas do protagonista.

Esses não são os únicos problemas dele, por causa de um acidente com uma pegadinha que deu errado em uma mansão abandonada, Sandro teve amnesia e “perdeu” 17 anos da sua vida, o que sempre o deixa inseguro de no que ou em quem pode confiar, dando a ele um ar de alguém perdido, sendo carregado pela vida. Isso tudo faz ele ser um homem extremamente desanimado com a vida e com o trabalho.

No meio disso tudo, ele acaba tendo contato com um estranho assassinato em circunstâncias bizarras, na mesma mansão onde ele perdeu a memória, e que tem como testemunha a filha do delegado.  Isso acaba colocando Sandro sobre mais pressão que ele jamais sofreu antes, e pode acabar trazendo à tona muito do passado que ele tenta ignorar.

O foco da história se divide quase que por igual com diversos personagens da trama, os antigos amigos de infância de Sandro. Eu comecei a ler a história direto, sem ver nenhuma sinopse ou resumo, então nos primeiros capítulos, por causa do tratamento que cada personagem tem, eu achei que teriam diversos protagonistas, mas conforme você vai lendo as peças vão se encaixando. O autor faz você conhecer os personagens ao mesmo tempo que vai montando esse mistério que te instiga a continuar a leitura. E, como em qualquer suspense de qualidade, você não vai ficar confortável por muito tempo, e diversas coisas estranhas e bizarras vão acontecendo.

Um dos pontos fortes desse livro é a construção de personagem. Ele faz muito bem o trabalho de te apresentar, e de te fazer se ligar a eles, criando algo mais “orgânico”, com eles sendo tão bem apresentados que parecem pessoas reais, me lembrou muito o estilo de Stephen King de conduzir a história, com uma montagem de enredo e uma exploração dos personagens antes da trama se consolidar. Por isso ela não é apressada, vai lentamente surgindo, enchendo os personagens até que eles comecem a transbordar e, por fim, sejam engolidos pelo mistério principal do livro. Não é um livro que caia bem com uma leitura apressada. Se você não gosta de construção mais calma de trama e personagens vai ser complicado passar pelos capítulos iniciais, mas se você curte uma bela explorada na psique humana, vai ser um deleite a parte.

“…

Logo na entrada do corredor que levava ao camarim das dançarinas, estava um gordo, forte e enorme segurança, parado de braços cruzados, ostentando com cordão, relógio e anéis de ouro. Sem dar a mínima importância a ele, Luiz tentou se esgueirar para dentro da passagem, fazendo com que o brutamonte se despertasse e o segurasse pelo braço.

— Aqui dentro é só para as meninas, ninguém entra.

— Sou um cliente especial, eu vou entrar. — Luiz tentou desvencilhar o braço, mas a pegada do segurança era forte e ele não conseguiu.

— Ordens da casa, ninguém entra.

— Me solta! — Ele reuniu todas as suas forças e puxou o braço. Desta vez conseguiu se soltar, mas o movimento brusco fez com que se arranhasse nos anéis daquele boçal. Luiz olhou para o machucado, um fino risco vermelho marcava a palidez do seu antebraço. E ele não suportou mais. — Quem você pensa que é para me machucar?! De onde você tirou a ideia que pode marcar minha pele?! — andou de encontro ao seu oponente, batendo com o dedo no peito dele e falando alto. Vinte centímetros de diferença de altura, pelo menos quarenta quilos de desvantagem, era um chihuahua avançando em um dogue alemão. E por incrível que pareça, o grandalhão retrocedia. Olhar diretamente nos olhos de Luiz causou um desconforto no segurança. — Você não é nada! — Ele explodiu mais alto que qualquer som emitido no ambiente.

O brutamonte permaneceu atônito. E segundos se transformavam em horas até que alguém interveio.

— Senhor Luiz. — era o gerente que falava. — Sempre nos agradamos de sua presença e gostaríamos que continuasse assim. Vamos nos acalmar e resolver esse mal-entendido, qualquer que seja ele.

— Esse lixo me marcou. — Luiz encarava o segurança que preferiu olhar para o gerente.

— Acredito que tenha sido um acidente. — O gerente fez sinal com a cabeça para o funcionário sair e ele obedeceu.

O programador continuava desconsolado e o gerente o conduziu até uma mesa.

— Notei que está inquieto hoje, qual o problema?

— Eu preciso ver a Selkis.

— Quem?

— A Hilda.

— Sinto muito, mas ela está em atendimento externo hoje.

Atendimento? Maldição. Algum desgraçado, maldito e indigno filho da puta está com as mãos na minha Selkis! Respirou fundo. Cerrou os punhos. Deu um soco estrondoso na mesa e saiu do estabelecimento sem prestar conta de nada que aprontara ali.

Luiz rompeu carro adentro batendo a porta e arrancou o mais rápido que pôde. Usou comando de voz e mandou que o MP3 do automóvel tocasse “Dance of the Hours” de Amilcare Ponchielli. A esperança era que se acalmasse com as notas suaves da música, mas a cada novo acorde, por mais pacífico que soasse, somente a ira crescia dentro dele.

…”

Toda essa construção obviamente cobra seu preço, por uma questão pessoal minha creio que as descrições devam dar somente o necessário, e acontece justamente o oposto disso aqui, com detalhamento de roupas, cores, moveis, carros, drinks… nos capítulos iniciais tudo é excessivamente descrito com um metodismo exagerado, e isso me dava até agonia na hora de ler XD, por outro lado isso mostra um cuidado com detalhes, conhecimento de diversas áreas e uma organização espacial muito boa do autor. Meu gosto tende a ceder para textos mais diretos possíveis, e se você tem um gosto parecido com o meu, eu recomendo paciência nos primeiros capítulos da história, esse detalhismo diminui conforme vai se aproximando do final. Como é um livro de descobertas, fica complicado dar mais detalhes sobre a trama sem estragar alguma pequena surpresa que se apresente no caminho.

E conforme tudo vai conduzindo para o mistério final, o livro vai em um crescente de ritmo que vai te deixar grudado nele, com as diversas peças se encaixando, e Sandro encarando de frente todos os seus problemas.

Eu queria fazer uma observação especial pelo final do livro, que é, por incrível que pareça, emocionante. Enquanto eu lia, eu pensei que o autor provavelmente havia passado por algo muito parecido na vida real, pois não seria possível ele colocar aquelas emoções nas páginas sem as ter vivido. Se ele passou por algo ou não é irrelevante, o importante são as emoções que ele instiga no leitor. O que mostra muito da habilidade de Saulo Moreira a lidar não só com o sobrenatural, mas com emoções e pessoas, o que eu considero a base de qualquer bom escritor.

Se você gostou do que leu, pode encontrar esse livro na Amazon, e também o primeiro livro dele, O Grupo, um suspense envolvendo um grupo de amigos jogadores de RPG.

ogrupo
Fonte

Embora apenas o segundo livro tenha o envolvimento do sobrenatural, os dois são boas pedidas para os fãs dos gêneros suspense e policial, e ótimos exemplos desses gêneros na literatura nacional.

Resquícios de Nós Mesmos na Amazon!

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