Buenos dias mi amigos! Que passa? Já ouviram lendas de lobisomens? Se você já teve contato com alguém mais do interior, já deve ter ouvido uma ou outra historia. É uma lenda antiga, e que chama muito dos nossos próprios extintos de sobrevivência, imaginando em cada sombra um predador em potencial, e que também nos coloca em confronto com a nossa falta de em capacidade controlar nossos instintos de raiva e selvageria, até mesmo quando estamos lidando com pessoas que amamos.

       Hoje eu vou falar sobre um livro de lobisomem escrito pela talentosa Jana P. Bianchi, Lobo de Rua, lançado pela editora Dame Blanche! E também vou falar um pouquinho sobre o uso e reuso e o uso novamente de ideias que já estão sendo usadas a séculos…

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A Primeira Edição do Lobo de Rua, também com uma ótima arte de capa.

       “O aroma de gente fraca era mais gostoso que o aroma de sopa. Os cheiros chegavam juntos ao beco, preenchendo os cantos escuros com a promessa de matar varias fomes, mas era o rastro de medo que fazia a boca de Raul salivar, a baba espessa pingando no chão. O moleque sabia que aquilo não era certo, não fazia sentido ― Mas não havia sentido nenhum em um mundo onde a luz da lua queimava a alma e ofuscava os olhos.”

       O livro conta a historia de Raul, um menino de rua afligido pela maldição da licantropia. Vamos acompanhando as primeiras transformações dele, até que ele é encontrado por um lobisomem muito mais experiente, Tito, que o ajuda nos pormenores da transformação e explica para ele o “submundo” em que agora ele está envolvido.

      Raul é um garoto bem sofrido, e o texto não esconde isso em nenhum aspecto. Ele já sofria antes pela vida nas ruas e com a maldição isso só se agravou. O texto da Jana explora muito os sentidos do leitor, com cheiros, toques e sons, sem fazer uma leitura descritiva pesada. Conforme vai lendo, você acaba sentindo os cheiros, as dores e alegrias sem parecer que você leu aquilo tudo, como se o texto não saísse das folhas para a sua mente, e sim te puxasse para dentro da cena. Isso é muito bom para demonstrar o sofrimento de viver nas ruas, e a grotesca transformação em lobo, movendo ossos e esticando a carne. A autora faz isso sem transformar a historia em um horror gore, e toda essa graça é um dos pontos fortes do livro, na minha opinião.

       A partir do momento em que Tito chega, Raul se torna o personagem ouvinte, acompanhando o leitor na apresentação de toda a mitologia por traz dos lobisomens e um pouco do mundo fantástico além do mundo normal. A história se revela como sendo de mestre e discípulo, onde daí para frente vai se explorando mais a relação de Tito e Raul.

       O livro vai crescendo de um drama com a situação de Raul para algo mais voltado a fantasia urbana, lá para o finalzinho apresentando relances de uma história a mais, com a apresentação da cigana, o minotauro(!) e sua Galeria Creta (um tipo de ponto de encontro para as coisas mais “fora do comum”), isso tudo indo muito além de Raul. Mais são apenas alguns detalhes que provavelmente a autora vai explorar em livros futuros.

       “Talvez por causa de casos de licantropia mal acobertados, doenças mentais sempre foram associadas as fases da lua ― Até hoje diz-se ‘lunático’ daquele tomado de excentricidades e humor inconstante. Mal sabiam os antigos, no entanto, que a maldição é mais relativa ao corpo, fleumas e instintos do que à pobre mente do sujeito, que continua acesa e estável durante todo o surto. ”

Caetano Estrada, Novus Codex Versiopelius

        Eu achei que a história se perde um pouco nas nuances emocionais. Partindo de um drama com lobisomem para uma fantasia urbana, os temas não são mostrados com a profundidade que eles mereciam. O que é uma pena, pois no pouco que foi retratado no livro, já ficou claro a habilidade da autora. Esse tratamento rápido provavelmente se deve ao fato do livro ser extremamente curto, não chega nem a 100 páginas, deixando a obra com um gosto de prologo, o que é uma pena.

       Enfim, é um livro bem escrito, com bons personagens e claramente um universo inteiro por trás a ser explorado. A minha principal “critica” é que tem pouca história, e eu queria mais, o que deve ser um bom sinal né XD. O que eu li só me deixou curioso de ver um livrão de 600 páginas escrito pena Jana, que com certeza seria algo memorável. ^^

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       Vale uma nota aqui sobre o conto Sombras, da mesma autora e disponível da Amazon. O conto é bom, o Tito também aparece por lá, junto com vários outros lobisomens se despedindo de um velho companheiro de matilha que está para morrer. Pela própria natureza da história, aqui você encontra uma atmosfera muito saudosista. Eu não recomendo que você leia primeiro esse conto. Se você gostar do livro, leia o conto, onde você vai encontrar mais da boa narrativa da autora. ^^

Sombras na Amazon!


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Ótimo design do lobisomem de Harry Potter, frágil e ao mesmo tempo monstruoso e assustador.

       Mas não é só sobre isso que eu queria falar aqui nesse post. Como vocês viram, esse livro fala sobre lobisomens, o que é um tema explorado DEMAIS na cultura pop, e até mesmo antes do termo “cultura pop” existir, ele já era excessivamente explorado. Eu já vi novos escritores que se incomodam muito com temas batidos, sempre tentando inventar algo novo para falar sobre, criar e revolucionar o universo em seu texto, e também vi (em muito maior numero) gente que não liga para o tema que está falando e escreve sem nem pensar em inovar. E os dois tipos estão um pouquinho errados.loboderua5

       No Lobo de Rua, a autora pegou um mito já batido e acrescentou alguns elementos que,
por mais usada que fosse a lenda da licantropia, nuca se viu todos esses temas juntos, que no caso aqui é o garoto de rua amaldiçoado, ela ainda incluiu seu próprio universo magico urbano nessa mistura, e com isso criou uma roupagem nova para a temática dos lobos. Isso foi na parte das ideias, mas o MAIS IMPORTANTE, lembrem-se disso, é a maneira como você escreve, é isso que é importante ser original. E nisso a Jana também acerta, escrevendo de um jeitinho que só ela conseguiria.

       Ao usar uma temática batida, como vampiros, tente ver como esse tema foi tratado até agora. Procure grandes obras, coisas clássicas, pois as vezes o que você acha que é uma boa maneira de tratar uma ideia pode já ter sido usada e estar fazendo sucesso já a algum tempo. E isso serve também para ideias que você acredita ser original. A imaginação das pessoas vai mais longe do que você imagina.

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Werewolf by Night, da Marvel Comics

Mas isso não é o mais importante, o mais importante é muito mais complicado, que é a escrita em si. Uma ideia batida e usando claramente a jornada do herói (que é uma estrutura super usada), ainda assim, quando bem escrito, vai ficar única. Mas isso é uma coisa que exige MUITA pratica escrevendo e MUITA experiência lendo.

 

       Uma pequena dica é não ter medo de usar as coisas da sua vida na sua história, e eu não estou falando dos livros que você leu, e sim da sua vida mesmo, como as personalidades da sua família e dos seus amigos, a sua cidade ou algum acontecimento que você presenciou. Vai deixar as coisas muito mais pessoais no seu texto, o que vai facilitar o tratamento único que ele merece, deixando o texto mais pessoal para você.

       E leia muito! E leia como um escritor, observando as estruturas, tentando ver de onde vieram as ideias, como é a abordagem do texto, etc. Não para copiar, mais para entender a profundidade do texto.

        Basicamente, não tenha medo de usar temas batido, e nem de inventar algo novo. Tente evitar que o seu texto fique muito parecido com vários outros, “só” isso XD. Não é a ideia que faz um texto ser bom ou não, é a execução.

Lobo de Rua na Amazon!

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