Boa noite pessoal! Tudo bem por aí? Li recentemente um livro muito bom, que não chegou a me surpreender, pois eu já tinha ouvido falar de todos os cantos possíveis as melhores coisas sobre ele. Neuromancer, de William Gibson lançado pela Editora Aleph. É um clássico do cyberpunk, e influenciou tanta coisa que, quando lido atualmente, causa uma estranha sensação de déjà-vu. E eu escolhi essa obra visionaria em seu tempo, para falar sobre o equilíbrio entre a inovação e a realidade na escrita. Primeiramente, vamos ao livro…

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       Neuromancer conta a história de case, um cowboy do ciberespaço (um hacker), que tinha grande habilidade em invadir sistemas, e vendia essas habilidades para quem pagasse mais, até um dia ele decidiu roubar de seus contratantes e acabou sendo pego. Os seus contratantes, irritados, utilizaram uma droga para destruir parte do seu sistema nervoso e impedir ele permanentemente de hackear qualquer coisa novamente. E nessa situação que case esta, incapacitado de fazer aquilo que era melhor, sem esperanças de reverter esse processo, ele começa a beber e se drogar em uma lenta espiral de autodestruição. Até que ele é encontrado por Molly, uma samurai urbana com implantes cibernéticos. Ela, a serviço de um misterioso homem chamado Armitage, oferece a ele a oportunidade de ser curado dos seus problemas e ainda ser bem pago, ele só precisaria se colocar a serviço de Armitage, em um trabalho que vai muito além de qualquer coisa que já tenha sido feita por ele. Neuromancer um thriller de assalto, em um mundo muito peculiar…

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       O livro é um cyberpunk, um gênero que foi muito influenciado pelo próprio Neuromancer. Nele a tecnologia está muito avançada, as cidades cresceram a níveis absurdos, mas também a pobreza e a criminalidade se alastram, os grandes poderes do mundo não são mais governos, mas megacorporações. Do ponto de vista de Case, vemos os lados mais sujos dessa sociedade. Drogas de todos os tipos, crime organizado e a sujeira das ruas. Uma sensação de claustrofobia dentro de cidades imensas e lotadas de pessoas. Não tem uma cena do livro em que você sinta que está no exterior de algum lugar, mesmo quando algum horizonte é descrito, sempre parece algo apertado e claustrofóbico. Talvez isso seja algo que Case carregue com ele, ou talvez seja algo que os avanços do mundo causaram em todos. Isso é algo que eu costumo ver em outros cyberpunks, e que eu gosto muito.neuromancer-1

       Mas nem tudo são flores. O autor se perde muito nas descrições, e uma leitura rápida pode não ser o suficiente para você visualizar uma cena. Em alguns momentos, a compreensão confusa do exterior é justificável, principalmente quando se está no ciberespaço, onde o mundo é mais subjetivo e tem muitas coisas que não tem paralelo no mundo real. Mas tem alguns trechos que a escrita parece só atropelada mesmo, parece uma certa pressa em escrever, na esperança de que essa velocidade fosse passar para a cena de alguma forma. Se intencional é um recurso muito legal por definição, mas ainda assim eu não curti muito.

— A matriz tem a sua origem nos jogos eletrônicos primitivos — disse a voz — nos primeiros programas gráficos e nas experiências militares com expansores cranianos. — No monitor Sony uma guerra do espaço, bidimensional, desaparecia atrás de uma floresta de fetos gerados matematicamente, demonstrando as possibilidades espaciais das espirais logarítmicas; metragem militar azul-frio ardida; animais de laboratório ligados por fios a sistemas de ensaios; elmos alimentando circuitos de controle de incêndio de tanques e aviões de combate. — O ciberespaço. Uma alucinação consensual, vivida diariamente por bilhões de operadores legítimos, em todas as nações, por crianças a quem estão ensinando conceitos matemáticos… Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas que abrangem o universo não-espaço da mente; nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como luzes de cidade, retrocedendo.

       A melhor coisa de Neuromancer, na minha humilde opinião, é o universo que o autor criou. Ele pensou em tanta coisa incrível, em um nível tão fascinante. Sempre que falam da influência desse livro citam o quanto ele “previu” e o quanto ele influenciou da nossa tecnologia atual, com temas como a internet, realidade aumentada, Inteligências artificiais, entre outras. Sem falar na criação de mundo não relacionada a tecnologia, que também são impressionantes. Alguns que mais me chamaram a atenção foram a cidade de Zion, com sua gravidade bizarra e sua cultura rastafári, e um dos lugares principais do livro que é Freeside, uma estação espacial feita para os ricos curtirem os prazeres da vida, e que dá um baita contraste com as cidades normais, sujas e escuras.neuromancer-8

       E, é claro, eu não podia deixar de falar dos personagens do livro, mais precisamente dos quatro desajustados que dividem o protagonismo com o Case, e que são um show à parte, a maioria deles pelo menos. Case, o protagonista, hacker viciado em drogas e em se conectar no ciberespaço: ele não me atraiu muito, eu não vi nele em especifico grandes coisas novas, e talvez eu tenha tido essa sensação  por esse arquétipo ter surgido aqui e utilizado muito em outros lugares. A história de Armitage é meio que um spoiler, pois no início de livro ele é rodeado de mistério, então só vou dizer que ela é incrível, insana e bizarra. Ele que junta a todos para esse serviço, mas vai lentamente perdendo as rédeas da situação. Riviera, um criminoso com implantes que fazem com que ele possa projetar ilusões, é um personagem que se faz odioso em praticamente todas as cenas dele, o que o faz um personagem ótimo, eu acho XD. E a melhor personagem do livro, a Molly, uma samurai urbana, contratada para ser os “músculos” da equipe, ela tem uma baita história legal e é f%$#! A construção de personagens desse livro é muito boa.

       E um pequeno comentário é a respeito da capa da edição mais recente da Aleph, feita pelo artista Josan Gonzalez, o cara manda muito bem, e tem muitas artes no estilo cyberpunk. Deem uma olhada no trabalho dele, vale a pena. ^^

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Esse ilustrador é muito show!

       Em resumo, é um baita livro com uma criação de mundo e de personagems muito boa, que deixa você besta ao pensar em como tudo isso pode ter saído da cabeça de um ser humano. Alterna entre uma escrita mais tranquila para todo tipo de público e outra bem mais densa e complicada, que pode causar um baita estranhamento em um leitor mais casual. E além disso tudo, esse livro é um baita clássico, e ler ele é obrigatório para qualquer fã de ficção cientifica, e principalmente para os fãs de cyberpunk.

       E, por esse ser um livro tão revolucionário em ideias e temas, resolvi falar sobre algo que todo autor tem que balancear, que é o equilíbrio entre as suas criações e as coisas com as quais todos estamos acostumados…

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Liberte sua mente, mas nem tanto…XD

       O que eu quero dizer com isso: Em ficção especulativa, de maneira geral, todo leitor quer ser surpreendido com a história (alguns mais que outros) mas eles também precisam achar uma coisa mais familiar para terem uma ligação melhor. Quando eu digo coisas surpreendentes e familiares, eu não estou querendo dizer coisas fora da nossa realidade e coisas dentro dela, e sim coisas com as quais não estamos acostumados e com as quais estamos.

       Um pequeno exemplo no próprio Neuromancer: apesar de todas as suas invenções fora da realidade, Case tinha problemas com drogas, que é uma temática com que estamos acostumados, fazendo o estranhamento do ciberespaço e dos lugares novos serem melhor aceitas.

       Novamente, não é só uma ideia do nosso cotidiano que é familiar, também tem aquelas ideias comuns na ficção, como por exemplo, os elfos. Eles têm muita longevidade, são melhores magos, artistas e melhores com o arco. Todas essas ideias são familiares, é o tipo de coisa que todos esperamos quando ouvimos falar de elfos. Coisas que se transformaram em clássicas são os elementos familiares, e quando usados, tem que ser mais a base da sua história, e não o ponto central.

       O equilíbrio entre familiar e inovador vai de pessoa a pessoa. A inovação costuma ser mais almejada na ficção cientifica do que na fantasia. Eu particularmente acho que tem que ser a base de uma história. Não gosto muito de ver um texto só com elementos comuns, falando sobre temas também comuns na literatura. Como por exemplo uma briga racial entre elfos e anões.

       Um pequeno exemplo do que eu estou falando seria pegar esses elfos tradicionais, e fazer com que, para manter a longevidade deles, eles tenham que manter outras raças prisioneiras para ir roubando tempo de vida delas. Isso dá uma nova forma de construir a raça no seu mundo, levantando algumas boas questões, como por exemplo, será que isso é uma coisa que todos sabem ou é um segredo? Como as outras raças vão reagir a isso se descobrirem? O que isso muda na bússola moral dos elfos? Talvez nem todos os que tem a vida roubada lentamente sejam prisioneiros, talvez alguns negociem essa vida, ou talvez seja por devoção cega a “raça divina dos elfos”…. Pode não ser um exemplo bom, mais vocês entenderam XD.

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Por que os elfos se escondem tanto na floresta? Por que tem uma cultura tão fechada? Parece que estão tentando esconder alguma coisa…

Meu conselho, de acordo com meus gostos pessoais, é: pensem em algo inovador antes até de começarem a escrever, aí com base nessa ideia trabalhem as coisas tradicionais que vocês almejam, como elfos contra anões, ou a historia de um pai contra o filho. Obvio que isso é um conselho para ficção especulativa, acho que pode gerar algo muito bizarro se você tentar inovar demais em um romance erótico, por exemplo XD.

       Vou indicar rapidinho o podcast do Brandon Sanderson, o Writing Excuses, que eu tenho escutado e apreendido muuuuita coisa boa, e de onde eu roubo varias ideias tbm XD. Se você entende inglês e que apreender mais sobre escrita, escute, você não vai se arrepender.

       Bem, é isso. Leiam Neuromacer. Até para ficar por dentro das temáticas dos filmes que vão estrear esse ano Ghost in the Shell e Blade Runner 2049. E quando forem escrever, achem o equilíbrio que mais agrada vocês. ^^

Versão lida: Física
Paginas: 312

nota4

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