Boa noite pessoal! E aí, tudo blz?

Quantos de vocês já foram crianças? Muitos, eu suponho, mas muitos também esquecem disso. Hoje eu vou falar sobre um livro que me lembrou que eu já fui criança, O Oceano no Fim do Caminho de um dos meus autores favoritos, Neil Gaiman! E também vou falar um pouquinho sobre como escrever de uma maneira mais… completa, eu acho. Vamos ao livro…

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Ninguém foi à minha festa de aniversário de sete anos.

Havia uma mesa arrumada com gelatinas e pavês, um chapéu de festa ao lado de cada prato e, no meio, um bolo com sete velas. Em cima dele, um livro desenhado com glacê. Minha mãe, que organizara a festa, contou que a moça da confeitaria confessara que eles nunca haviam colocado um livro num bolo de aniversário, e que faziam, para a maioria dos meninos, bolas de futebol ou naves espaciais. Eu fui o primeiro livro dela.

Quando ficou claro que ninguém apareceria, minha mãe acendeu as sete velas e eu as soprei. Comi uma fatia do bolo, como também o fizeram minha irmã caçula e uma de suas amigas (ambas participando da festa como observadoras, e não como convidadas) antes de baterem em retirada, rindo, para o jardim.

Minha mãe tinha preparado brincadeiras para a festa, mas, como não havia ninguém lá, nem mesmo minha irmã, nenhuma delas foi realizada, e eu mesmo desembrulhei o presente da brincadeira “passa o pacote”, enrolado em várias folhas de jornal, revelando um boneco de plástico azul do Batman. Estava triste por ninguém ter ido à minha festa, mas feliz por ganhar um boneco do Batman, e ainda havia um presente de aniversário esperando para ser lido: a coleção completa de As crônicas de Nárnia, que levei para o meu quarto. Deitei na cama e me perdi nas histórias.

Gostei disso. Livros eram mais confiáveis que pessoas, de qualquer forma.

Sendo o mais simplista possível na sinopse, ela começa com um homem que, após um enterro de um ente querido, vai até sua antiga vizinhança, e lá ele acaba se lembrando de um mar de acontecimentos do seu passado.

Mar não, oceano. Um oceano de lembranças.

Quando ele tinha sete anos os seus pais não estavam passando por um momento bom, e foram obrigados a alugar seu antigo quarto para um minerador de opala. O minerador vai até o final da estrada e se suicida, e com esse ato, chama a atenção de coisas perigosas para o mundo. E é também por isso que o protagonista acaba conhecendo a família Hempstock, que é composta por Lettie, com seus onze anos, a sua mãe e a sua avó.

Por um descuido do garoto, algo maligno acaba se ligando a sua vida, e se personifica na forma de Ursula Monkton, a “coisa” que se finge de governanta, e só deseja destruir a sua vida. Ele vai precisar da ajuda das mulheres sabias da família Hempstock para lidar com isso.

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A sinopse não entrega tanto do que eu achei de mais especial no livro. Algo que eu senti quando eu li e senti novamente quando estava dando uma olhada para fazer essa resenha, mas já vamos chegar lá…

Esse livro tem a temática de fantasia infanto-juvenil, e a fantasia é apresentada com sutileza aqui de uma maneira que muitas vezes o real e o fantástico se misturam, o que da um ar um pouco dúbio para o livro. O protagonista é uma criança, e todas as informações são passadas pelo filtro do olhar de alguém jovem.

A narrativa do Neil Gaiman é sutil, delicada e principalmente melancólica. Até mesmo as coisas aterrorizantes e bizarras aqui têm um tom diferente. Tudo tem um sabor de devaneios do passado, pois afinal é um adulto que está convivendo com suas lembranças. A vida dele não tem mais nada daquela simplicidade, daquelas pequenas coisas que o faziam feliz antes e daquele singular ponto de vista que só uma criança é capaz de ter do mundo. Nem mesmo as memorias acompanham ele mais… é triste, e muito, muito comum.

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Nenhum dos personagens tem características muito chamativas. O protagonista é uma criança solitária que prefere a companhia de livros. As três mulheres da família Hempstock são super simpáticas, e a forma com que usam a “magia” delas é muito legal, creio que são meus personagens favoritos do livro. A vilã acaba tendo uma representação dupla aqui, brincando com um medo do personagem. O motivo pelo qual ela vem à tona é incrível, e dá o que pensar. Bem, todos os personagens acabam sendo tratados com o mesmo clima delicado que o resto do livro carrega, o que não da espaço para características muito extravagantes.

Uma das coisas que me chamou atenção, falando de uma maneira mais técnica, foi a escrita do autor. Ele não fala o que o protagonista está pensando na maioria das vezes, ao invés disso ele mostra a você, e muito bem por sinal. Ele vai descrevendo a cena e deixa você sentir as coisas, você fica pensando o que está se passando na cabeça da criança, e com uma cena ou duas, talvez um pequeno dialogo, ele mostra tudo o que você precisa para perceber a personalidade da criança. Como eu disse, ele não faz isso o livro todo, mas tem algumas cenas ótimas, como quando ele conhece o minerador de opala, que é um belo exemplo de cena assim.

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Se você não conhece Neil Gaiman, eu recomendo muito! Ele tem um monte de livros, de várias temáticas diferentes. Alguns mais adultos, como Deuses Americanos, e Lugar Nenhum. Outros mais parecidos com a temática desse livro, como Coraline, e todos, sem exceção, são bons. A Obra máxima dele na minha opinião é o quadrinho Sandman, que todos deveriam ler, por ser muito incrível XD. O Oceano no fim do Caminho não é o melhor do Gaiman, mas é um ótimo livro, e muito bom para você começar nos textos desse autor se você não tem costume de ler fantasia.

O protagonista não tem nome, e carrega muito do próprio autor, dos lugares de sua infância e dos seus medos e sonhos. Eu acho que é por isso que ele tem esse peso tão tocante e tão sensível.

Enfim, o livro é ótimo uma aventura infanto-juvenil delicada e melancólica, que qualquer um, de qualquer idade tem chance de encontrar ali um pouquinho de si mesmo, principalmente se você, assim como eu, sempre confiou mais em livros do que em pessoas.

Versão Lida: Livro Físico

Páginas: 208

Editora: Intrínseca; Edição: 1 (11 de junho de 2013)

Livro na : Amazon / Submarino / Saraiva

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Bem, e o que eu tenho pra falar hoje não é bem uma dica… é mais uma coisa que veio na minha cabeça enquanto eu dava uma relida nesse livro, que é sobre os sentimentos dos personagens.

Vocês já repararam em vocês mesmo enquanto escrevem? Nós temos uma tendência a esquecermos do passado e pensar em nós mesmos como a nossa “versão” final e única, sem lembrarmos que ainda vamos aprender e o quanto aprendemos. Isso é obvio, você não pode passar todo o seu tempo remoendo o passado, e nem olhando para o futuro…

Mas, quando o seu personagem é assim, ai complica. Muitos dos processos de criação têm como base o personagem finalizado, e alguns raros mostram algum traço do seu passado, isso não é um problema, nem um pouco. Mas o que eu queria pensar aqui é como escrever para que alguém sinta aquele seu personagem como um todo?

Neil Gaiman na sua escrita transborda sentimento. Não só nesse livro, mas em todos, você sente os personagens de uma forma que dificilmente você vê em outros autores. Como ele faz isso? É uma boa pergunta.

Os personagens dele são muito humanos, e é natural para quem ler se conectar com eles (seja com atenção, com carinho ou com ódio) e é isso que todo escritor tem que buscar: os sentimentos dos leitores. E você não pode fazer isso se não entender bem o que faz as pessoas terem essa conexão, e o que faz você mesmo se sentir assim.

Bem, como eu disse isso não se trata de uma dica, é só uma… reflexão. O quanto você humaniza seu personagem, e o quando deixa ele bidimensional? O quanto ele tem um passado, e quer ter um futuro? E o quanto você que esta escrevendo tem um passado e quer ter um futuro? Você se lembra de estar bem ligado com os seus sentimentos quando esta criando, ou só se lembra de colocar os arquétipos e seguir com a história? Lembre-se de se conectar com seus personagens, para que o leitor também consiga fazer isso.

Bem, eu vou falar mais detalhadamente sobre isso em um artigo mais detalhado, mais a parte mais importante de qualquer historia são os personagens, então eles são o que mais você tem que prestar atenção enquanto cria.

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