– Sara, preciso que relaxe. Ouça apenas os comandos da minha voz. Respire pausadamente e, no três, recline-se no sofá e lembre-se novamente do dia que me falou. – Instruiu o psicanalista Harper, em sua sala à meia luz amarelada, vinda de um pequeno abajur na mesinha lateral, ao lado do sofá marfim de três lugares onde Sara pairava em suas memórias. 

       O ser humano guarda muitos detalhes de suas memórias que parecem ser irrelevantes, mas o inconsciente é fabuloso nesses aspectos. Muito do que é realidade se confunde com o que é fantasia, medo, escuridão. Numa tênue linha do tempo, pode-se traçar todas essas memórias, como fotografias penduradas num barbante, esperando que a imagem se faça completa no papel, bastando a iluminação e o tratamento correto…

       Na noite do dia 22 de outubro de 1994, o jornal principal da cidade do Kansas relatou o que acontecera no remoto vilarejo dos produtores de trigo da colina mais afastada, onde se podia ver o último raio de sol banhando de dourado a plantação. Os gêmeos Henri e Herick Preston estavam desaparecidos há duas semanas, foram vistos pela última vez por Sara, a prima mais próxima, fazendo a seleção por área do trigal para a colheita vindoura. Cinco senhores de terras haviam planejado uma busca minuciosa, a começar pela propriedade da senhora Browls, uma mulher já idosa e que residia na última casa, após a capelinha na encosta da colina. Mas o que mais chamara atenção naquele dia foram os eventos logo após o desaparecimento. Nas páginas cinzas do jornal podia-se ver a fotografia da varanda da família Preston, banhada de sangue escorrendo pelas valas das tábuas de madeira, seladas por arranhões profundos justapostos e um rastro pesado deixado, indo em direção ao celeiro oeste, como se algo tivesse se deslocando e queimando a terra, de modo que a areia grossa se fundisse e, logo em seguida, serrilhasse em cristais trincados. As paredes estavam cobertas de cinzas e poeira.

       Os trigais se interligavam por uma única passagem. As casas dos senhores de terras ficavam defronte à plantação, de modo que a varanda contemplasse todo um jardim antes da vastidão de trigo. Havia mesas de madeira e uma árvore retorcida propositalmente pela natureza para emprestar um braço de galhos, uma boa sombra e sustentação a um balanço de corda e madeira escura.

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       – Certo Sara, acabei de ler todas as informações que tenho da sua última sessão. Diga-me onde você está agora. – Harper instigava a memória de Sara, a fim de extrair a maior quantidade de pistas daquele dia.

     – Sara, onde você está? – Repetiu o especialista ratificando com mais intensidade a pergunta.

       – Eu…Eu estou voltando para o celeiro oeste, segurando minha mochila de lona. Deixei meus primos na plantação fazendo a seleção. Está um dia muito claro e quente. – Respondia Sara mexendo um pouco o ombro direto, como se sentisse o peso da alça da mochila.

       – O que você foi fazer no celeiro? – Retrucou imediatamente o psicanalista, mas num tom calmo, enquanto anotava com sua letra miúda e bem desenhada.

       Sara sentou-se no sofá, fez um gesto como se puxasse do ombro a mochila, abrindo a aba e puxando um objeto.

       – É um diário que achamos no porão da velha Browls. Decidimos guardar com medo de que ela descobrisse que nós íamos escondidos nas sombras das árvores até lá para ver as coisas do porão dela. Ela iria pensar que perdera o diário. Eu havia dito aos meus primos que iria esconder no andar de cima do celeiro.

     – Vocês leram algo desse diário? O que havia escrito? – Indagava o especialista, forçando mais alguns minutos da sessão.

       – Escrito não há muito, mas há muitos desenhos de criaturas e símbolos ao redor delas, parecidos com os da gruta da encosta da colina, onde o papai nos levava para pegar insetos para colecionar. – Falava Sara enquanto esticava o braço para uma direção arbitrária para a colina.

      – Você foi à gruta naquele dia, Sara?

   – Fui. Tentei esconder o diário lá. – Sara tremia, seus braços delgados e brancos começaram a dar espasmos.

       – E porque desistiu de esconder lá?

      – Porque quando coloquei o diário na fenda das rochas, ele sumiu na escuridão e ouvi sussurros vindos de lá, como se mil pessoas falassem ao mesmo tempo. Saí correndo e quando cheguei na entrada da gruta ele estava lá, no chão. Entendi que ele não queria ficar lá.

      – Você pode me levar agora até essa gruta e descrevê-la para mim? Diga-me como chego lá. – Pediu Harper.

       Sara tinha apenas 13 anos, mas era muito inteligente, tinha uma memória fotográfica incrível, mesmo depois do trauma que passara. Foi encontrada em estado de choque na noite daquele dia, sentada no jardim, olhando sem pestanejar para a plantação, iluminada pela luz lunar que refletia em sua pele branca. Culpava-se de ter deixados seus primos sozinhos. Já era tarde e eles não tinham voltado.

       Harper anotava tudo no seu caderno quadriculado, enquanto Sara descrevia:

       – Passando pelo caminho atrás da capelinha, em direção ao cemitério do alto da colina, há um caminho transversal com margens de árvores retorcidas, nuas de folhas. Após a pedra grande angulada que aponta para o céu, siga à direita, até o espinheiro. A gruta é inclinada, numa descida muito íngreme, passa despercebida. Estou descendo, mas só posso ir até certo ponto, onde ainda há luz. O som dos sussurros é ensurdecedor, estão ficando mais próximos, não consigo… – Sara aumentou a intensidade dos espasmos, mas logo depois ficou em estado catatônico, sentou-se novamente no sofá, apontou para a janela e virou seu rosto fino em direção a vidraça molhada pela chuva, que ressoava com os relâmpagos.

       – Sara, o que você viu? Descreva para mim e acabaremos!

      – Eu sei! Agora eu sei quem matou meus primos. Sim, ele os matou e está me vigiando. Ele não dorme, nem respira, sua voz me induz a ficar paralisada, não consigo mais suportar o peso. Está aqui, olhando-me pela janela – Sara se retorcia, sua voz mudara e sua mandíbula se deslocava para o lado.

       Naquele momento, a meia luz do abajur piscava intermitentemente, enquanto Harper tentava conduzir Sara de volta à realidade, alterando o tom da sua voz como se ela estivesse a milhas de distância. O vento riscava as janelas com os galhos, até que uma pancada forte quebrou o vidro numa explosão enfurecida. Os estilhaços voaram sobre o tapete e uma ventania fria preencheu a sala. Sara levitou sobre o sofá, várias sombras delgadas de forma humanoide a rodearam e Harper foi jogado contra a parede ao lado da sua poltrona. Ele não conseguia falar, sentia uma mão apertar sua garganta e suspendê-lo, pressionando seu corpo contra a parede, congelando sua pele.

       Ao som de um relâmpago, os sussurros ecoaram pela sala, enquanto uma das sombras se destacava em direção a Harper. À medida que se aproximava, seu formato ia ficando mais nítido. Os olhos da criatura se mostraram, profundos e brancos, iluminados por outro relâmpago. O corpo foi tomando forma, numa estrutura obscura, magra e tão alta quanto a porta, com braços e dedos longos que se interligavam às garras pontiagudas. Segurando a garganta do psicanalista, trouxe a face dele para mais próximo e uma voz dupla, arrastada e grave exclamou, como se falasse dentro de dentro da mente dele:

      – Estou tomando posse daqueles que perturbaram meu reino. Agonizarão por toda a eternidade por terem cedido à curiosidade, minha irmã. O medo, porém, tomará suas almas numa escuridão que nenhum ser humano jamais experimentou e os que lá habitam repartirão a carne deles repetidamente.

       Um raio acertou a árvore ao lado da janela, iluminando de lilás todo o ambiente. Harper acordou no outro dia, deitado no chão e com o pescoço dolorido. A garota havia sido levada. Entretanto, não havia nenhum sinal de destruição na sala, a janela estava intacta e tudo estava em ordem, apenas o caderno de anotações estava no chão, com vários símbolos rabiscados e uma anotação no canto com um único apelo, onde, reconhecendo a caligrafia, leu lembrando da voz de sua paciente: “ajude-me a sair, ajude-me!”


Conto de suspense e terror do autor Helano PR, Vocês podem saber mais sobre o trabalho dele nesse link. ^^


Aproveitar um espacinho aqui para falar que eu estou publicando contos agora ^^, mais detalhes nesse link.

E qualquer dúvida, podemos conversar. 🙂