Bom dia galera! Tudo blz? Hoje é só um post rapidinho para falar com você de um projeto bem bacana da Catarse, Maus Valores, do autor JP Schimidt. Uma fantasia medieval com toques de suspense e ação.jp-schimidt_imagem-em-alta-resolucao

O autor JP Schimidt está com seu segundo livro em financiamento na catarse. O seu primeiro livro foi o Guardiões do Pecado, também por crowdfunding, e agora ele está tentando novamente. ^^

Importante lembrar que esse livro não é uma continuação de nenhum projeto do autor, é um livro independente! Embora se você quiser ler o outro livro dele antes não creio que ele vá reclamar… XD

A história desse autor é muito bacana, e é sempre bom ver um autor novo tendo sucesso aí em trazer o seu livro pela catarse, além do mais um projeto bacana que nem esse do Maus Valores. 🙂

Enfim, eu falei que era só um post rapidinho para apresentar o projeto a vocês. Fiquem aí com um capitulo inicial do livro para terem uma ideia de que o autor sabe o que está fazendo! XD

Serio, o cara manda bem na escrita mesmo! ^^

O projeto vai até dia 14/03/17.

Maus Valores na Catarse!

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CULPAS E RESPONSABILIDADES

Passos soltos e risos vinham pelo corredor, inexistiam o chiado baixo do arrasto de corpos e tampouco os característicos murmúrios, gritos de perdão ou demais queixumes implorando pela vida.

Mas, se não era uma execução, seriam prostitutas então? O preso Stanislaw Hanverovich espelhou as mãos a frente do rosto quadrado e cheio e com elas esticou os cabelos lisos, dourados e repetiu a escovada sem pente. Na medida que exercia o vício recém-adquirido ficava à vista sua fronte curta e sem entradas. De súbito, uma morena com marcas de varíola no rosto e coxas grossas tamborilou as grades da cela com uma faca de mão e ainda lançou um beijo provocativo antes de ser reconhecida por completo.

— July?

— É um prazer vê-lo… aqui, Capitão. – ela frisou com malícia.

July estava com ele na patrulha no dia em que os demais morreram.

— É seu dia de folga, soldada? – perguntou o Capitão erguendo-se do chão de palha que pouco contrastava com o tom de sua pele.

— De folga não. É um dia de glória e não me intitule assim. Quero e vou manter distância da farda. Estou aqui pra dizer tudo – a pausa na fala só evidenciava ainda mais seu desprezo por ele – A disputa de poderes enquanto Endoli e Lucrécia…

— Acha que acreditarão?

— Devo mentir e deixar a memória me julgar? Capitão.

— Tenho dúvidas.

A soldada duas cabeças mais alta que ele, atirou-lhe um olhar inquisitório. A soldada July assim como ele sabia bem dos fatos naquele dia.

— Conheço o tipo que é, Capitão. Mesmo gente humilde como eu e minha família reconhecemos fácil a soberba, a falta de respeito pela vida. E falar será uma boa paga pelo…

— Pagamentos July? Escute. A pobreza não pode comprar sua alma. Moedas não corrigirão o passado.

— Nery está morta, Capitão!

Stanislaw retesou a coluna, chocado ao saber deste jeito. Nery pertencia a patrulha e foi ferida naquele fatídico dia.

— O dinheiro não pode movimentar o mundo, atitudes sim. Desde daquele dia, desde quando os olhos dela secaram e murcharam fiquei a seu lado. O exército não se opôs, eles disseram pra mim: Garota fica aqui e cuida da aleijada. Cuida da aleijada! Olha como eles falaram dela… e se eu guardasse segredo poderia ficar e receber o soldo das duas. E que é que eu fiz? Lógico que fiquei. E nem foi pelo soldo e sim pra vê-lo assim.

— Preso?

— Sim preso. Achou que iria pra capital e levar só uns tapinhas no peito com palavras do tipo não faz de novo! Ellan e Nery morreram!

— Tenta achar um fantasma no armário.

— Não senhor Capitão. Não senhor. O maldito fantasma foi a ignorância e prepotência dos capitães. Dos dois.

Dois capitães. Em silêncio teve de concordar. O atrito das personalidades acendeu o pavio, a chama chegaria ao barril cedo ou tarde. Dois grupos de soldados destacados com dois oficiais de igual patente e passada a liderança para a capitã Ellan, a menos experiente. E como era prepotente essa ‘capitãzinha’.

Enquanto Stanislaw rememorava, a ex-soldada July em voz alta resumia os ‘fatos’ e ia convencendo os dois homens fora de sua vista que vez ou outra se mostravam vivos murmurando em timbres monossilábicos ocasionais:

— Ah! Sim senhor! Lembro e bem que tudo veio depois de encontrarmos os caravaneiros mortos. O senhor, Capitão, na ocasião falou com um ainda moribundo e desde então se convenceu que devia pegar uma tal de maldita.

Os espectadores murmuraram.

— Oh sim, e confesso odiar a tarefa de levar mortos ao cemitério. Bem desagradável. No vilarejo um desesperado qualquer roubou um dos cavalos e ao invés de mandar os soldados atrás, a Ellan, quero dizer a capitã foi com todos sabe? Como se perseguisse ZHI, o demônio em pessoa. Mais tarde encontramos só o cavalo eu escutei algo e na mosca. Lá estava o Tristan, o anão e a elfa… sim esse. O padre. E olha aqui, ele nunca foi tão bom assim como conta sobre seu umbigo, mas dane-se o que importa é que quando Tristan… quero dizer, o ‘padre’ Tristan falou que encontrou a base de operações da meliante, os capitães cochicharam entre si. E nem precisam perguntar né? Queriam entrar naquele buraco só pra sair como heróis… Só pensando em suas malditas carreiras. Muita gente morreu ali. Claro que sim. Sim. Prender alguém seria uma boa compensação contra a deserção do restante do grupo. Deserção!

Stanislaw permaneceu calado ouvindo aquele amontoado de impressões pessoais e mentiras. Ela sabia muito bem que não houve deserção. July iria manter essa ideia maluca de culpar os oficiais por aquilo. E com a capitã morta tudo recairia sobre as costas do Capitão Stan.

Depois de suas mentiras, ela caminhou devagar na frente de sua cela com o rosto escurecido de rancor, e, num rompante agarrou as grades e cuspiu em sua fronte.

Stanislaw ficou ali sem defesa, sem palavras ou réplica. Seria inútil. Os olhos dos guardas que a escoltaram para fora e do carcereiro que acompanhava mais atrás diziam isso.

Porém, a memória do Capitão Stanislaw Hanverovich implorava sequiosa pela verdade.

Naquele dia fatídico teve outros acontecimentos… e outros vilões.

Primeiro, a patrulha passou por um massacre na estrada. As últimas palavras da testemunha moribunda ainda ecoavam em seus ouvidos. O homem morreu em seus braços.

Mesmo assim a independente memória veio para resgatar todos os demais fatos, não só os eleitos pela soldada July. Primeiro encontraram os corpos massacrados onde o velho moribundo falou duma maldita assassina. Na chegada da patrulha no vilarejo com aqueles corpos, os desesperados do vilarejo falaram de algo levando sua gente. Impossível não atar uma coisa à outra, porém, durante as perguntas a montaria do cabo Irving foi furtada. Da perseguição acharam apenas o cavalo e só mais tarde, um padre, um anão e uma elfa unidos sob um propósito. Como já era tarde para viajar acamparam juntos perto do lago e aqui começou os erros. Em seguida, a capitã cheia de si carregou a elfa consigo para delimitar o perímetro e buscar lenha levando os novatos com ela. Uma ação que deveria ter sido executada por soldados e na falta destes os de mais baixa patente. Então Stanislaw resolveu vigiá-las em segredo. E só aqui que se culpava. Se ao menos um dos capitães ficasse manteriam vigília para todo lado inclusive para água. Dentes poderosos vieram à mente. A bocarra de uma das muitas bocas da besta d’água. Deserção? Nem assassinato. A palavra carnificina sim chegava mais próxima a real dimensão da tragédia. Um brutal ataque feito por bestas reptilianas unidas por um único peito e abdômen. Grande como uma muralha. Uma hidra, a besta mítica e fatal. Quando a capitã perguntou pelos demais ao retornar, afinal o que responderia? Como poderia relatar que um monstro tido como irreal, uma lenda contada só em fogueiras invadiu o acampamento cercou os soldados e os devorou? Não dava. Stan lutou muito, July também e foi o muco venenoso da abjeta que cegou Nery. Só isso. Com a coisa acontecendo na parte rasa do lago não haviam marcas de batalha nítidas o bastante para contar por ele. Aquela era uma pergunta odiosa então preferiu resumir contando que se foram.

“Para onde e a mando de quem? ” foi a pergunta da capitã e o que respondeu na época e o que responderia hoje continuaria a ser que ele não estava no comando.

“Que disse? Melhor que quer dizer com isso? – continuou a questionar aquela capitãzinha – Agora chega senhor. És um militar e de patente, cabe a ti a disciplina no cumprimento do dever. Se fomos designados juntos para a mesma, desacredito que seja apenas para nos digladiar…”

Stan foi forçado a relembrar a capitã de quesitos básicos como manter-se vigilante quanto a delitos e crimes e é claro, ela o ignorou como oficial e questionou a soldada July se fora deserção, e por não estar satisfeita perguntou ao anão, um civil estrangeiro e de outra raça.

— Intolerável! – exclamou para si.

Preferiu a opinião de um reles anão a dele.

— Insuportável. O ato mostrava o quanto estava perdida. Estúpida mulher. Em meio a isto o padre disse ter encontrado o covil da fera e a soldada July se ofereceu para levar a soldada Nery a um curandeiro. – a indignação ganhava a boca de Stanislaw em meio a memória.

“Ok. Ok. É hora de salvarmos o que há para salvar. A nação depende de nós. Capitão Hanverovich? Mantenha-se aqui. Fique na retaguarda para garantindo a integridade do perímetro. Sei que ao menos essa simples ordem é capaz de acatar ”.

Então um pensamento avisou o Capitão Stan e seus olhos se contorceram estranhamente com tal percepção. July sabia que a ordem de adentrar aquele buraco veio da capitãzinha e as coisas ficariam piores sem sua intervenção, pois dada a demora julgou corretamente que precisavam de socorro e entrou. July deveria estar em choque para esquecer que a amparou e guiou a todos para a saída, incluindo ela.

Subitamente, um grande arrastar furtou a atenção do indignado para o presente. Eram os grossos portões da saída da prisão e dava para serem ouvidos de qualquer cela. Capitão Stan, lembrou tarde demais para argumentar isso. July já tinha ido embora e por mais argumentos e palavras que usasse seriam palavras fracas, vãs, perante os laços que ela obviamente tinha ali. O laço com os irmãos de farda. Entendia e respeitava isto…

Pelo resto do dia, Stanislaw ficou imerso em fagulhas do passado. Quando o carcereiro nada gentil lhe trouxe uma cumbuca com um desfeito de pombo atolado na massa escura de trigo com algo e uma cerveja preta para empurrar recusou polidamente. Seu apetite era o de memórias, sua sede a de questionamentos. Questionou-se longamente sobre o que originou a tragédia. Rememorando cada passo, cada ação, reação tanto dos civis quanto da tropa, e por último, o estranho diálogo com July onde sem perceber, acabou por ecoar as próprias palavras:

— Tenta achar um fantasma no armário, Stan.