Bom dia povo! Como vocês estão? Tudo bem por ai? E o tempo, como esta? Bem, chega de papo e vamos direto ao ponto, hoje eu vou trazer um livro procês muito bacana que eu li recentemente, Prince of Thorns, do autor Mark Lawrence, trazido para este país pela Darkside Books! Uma fantasia medieval acompanhando a trajetória de um príncipe de índole no mínimo “duvidosa” e em um mundo que também não é nada gentil. E eu resolvi falar um pouco também justamente sobre esse tipo de protagonista que tem seus próprios códigos de honra: o anti-herói! Primeiramente, ao livro…

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       O livro já abre com uma cena do jovem protagonista em meio a uma matança em uma vila de fazendeiros, onde ele esta liderando um grupo de bandidos bem cruéis. Essa cena é ótima, e já entrega o tom de como vai ser o resto dessa historia, e que o nosso protagonista não vai ser um “herói” comum.

Corvos! Sempre os corvos. Eles se acomodaram nas empenas da igreja antes mesmo que os feridos se transformassem em mortos. Antes mesmo que Rike terminasse de arrancar dedos das mãos e anéis dos dedos. Eu me recostei na trave da forca e acenei para as aves, uma dúzia delas, alinhadas numa fila negra, sagaz e vigilante. A praça do vilarejo tornara-se vermelha. Sangue nas sarjetas, sangue nas lajes, sangue no chafariz. Os cadáveres nas posições típicas dos cadáveres. Alguns, cômicos, apontando para os céus com dedos amputados. Outros, em paz, retorcidos sobre suas chagas. Moscas se amontoavam sobre os feridos enquanto estes se debatiam. De um lado e de outro, alguns cegos, alguns astutos, todos traídos pelos zumbidos daquela comitiva. “Água! Água!” É sempre água o que os moribundos querem. Estranho. O que me dá sede é matar. E assim foi em Mabberton. Duzentos fazendeiros mortos, jogados ao chão com suas foices e machados. Vocês sabem, eu avisei que era isso o que fazíamos para viver. Eu disse a seu líder, Bovid Tor. Eu lhes dei uma chance, sempre dou. Mas não. Eles queriam sangue e carnificina. E conseguiram. Guerra, meus amigos, é uma coisa bela. Ainda que não me importasse em ir até o velho Bovid encostado à fonte d’agua, com as vísceras sobre o próprio colo, ele provavelmente teria uma opinião contrária. Mas vejam só o que ele conseguiu discordando de mim.prince-of-thorns-1

Conforme a historia se desenvolve, descobrimos que o nome do jovem protagonista é Jorg Ancrath, um jovem príncipe que, quando tinha apenas nove anos, sofreu um trauma muito grande: o castelo onde ele estava foi atacado, e em meio à tentativa de fuga, o príncipe caiu em meio a uma roseira-brava e ficou preso sobre seus espinhos, e de lá ele presenciou sua mãe sendo violentada e morta, e seu irmão mais novo sendo brutalmente assassinado. Ele tentou ajudar, mas cada tentativa de se mover faziam os espinhos entrarem mais na sua carne, causando um ferimento horrível nele, tanto no corpo quanto em sua mente. Jorg foi redefinido a partir daquele momento, e sua dor e seu sofrimento guiariam todos os seus passos a partir dali, com apenas um objetivo: a vingança contra o homem responsável por aquilo tudo.

A história acontece em dois tempos, um no tempo presente, com Jorg como líder bandido e a outra parte da historia acontece quatro anos antes, contando a trajetória do jovem príncipe da tragédia de sua infância até ele chegar aos trilhos que o conduziram ao o que ele é hoje.

Jorg é um anti-herói do tipo que age com base em seus próprios desígnios egoístas, mas mesmo assim faz com que o leitor se afeiçoe e torça por ele (eu falo mais sobre os tipos de Anti-heróis mais abaixo 🙂 ) e toda a historia é narrada do ponto de vista dele, logo, ele é o personagem mais bem explorado. Logo no inicio ele é extremamente violento, matando pessoas por discordarem dele e conduzindo matanças, mas conforme o livro vai avançando ele vai ganhando um pouco mais de maturidade, e evita assassinar seus aliados e conduz matanças nos lugares certos, em prol de um objetivo maior.

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Dos outros personagens do livro, eles têm um bom tratamento, mas nenhum deles é bem aprofundado. No inicio dos capítulos tem sempre algum comentário de Jorg a respeito de um de seus “irmãos” de estrada, e isso já cria uma base boa para a personalidade dos personagens.

“Horror e entretenimento são armas do Estado, Jorg.” Lundist manteve seu tom neutro, seu rosto inescrutável, salvo por uma compressão nos lábios, sugerindo que as palavras eram de mau gosto. “Execução combina ambos os elementos.” Ele olhou a bandeira fixamente. “Antes de viajar e ser escravizado pelo povo de sua mãe, eu morava em Ling. No Extremo Oriente, a dor é uma forma de arte. Os soberanos, e consequentemente os seus territórios, são conhecidos pelas torturas extravagantes que aplicam. Para eles é uma competição.”prince-of-thorns-3

O mundo onde essa historia se passa lembra muito o nosso próprio mundo na época medieval. Existem diversos pequenos reis, todos eles em constantes disputas com o objetivo de se tornarem imperadores de tudo. [PEQUENO SPOILER A FRENTE] Só que existe uma pequena surpresa ai. O leitor é elevado a crer que esse é o nosso próprio mundo, com uma religião católica e muitas situações de pensadores gregos,mas conforme o livro vai passando, aparecem algumas pistas de que esse mundo pode não ser o nosso no passado, mas em um futuro distante, com tom de pós-apocalíptico que retrocedeu para o medievalismo. Existe uma referencia a Nietsche e várias citações de coisas possivelmente tecnológicas construídas por um misterioso povo antigo chamado de Construtores, só que essas coisas são maquiadas pela ignorância tecnológica do narrador. Eu achei que isso é colocado de maneira muito sutil e muito, muito legal durante toda a história, e é o ponto que faz o mundo construído pelo autor ser único, embora esse conhecimento não interfira muito na historia do próprio protagonista.

Sem falar que todo o livro você acredita que é um mundo mais “pé no chão”, mas existe magia e criaturas a solta, tratadas de maneira única também. Detalhe: tem muitas coisas aqui que fica ambíguo se são coisas biológicas e mutações por radiação ou são coisas realmente magicas, e isso é ótimo.

A escrita de Mark Lawrence é muito divertida, e o tradutor Antônio Tibau fez um ótimo trabalho aqui. Muitos chingamentos, diálogos rápidos e descrições concisas fazem a leitura ser bem fluida. Eles usaram o formato de colocar o dialogo entre aspas e isso ainda é incomum por aqui e pode causar uma estranheza em um leitor desavisado, mas é fácil de acostumar.

E eu nem preciso dizer que a edição de capa dura da Darkside é coisa de outro mundo, sério. Da vontade de casar com o livro.

Enfim, é um livro de fantasia medieval visceral de um personagem odioso que você invariavelmente vai acabar se apegando, um mundo bem interessante e bem feito e uma escrita dinâmica e divertida. Se você é fã de fantasia, esse é um livro a ser lido. ^^

Número de páginas: 354 páginas

Editora: Darkside Books (21 de outubro de 2015)

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E sobre Anti-heróis…

Esse livro me trouxe a mente o assunto dos anti-heróis, e como fazer as pessoas gostarem dele. Eu vou usar aqui duas definições de anti-heróis que são as mais comuns:

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A primeira é aquele que faz maldade, mas só com pessoas ruins. Matando e torturando assassinos e maníacos em geral. Esse anti-herói é aquele que representa todo o sentimento de impunidade que o ser humano tem. Todos os crimes que sabemos que nunca vão encontrar justiça, e toda a maldade que pessoas comuns nunca vão poder vingar, tudo representado no ódio desse único ser que leva a “justiça” de maneira brutal e implacável. Esse é o motivo deles fazerem sucesso, pois todos nos sentimos vulneráveis ante a maldade do mundo, e às vezes nos vemos desejando uma “limpeza” profunda na nossa sociedade, seja do assaltante e estuprador, até os políticos e grandes empresários corruptos.

Se você deseja fazer um anti-herói bacana, é só colocar ele matando filhos da p%$# por ai, ou talvez só roubando e dando aos pobres, quem sabe. Ele tem que estragar a vida de gente realmente maligna de alguma forma. Ele pode ter uma motivação profunda, como ter sido uma vitima de alguma injustiça muito grande, e perdido a fé em como as coisas geralmente são feitas, esse lado trágico ajuda a criar uma empatia bem melhor com o personagem.

Ótimos exemplos desse tipo são O Justiceiro, já muito conhecido, Robin Wood é um tipo de anti-herói também só que muito mais tranquilo XD, e em solo brazuca, o anti-herói que nós merecemos éDoutrinador, que vai atrás de políticos corruptos para levar a “justiça” a eles!

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O segundo tipo mais comum por ai, que é o retratado no Prince of Thorns é o anti-herói que é quase um vilão, só que acaba criando essa ligação com a “plateia” e faz com que você queira o sucesso dele, mesmo ele sendo obviamente mau. Muita gente considera anti-herói só o tipo Justiceiro, e esse segundo é mais visto como um vilão protagonista.

Esse é o tipo mais difícil de ser usado. Ele nos ganha pela empatia. No caso do Jorg, as coisas serem colocadas no ponto de vista dele, mostrando todo o seu sofrimento e seu desejo de vingança, você quase chega a entender o porquê dele se transformar em alguém com a bússola moral “ligeiramente” zoada. Sem falar que outro aspecto importante dele é mostrar sentimentos humanos, como a afeição pelos seus irmãos de estrada e suas estranhas amizades. O Jorg é um belíssimo exemplo de anti-herói vilanesco.

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Se você deseja usar um anti-herói desse tipo, tome cuidado! É muito fácil passar para um personagem odioso logo de cara. Muita gente inclusive diz que o Jorg é um personagem malfeito no início, e ele vai crescendo e melhorando conforme a historia vai passando, só que ele muda muito pouco na verdade, o autor é que montou tudo para a pessoa ir se afeiçoando cada vez mais a ele e assim ir gostando mais da historia.scarface

Colocar a historia do ponto de vista desse “vilão” é a primeira forma de criar empatia, só que sempre tem que se lembrar de que ele não pode ser só maldade, ele tem que ter laços mais humanos, como amigos, família ou alguém com quem se importar, essa é uma forma de transmitir sentimentos para fazer o personagem mais próximo do publico. Ele não pode ser 100% mau, porque assim pouquíssima gente vai gostar dele.

Colocar ele contra gente mais maligna ainda também é uma ótima forma de trabalhar com esse tipo de personagem.

Belos exemplos desse tipo são o próprio Jorg, outros muito conhecidos são basicamente todos os protagonistas de filmes de máfia, como Poderoso Chefão e Scarface.

Bem, enfim, é isso. É obvio que existe muuuuito mais coisa para se falar desse tema. E se você deseja se aprofundar mais na essência do anti-herói, eu recomendo muito esse post do Homo Literatus “Vilão, o Herói da Historia”, e também esse aqui traduzido pelo Ficção em TópicosO Anti-herói e nosso medo de monstros”. Agora um mais voltado para dicas de como usar um personagem assim tem nesse post lá no blog do João NunesComo Escrever um Anti-herói”.

E vocês ai, quais melhores anti-heróis que vocês já viram?