A lacraia rosa voava rastejando no vento com suas dezenas de pernas, remando no ar noturno da grande Capital de Ilys, a nação dos Coelhos.

Nas ruas desertas, um solitário Coelho, vestindo um uniforme serviçal, acendia os postes usando um longo cabo de madeira com uma chama em sua ponta.

A luz dos postes acesos revelava casas harmoniosas, com janelas longas e vidros levemente coloridos. Todas no estilo estrutural de Ilys, que presava a simplicidade de linhas longas e lisas.

Pelo vão entre a porta e o chão, a lacraia entrou em uma das casas. Ela voou por uma ampla sala e passou por vários aposentos, até entrar pela fechadura de um deles.

No quarto escuro, um Porquinho de quinze anos soluçava em sua cama. Com seus olhos fechados, ele chorava tentando adormecer.

A lacraia posou em suas bochechas gorduchas, o pequeno Porco moveu seu rosto. O inseto parou e esperou o menino dormir e começar a roncar. Quando isso aconteceu, a lacraia correu pelo rosto redondo do Porco e penetrou uma de suas orelhas.

Tão logo a lacraia desapareceu dentro de seu ouvido, Ollie abriu os olhos e pulou da cama.

Sem saber ao certo se tinha sonhado ou não, ele enfiou seu dedo mindinho o mais fundo que pôde sem nada encontrar. Olhando pelas frestas da cortina, notou que uma luz forte radiava do outro lado. Será que já era dia? Ele pensou, sua mãe ia brigar se ele perdesse a hora do café.

Com pressa, ele abriu a porta de seu quarto para ir até a sala de jantar. Mas sua casa não estava mais lá, do outro lado do umbral. Em seu lugar havia uma pequena loja de doces. Mas não uma loja como as de Ilys, com sua decoração minimalista. Era uma loja feita com paredes de gravetos amarados uns aos outros, e os doces ficavam dentro de cúpulas de vidro em cima de vários balcões. Todos eles feitos de troncos cortados ao meio, elevados do chão por cipós que desciam do teto.

Atrás do balcão maior estava uma figura estranha de aparência indígena. Ela usava uma máscara de ossos e uma coroa de galhos. Na ponta de cada galho, pendurados por cordões negros, pequenos ossos e penas faziam a decoração macabra. O estranho estava totalmente coberto por um manto longo de pelos cinzas. Estes, também, igualmente decorados com mais penas e mais ossos.

— Não tenha medo de mim, Ollie. Eu sou o Mercador de sonhos. Eu vim de muito longe para poder negociar com você… — falou o Mercador com uma voz amistosa.

— Mercador de Sonhos? — Ollie perguntou ao se aproximar do balcão. — E onde está a minha casa, seu Mercador?

— Sua casa está na superfície, junto com seu corpo, que dorme em sua cama.

— Eu não estou em casa? — Ollie perguntou confuso.

— Você — o Mercador apontou para ele —, está aqui — falou apontando para a loja. — Já seu corpo, está lá — finalizou apontando para o teto.

Ollie sorriu.

— Entendi, é só um sonho — ele olhou à sua volta —, mas parece tão real. Ei, quantos doce! — Ollie falou colocando sua mão no vidro de um dos doces do balcão.

— Como meu nome diz, eu vendo e compro sonhos, Ollie — o Mercador tirou a cúpula de vidro deixando a guloseima à mostra. — Do outro lado daquela porta — o Mercador apontou para uma porta que Ollie não tinha visto até agora — estão seus quatro sonhos. Se você comprar meu doce e alimentar qualquer um de seus sonhos com ele, seus sonhos vão abandonar as ilhas do inconsciente e vão subir com você, para acompanhá-lo eternamente no mundo da superfície.

— Você é um bobo — Ollie falou rindo. — Todo mundo sabe que o que você sonha fica no sonho. É por isso que é um sonho.

— Talvez seja prudente eu lhe explicar as regras de uma maneira simples. Apesar de estar na primeira camada da terra dos sonhos, você não está sonhando. E eu independo de você. E com o seu consentimento, eu detenho o poder de trocar um sonho abandonado por um almejado — o Mercador apontou para a porta. — Seus sonhos te esperam. Se você realmente quiser um deles, minha proposta é real.

Ollie coçou a cabeça.

— Deixe-me ver se eu entendi. Você não é um sonho, e eu não estou sonhando. Eu estou abaixo do sonho, num lugar que você chama de terra dos sonhos. E se eu comprar um doce de você, na verdade vou estar comprando um sonho que não realizei. Mas para isso eu vou te dar em troca um sonho que eu tenho, mas não quero mais — ele olhou para os olhos negros atrás da máscara branca. — É isso, Senhor Mercador de Sonhos?

O Mercador acena sem transparecer satisfação ou insatisfação.

— Um sonho por outro, essas são as regras.

— Mas como isso é possível? Como você pode existir no meu inconsciente? Afinal, todas as ideias dentro da minha mente são minhas e de mais ninguém.

O Marcador riu. Um riso perturbador. Não por conter um sentimento maligno, e sim por parecer dizer que tudo que Ollie sabia era apenas ilusão e, agora, ele estava para despertar para outras verdades.

— Qual é a graça?

— No seu mundo, vocês acreditam que podem escolher uma verdade e chamar todo o resto de fantasia ou mentiras. Mas no meu, verdades, mentiras e ilusões são a mesma coisa. Aqui tudo são estórias, e todas as estórias são reais.

— Mas você falou que não pode tudo, você falou que existem regras, você falou que você é você, mas como você pode ser você se isso é o meu sonho?

— Durante todos esse séculos em que eu viajo de ilha à ilha, nunca pude explicar a real natureza de quem eu sou, ou do que esse lugar representa. Eu mesmo não sei. Eu conheço algumas estórias, estórias que vieram com os sonhos que eu comprei. Estórias que se contradizem entre si.

Estórias que seria demais para a mente de uma criança.

— Meu tio Boggie me falou que não existe estória complicada, o que existe é estória mal contada. Se você quer me vender algo, eu tenho que saber mais.

O mercador junta seus longos dedos em frente à máscara em seu rosto.

— Muito bem, pergunte o que quiser saber e eu respondo no melhor do meu conhecimento.

— Quem é você realmente?

— Ninguém é alguém realmente. Em cada nível somos algo totalmente diferente.

— Em cada nível?

— Existem quatro níveis, no quarto nível temos o mundo da superfície, abaixo temos as ilhas do inconsciente, depois temos o zoológico das ideias e na ultima camada o oceano da vida.

— O que é um oceano?

— Sabe o deserto que circula as cinco nações de Morserus?

— O deserto sem fim, todo mundo sabe disso.

— Então imagine que no lugar da areia existisse água.

— Cobrindo o mundo todo?

— Sim, isso é um oceano.

Ollie riu.

— Só num sonho mesmo, o mundo ia afundar se fosse assim, coberto de água. Tá, mas você não respondeu minha pergunta. Quem é você?

— Em que nível?

— Como assim, em que nível?

— Na superfície eu sou mil e oitocentas e treze lacraias. Nas ilhas do inconsciente eu sou um mercador de sonhos. No zoológico de ideias eu sou parte de um conjunto de pensamentos que estão presos entre si pela frequência em que vibram. No oceano da vida eu sou tudo e sou todos.

— E eu? Eu sou diferente em cada mundo que nem você?

— Sim, todos são.

— Quem eu sou em cada mundo?

— Na superfície você é um Porco. Nas ilhas do inconsciente você é uma ilha. No zoológico de ideias somos a mesma frequência. No oceano da vida você é tudo.

— Você falou que você era tudo.

— Todos somos tudo no oceano.

— Eu não entendo.

— Poucos entendem.

— Como você pode ser mil lacraias?

— Existem muitas estórias que explicam isso, a que eu gosto mais é a dos Gatos. Eles acreditam que seu mundo é dividido em duas partes: a biosfera natural, onde você vive; e a biosfera das sombras, onde vivem seres que não são fauna ou flora. Seres que se alimentam de ideias e emoções. Seres de consciência primitiva, que estão em algum lugar entre peixes e plantas.

Seres como o anima e o ellion.

— E qual deles você é? Qual deles é as mil lacraias?

— Ambos. O anima se alimenta do imaterial e produz o material. O ellion se alimenta do material e produz o imaterial. Mas em raras ocasiões ambos se alimentam através de um inseto simbionte. Insetos que aprendem a comer ideias e emoções como o anima. Insetos que nascem, então, nas ilhas como seres como eu. Seres conscientes que se forman de fragmentos da consciência de seres da superfície.

— Eu sou o ser da superfície, e você quer comer os meus sonhos?

— Sim. Mas eu não vou roubar seus sonhos, você pode escolher me dizer não.

— Mas como você pode ser mil e tantas lacraias?

— Tal como uma casa é feita com vários tijolos, minha consciência é um conjunto de várias partes. No seu mundo eu não tenho consciência, eu sou um inseto a procura de comida. Um inseto que está ligado a milhares de outros através da biosfera negra.

— Um inseto que sonha ser um mercador, e um mercador que sonha ser um inseto.

— Os Gatos nos chamam de Tartar, mas temos outros nomes e outras estórias. Os alces dos estepes nos chamam de orksha; os Bodes, de servos da lanterna negra; e os Gorilas, de cavaleiros dos quatro príncipes.

Ollie estava com a boca aberta, mas sua mente trabalhava construindo o significado do que ele tinha acabado de escutar. Não era um sonho, isso estava muito claro. Era o mesmo sentimento de quando ele abriu o relógio de corda de seu pai. A complexidade de cada engrenagem, de cada mola… Era um sentimento de insignificância, de que o mundo era muito maior do que ele um dia poderia conseguir entender.

— Por que você entrou na minha orelha?

— Você me chamou.

— Como eu posso chamar alguém que eu nem sabia que existia?

— Lágrimas. Alguns sonhos deixam resíduos nas lágrimas. Elas atraíram o inseto. Elas narraram os seus sonhos.

Ollie olha para o chão.

– Você me viu chorando? — ele perguntou com a voz triste.

— Eu estou na sua ilha. Vi muito mais do que apenas as suas lágrimas.

— O que são essas ilhas das quais você fala toda hora?

— No seu mundo você é uma criança da raça dos Porcos. Mas aqui você é uma ilha. Aqui todos são ilhas.

— Como é que eu posso ser uma ilha?

— Agora não é hora de falar sobre isso. Agora é hora de você saber o custo de realizar um dos seus quatro sonhos.

— Eu tenho quatro sonhos?

— Todos, nos três primeiros níveis, têm quatro sonhos.

— Quais são os meus quatro?

— Eles te esperam do outro lado da porta. Mas o custo de realizar um sonho, é a perda de outro.

— Como assim?

— Estou falando sobre Ogromna Gora.

Ollie abriu um largo sorriso e recitou o que lembrava de sua viagem a Ogromna Gora.

— É a maior montanha do mundo conhecido. Cravada em suas entranhas existe uma cidade de mesmo nome, que foi construída pelos Bodes. Quando o gelo cobriu o mundo durante a Ermitagem, todos os povos de todas as Raças vieram se esconder na grande montanha. Dizem que o idioma único que falamos hoje é fruto dos duzentos anos de união na montanha. Ou pelo menos foi o que o guia falou, eu nunca me esqueci.

— Estou falando sobre o sonho que você trouxe de Ogromna Gora. Seffia.

O sorriso evaporou do rosto de Ollie.

— Eu também nunca me esqueci dela. Ela me deu uma moeda, uma réplica da primeira moeda cunhada pelo banco dos Gigantes.

— Muito mais do que isso. Vocês passaram uma semana juntos, enquanto seu Pai e seu tio atendiam as palestras da casa mercantes de Kamen. Vocês dois foram deixados de lado para descobrir a grande montanha que virou um centro turístico. Você nunca tinha encontrado ninguém assim, ela era rápida, enquanto você era lento; você era mais instruído, mas ela era mais ousada; você se achava feio, e ela não via feiura em nada, nem mesmo em você. E ela lhe deu seu primeiro beijo e vocês andaram de mãos dadas. E quando você chorou dizendo que ao fim da viagem seria a última vez que vocês se veriam, ela sorriu e apostou que vocês se reencontrariam certamente. Ela insistiu que você comprasse uma moeda comemorativa, uma réplica da primeira cunhada pelo banco dos gigantes. Com o semblante do Leão Branco Geik Kar — o mercador parou de falar. O silêncio parecia incomodar Ollie, que quase se remexia.

— Ela falou que eu tinha que guardar a moeda, e que quando a gente se encontrasse novamente eu tinha que dar a moeda para ela — o rosto do Porco ficou choroso. Seus olhos castanhos claros brilhavam entre luz e lágrimas contidas. – Mas eu perdi a moeda. Porque eu sou um idiota descuidado.

— Olhe no seu bolso, Ollie — falou o Mercante apontando para o bolso no peito do pijama amarelo com estrelas do pequeno Porco.

Ollie tirou de seu bolso uma linda moeda dourada com o perfil de uma cabeça de Leão.

— Nossa! Como você fez isso? — ele falou animado, já esquecendo que a um segundo atrás ele estava quase chorando. — Mas a moeda somente existe aqui, sim? — falou agora sem alegria.

— Essa moeda não é uma moeda. Esta moeda é toda a sua viagem. São todas as suas lembranças daqueles quatorze dias. Se você me der essa moeda, eu levo tudo. Cada momento, cada alegria. Eu levo Seffia. Eu levo seu primeiro beijo.

— Mas foi meu único beijo — falou Ollie, agora olhando indignado. — Por que eu te daria isso? Eu não quero esquecer dela. Eu penso nela sempre. Quando eu perdi essa moeda foi um dos meus piores dias.

— Eu levo isso também. Quero tudo, o bem e o mal de suas lembranças. Mas acima de tudo, levo o seu sonho de um dia voltar a encontrar-se com ela.

— Não! — Ollie gritou. E depois de esperar em vão para o Mercador continuar a falar, ele reiterou em tom manso. — Por que você acha que eu lhe daria tudo isso?

— Você não vai me dar nada. Em troca da moeda você leva o Doce — o Mercador aponta seu indicador magro para o doce sobre o balcão. — Um sonho, por outro.

— E o que faz o doce?

— Ele alimenta os seus sonhos mais novos. Aqueles que você colocou no lugar deste sonho antigo.

— De que sonhos você está falando?

– Você sabe seus sonhos, eles estão te esperando do outro lado daquela porta — novamente ele apontou para a porta velha. — Quatro sonhos te esperam, quatro possibilidades de vida. E se você escolher um, se você der o doce para o sonho escolhido, vocês ascenderam juntos para a superfície. E com seu sonho para sempre ao seu lado, o que foi construído apenas no mundo das ilhas, vai ser também construído no mundo da superfície.

— Quando eu perdi a moeda eu já sabia que eu nunca mais iria encontrar-me com ela —

Ollie colocou o brasão do Leão nas mãos do mercador. — Ela falou que queria me ver de novo por que teve pena de mim, ela era boa demais para mim. Eu sempre soube disso. Você me faz um favor em ficar com essa moeda.

O Mercador fecha seus dedos sobre a moeda, e a porta velha se abre bruscamente, com a força de um vento forte que varreu o pequeno interior da loja.

Saindo de trás de seu balcão, o Mercador colocou sua mão sobre o ombro de Ollie.

Estendendo sua outra mão ele apontou para o brilho branco que vinha do outro lado.

— Caminhe comigo e aprecie a ilha de seu inconsciente.

[…]

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Para ler o resto desse conto, acesse morserus.com.br/o-mercador-de-sonhos


       O escritor Marcello Schweitzer faz um trabalho muito legal com pequenos contos de fantasia e fabulas no seu mundo Morserus, e coloca todas as suas histórias no site morserus.com.br

Se você quer saber mais, leia esse pequeno conto “O Que é Morserus?” ou acesse o site.

Vale muito a pena dar uma olhada por lá! ^^

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