Este sangue em minhas mãos

Confesso. Sim, confesso que sou culpado por todos os crimes a mim atribuídos, mas que meu espírito orgulhoso se nega a arrepender-se. Matei, traí, corrompi, torturei e pratiquei todos os atos de tirania. Dos pecados capitais? Só não cometi a preguiça.

Até mesmo à gula eu me submeti. Pois tinha sede.

Sede de sangue.

Lembro muito bem do meu primeiro desejo de saciar essa sede. Talvez tenha sido o meu primeiro pecado. Dois, se levar em conta a ira me fez desejar.

Confesso. E tendo o meu último desejo de ter papel e tinta atendido, eu trato de recordar tudo o que fiz, no meio da quase completa escuridão deste calabouço.

Eu tinha dez anos. Era forte e alto para minha idade. Derrubava qualquer uma das crianças que treinavam comigo. Minha perícia com o machado evoluía rápido, e minha velocidade já superava a do meu mestre. Um típico herdeiro das terras de Skald.

Entretanto, nada é perfeito. Cinco anos antes uma praga de varíola atacou nossa ilha atingindo a muitos. Eu não fui exceção. Meus pais me entregaram aos horns, e eles, com suas feitiçarias, conseguiram estagnar a doença. Não me tornei inválido, mas metade da minha face ficara marcada com uma camada de pele grossa e verruguenta, grotesca demais para se olhar. Cresci odiando meu rosto, e odiando mais ainda os olhares tortos e murmúrios desconfiados daqueles que eram meus súditos. Passei a esconder minha deformidade numa meia máscara de prata, moldada pelo ferreiro da fortaleza.

Assim, ganhei meu primeiro apelido: Ivarr Meio-aço. A máscara não era de aço, mas quem disse que apelidos precisam de lógica?

Voltando as minhas confissões, eu tinha um irmão gêmeo: Hagar. Só não era o herdeiro de Skald porque saí nove minutos antes dele da vagina da nossa mãe. Ainda bem que isso acontecera, pois ele era péssimo. Não dominava bem a espada, era fraco, e se interessava mais pelas histórias que os ajarns contavam, do que pela arte da luta.

O fato é que a ele nada acontecera. Não adoeceu, tinha um rosto delicado, e era cheio de sorrisos. As pessoas o adoravam, e as garotas, mesmo naquela idade, se atiravam aos pés dele como putas apanhando ouro. Enquanto eu treinava durante todo o percurso do sol, ele estava rodeado de ajarns, mulheres, e entre elas estava a pior de todas: minha mãe. Ela o cercava de atenção e bajulação para qualquer coisa que ele fazia. Isso era motivo de intriga entre meu pai e ela, pois para ele, Hagar deveria ser mais como eu.

Não que ele se orgulhasse de mim. Minha aparência demoníaca impedia que eu arrancasse isso dele. Era mais uma questão de tradição, pois nós, Tejiaks, somos uma família de guerreiros, e Hagar estava longe de ser um.

Certo dia, eu cavalgava pela floresta observando os animais. Passava todo o meu tempo, literalmente, treinando dentro da fortaleza, e essa era meu único e raro momento de distração. Descobria todas as espécies de animais, desde o maior para o menor, que vivia dentro da floresta. Me divertia como criança fazendo aquilo.

Atravessei uma trilha conhecida quando despertei, pela primeira vez, para um sentimento diferente.

Ela cantarolava e saltitava pela mata, recolhendo ervas numa cesta de cânhamo. Seu longo cabelo loiro balançava com o vento, contrastando com seu vestido azul. Em sua cabeça, uma coroa improvisada de flores adornava ainda mais seu sorriso gentil. Já havia visto algumas garotas como ela, mas nenhuma me tocou tanto.

Talvez seja porque elas estavam sempre acompanhadas por Hagar, e logo ganhavam o meu desprezo.

Eu fiquei inerte com tal visão. Senti a face ruborizar e minhas mãos suarem frio. Tudo o que conseguia fazer era abrir um sorriso idiota, encantado com seus movimentos graciosos.

“Você é uma espécie de espírito da floresta?” Perguntei, depois de reunir coragem para me revelar entre os álamos.

Ela se assustou e recuou dois passos. Olhou-me exatamente como todos me olhavam e se ajoelhou.

“Desculpe, meu senhor. Pensei que estivesse só.”

“Levante-se,” ordenei, descontente. “O que faz aqui?”

“Minha mãe me pediu para colher ervas de cura. Aqui é o melhor lugar para procurar.”

Apertei os flancos do meu castrado marrom e me aproximei mais.

“Alguém precisa de ajuda? Posso cuidar disso.”

“Não é nada demais,” ela disse. “Meu pai está com febre, mas não é forte.”

Um silêncio desconcertante emergiu, e tive vontade de ir embora. Mordi o lábio inferior com força, e um fio de sangue escorreu por dentro da máscara. Sempre detestei a maneira como me comportava perante as pessoas.

“Conheço um lugar perto da cachoeira que pode ser útil. Agora estou com pressa, mas se vier à noite posso te levar lá.”

Ela desviou a vista.

“Meu senhor não precisa se preocupar…”

“Eu insisto!” Esbravejei, sentindo um ardor no peito.

“Tu-tudo bem…” cedeu ela.

“Ótimo. Esteja aqui após o pôr-do-sol.”

Ela confirmou com a cabeça, e eu, lhe dando as costas, parti.

Eu voltei, como prometido. Tive a inocência de colocar uma roupa melhor, e ainda roubar um colar da minha mãe que ela nunca iria notar. Havia polido minha máscara, e mastigado uma folha de hortelã. Hoje, eu ainda não entendo como me deixei levar por coisas tolas como a paixão. Nunca ousara pensar em nada que não fosse a guerra e o prazer de derrotar meus oponentes, mas, naquele momento, estava obstinado a criar o meu primeiro encontro.

Demorei um pouco surrupiando a esmeralda da minha mãe, e acabei me atrasando. Estava uma noite de primavera refrescante, e o Grande Hork brilhava intenso no norte. O Pequeno Hork não apareceu naquela noite, mesmo com um céu límpido e estrelado. Meu castrado corria rápido entre os alamos e salgueiros, tão leve quanto uma pluma. Na sela, meu machado de batalha balançava, enquanto meu punhal cravejado com ônix pendia na minha cintura; tudo para me exibir.

Ao me aproximar do local marcado, percebi que havia uma luz de fogueira. Estranhei ela precisar ascender uma, e achei por melhor parar; poderia ser algum caçador. Como furtividade fazia parte do meu treinamento, descer do cavalo e me esgueirar sem fazer ruído ou sem ser visto era fácil. Me posicionei atrás de um tronco e observei.

Não lembro qual foi minha primeira reação. Só lembro de ver, com muita nitidez, Hagar e dois de seus amigos cercarem ela. Ele segurava um cordão com pingente, e os outros a prendiam pelos braços.

“Por favor, devolva!” Ela suplicava entre lágrimas.

“Mas é claro que irei devolver,” disse Hagar. “Só que para isso você tem que fazer o que pedi.”

Ela não parava de soluçar. Sacudia vigorosamente a cabeça em negação enquanto meu irmão exibia seu sorriso descarado.

Minha respiração ofegava e minhas mãos tremiam, pedindo que eu revidasse. Eu estava entorpecido de ódio ao ver que toda aquela educação e cavalheirismo eram uma farsa. Uma mentira repugnante muito bem escondida atrás daquele rosto sorridente e alegre.

Devia ter avançado. Devia ter enfrentado ele ali, salvando ela daquela situação.

Hesitei. E disso me arrependo.

“Está bem,” disse ela.

Os garotos soltaram-na, e, ainda em soluços, ela começou a despir-se. Puxou o vestido pela cabeça e baixou a peça íntima. Suas mãos pequenas tentavam, em vão, cobrir sua nudez.

“Ótimo. Deitem-na,” disse Hagar.

Os outros dois obedeceram enquanto ela lutava para se desvencilhar das mãos deles. Ela implorava desesperadamente por compaixão, mas meu irmão não conhecia isso. Eu me achava o monstro da família, mas estava errado.

Era óbvio que o pinto de um garoto de dez anos ainda não funcionava, então, ele usou os dedos.

“Que merda, você está seca como uma velha,” zombou ele. Debruçou-se sobre ela e começou a beija-la no pescoço. Os outros riam, e ela gritava pedindo ajuda.

Não posso dizer que foi a primeira vez, já que dizem que todos nós choramos ao nascer. Só sei que essa é minha lembrança mais antiga de uma lágrima descendo pelo meu rosto.

E à medida que ela descia, eu me deixava queimar.

Avancei contra eles feito um louco. Urrava cheio de rancor e desespero. Chutei o rosto do primeiro garoto, peguei Hagar pela camisa e o arremessei para longe. O outro moleque levantou-se para me atacar, mas era um idiota. Acertei-o no estômago, girei e quebrei seu nariz com o cotovelo. O primeiro que eu havia chutado pulou sobre mim. Mordeu meu ombro e apertou meu pescoço. Tateei seu braço e puxei, derrubando-o no chão. Chutei mais três vezes a sua cabeça.

Não precisava de armas para lidar com eles. Eram tão inúteis quanto meu irmão. Na verdade, nem me lembrei de que estava portando um punhal. Eu era forte, e meus braços e pernas ágeis já causavam um bom estrago.

Procurei pela garota, mas ela já havia fugido. Vi Hagar sentado a me encarar, atordoado com a minha presença.

“Covarde!” Gritei, indo na sua direção.

“Ivarr, ela é só uma comum!” Respondeu ele, assustado.

“Filho da puta mentiroso!” Berrei. Caí sobre ele, e acertei seu rosto. Soquei mais uma, duas, três vezes. “Você é o monstro aqui, não eu!” Agarrei sua cabeça, e passei a acertar ela contra o chão. “Eu sou o odiado, mas você é a aberração!”

Ele tentava agarrar meu pescoço, mas não tinha forças. Nunca teve. Nunca seria como eu mesmo que nascesse de novo. Seu nariz sangrava, e minhas mãos ficavam pegajosas com o sangue da sua nuca.

“Você não merece ser normal! É mais deformado do que eu!” Exclamei, e olhei para trás.

Sai de cima dele e o puxei pelo cabelo. Meu coração batia forte. Não era uma simples luta de crianças ou de treinamento. Para mim, aquilo era real. Minha única vontade era de mata-lo. Mata-lo e sentir o calor do seu sangue a me confortar.

“Todos saberão quem você é!” Gritei. Joguei-o ao lado da fogueira e levantei um pedaço de lenha ainda em chamas. Ajoelhei-me perto dele, e vi seus olhos chorosos em meio à face ensanguentada.

Era meu irmão. Gêmeo. Nada mais justo que ele fosse o oposto de mim.

Se o meu lado direito era o monstro, o dele seria o esquerdo…


Conto escrito pelo autor Cássio Levi, autor bem iniciante. Quem quiser saber mais é só ficar ligado no wattpad dele @cassio96lá tem a continuação dessa história, que está excelente por sinal. Da uma olhada lá. ^^

Confissões de um Rei no Wattpad

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