Atenção¹: Esse artigo é para conhecedores de RPG, se você não faz ideia do que é isso, eu recomendo dar uma olhada nesse link aqui! Quem sabe podemos formar uma mesa ai só com escritores. XD

Atenção²: Eu sempre faço uma resenha e falo algo mais nas Dicas da Taverna. Eu decidi fazer isso separado agora porque nem sempre as pessoas estão interessadas nos dois assuntos… Link para a parte 1 com a resenha do Dragonlance!

Sobre adaptar sua campanha de RPG em um romance…

Ver os seus personagens imortalizados nas paginas de uma trilogia épica deve ser o desejo de qualquer mestre ou jogador de RPG, então eu decidi falar um pouquinho sobre isso que eu considero algo extremamente perigoso. Quais são os prós e contras? E tem algum “Norte” para diminuir as chances de dar tudo errado? Vamos ver….

OBS.: Eu vou tentar ser o mais genérico possível quanto ao RPG ao qual eu me refiro, embora eu tenha mais experiência com a fantasia épica (D&D principalmente), muitas das dicas também podem servir se você joga Vampiro, por exemplo.

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Vampiro: A Máscara. Porque nem só de fantasia medieval vive o RPG…

O que é divertido na sua mesa dificilmente vai ser em um livro.

A sua mesa de jogo é formada por interações entre pessoas (amigos na maior parte do tempo) que estão fingindo ser personagens de fantasia, muitas piadas servem muito bem ali, tirar um critico é algo que anima todo mundo, as falhas, achar e dividir um tesouro, beber e brigar na taverna…. Mas se você tira o elemento humano disso tudo e deixa só os personagens de fantasia, boa parte vai perder a graça. Quando você tira um critico ou sai por ai matando orcs e entrando em cavernas pode ser bacana para os jogadores, mas em um livro seria algo bem meia boca.

Cuidado com os personagens!

A não ser que você jogue com um grupo de gente muito dedicada a interpretação, os seus personagens não vão parecer de “verdade”. As ações que os jogadores tomam são com base em um jogo de algumas horas envolta de uma mesa, coisa que alguém que realmente estivesse dentro de batalhas, que ficasse dias viajando na estrada, que levasse uma espadada na barriga e caísse morrendo, para logo depois ser curado e ter que voltar a lutar, enfim, coisas que as pessoas “reais” daquele mundo jamais fariam, os seus jogadores fazem com frequência. Infantilidade, ações por cause de regras, agir completamente contra a tendência ou classe do personagem…são algumas das coisas que podem acontecer que ficarão péssimas ao serem “traduzidas” em um romance. Personagens de RPG precisam de uma intensa adaptação para serem usados em um livro.

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Existe muita diferença entre seus amigos envolta de uma mesa e vampiros em uma luta contra caçadores…

Sem encontros aleatórios!

Serve de dica para todos os autores. Se os “monstros” aparecem do nada só para serem mortos e acabou, era realmente necessário existir essa cena? Talvez para colocar um pouco de ação e “sacudir” as coisas né? Não, não faça isso. O leitor sente quando tem trechos da história onde ele poderia simplesmente passar direto que não ia fazer diferença nenhuma. Talvez você queira mostrar interação entre os personagens ou mostrar os poderes irados que eles têm, o que não tem problema nenhum, mas tente fazer isso de uma maneira mais orgânica durante o texto. “Só mais uma batalha corriqueira” é algo a ser usado com muito cuidado. A nossa vida é cheia de trechos que não fazem diferença, e não queremos mais disso em um livro.

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Ozob e a Lenda de Ruth Ghanor, livros tirados de RPGs que não são adaptações de campanha.

O que mais importa é fazer uma boa história! Sempre!

Essa tem que ser sua prioridade numero um, e depois vem as outras coisas. Eu falo isso pois ao adaptar um RPG você vai ficar pensando em respeito a sua campanha, respeito aos jogadores, respeito ao mundo… e tudo isso tem que ser secundário a fazer uma boa história. Se para ficar bacana algum personagem tem que morrer, ou mudar drasticamente, ou fazer algo muito horrível, deixe ele fazer.

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O Inimigo do Mundo, no cenário de Tormenta. Quando você faz literatura oficial, a história é outra…

Não foi você que criou o mundo, e agora?

Está jogando em Forgotten Realms? Em Dragonlance? Usando os clãs de Vampiro: A Máscara?

E agora, tem como fazer um livro da campanha? Bem, se você quer só fazer uma série sem lucrar nada, só para registrar as coisas, não tem problema nenhum. Mas se a sua intenção era ter algo autoral, você já começou errado… O jeito é abstrair e usar conceitos e tentar criar algo ao redor deles. A criação é uma parte fundamental de ser escritor, e quando você joga RPG você vai estar usando um monte de coisas que outras pessoas criaram, a não ser, é claro, que você tenha inventado um mundo completamente novo, o que é a minha recomendação se você pensa em escrever as suas aventuras

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Usando o Dragonlance como um exemplo, ele é a obra mais “RPGistica” que eu já li ( que fez bastante sucesso, é claro), e os autores já disseram que ela não é uma campanha inteira, mas pequenos momentos de diversos jogos que foram se juntando a uma ideia maior. Algumas características de personagens ali, outro momento épico aqui, e isso tudo passando pelo filtro de uma baita escritora que é a Margareth Weiss. É algo parecido com isso que eu considero a forma com mais chance de uma adaptação sair boa.

Use o seu jogo, assim como tudo na sua vida, como uma fonte de ideias acima de tudo, aí você vai pegando as coisas e vendo o que é bom e o que não é. Adaptando o que da e jogando fora o que não serve para a nada.

Se você já é escritor e mestra uma campanha, pode usar a sua mesa como teste para novas ideias. Jogue um vilão seu lá e veja como ele interage com o seu grupo. Eu tenho certeza que vão brotar muitas ideias boas para você usar.

Enfim, adaptar uma campanha de RPG em muitos aspectos é mais complicado que escrever um livro do nada. Se você não souber medir o quanto aquilo te influencia, vai ser como pegar um monte de problemas e colocar no seu caminho ao invés de algo que te ajude. Eu recomendo para todos aí, adaptando RPGs ou não, fiquem ligados nas ideias que podem brotar para você durante o seu dia, é o melhor caminho a se tomar.

Tem mais informações sobre isso neste post do blog Baião de Letras, onde ele fala mais sobre como o RPG pode te ajudar no seu processo de escrita, vale dar uma olhada. ^^

E se você é escritor e nunca jogou RPG, eu recomendo muito, vai expandir a sua mente! XD

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