É com orgulho que a Taverna abre as portas para receber Ana Lúcia Merege; escritora, bibliotecária e curadora da Divisão de Manuscritos na Fundação Biblioteca Nacional. Durante o papo, Ana falou um pouco de suas obras e trajetória, deu dicas para escritores iniciantes e indicou livros que mudaram sua vida.

O que você aprendeu durante a trajetória de escritora que poderia ter ajudado a Ana no início da carreira?

Aprendi, principalmente, que não adianta ter pressa. Uma história leva o tempo dela para ser contado, às vezes de uma sentada, às vezes em várias reescritas. Não adianta querer publicar assim que se termina. Ao mesmo tempo, chega uma hora em que é preciso trazer esse trabalho à luz e se arriscar a ter o feedback sobre ele, positivo ou negativo, porque isso faz parte do processo de contar a história. Também é preciso encontrar o equilíbrio saudável entre prestar atenção a críticas e ficar achando seu trabalho um lixo apenas porque uma ou mais pessoas não gostaram dele. E, acima de tudo, é preciso saber que você fez o melhor que podia e sabia em cada um dos textos que escreveu, e continuará a fazer isso, não importa se alguém diz que ele é ruim, compara com outras coisas suas que já leu ou com o trabalho de outros autores. Encontre sua voz e conte sua história, no tempo que ela leva para ser contada. É isso que importa.

Uma criança, um adolescente e um adulto. Se você pudesse indicar apenas um livro para cada, quais seriam?

Para uma criança indico “A Árvore Generosa”, de Shel Silverstein. Para um adolescente, “A História Sem Fim”, de Michael Ende. E, para um adulto, “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes.

O que mais te desafia durante a escrita?

Minha ansiedade é uma grande inimiga, mas às vezes fazemos aliança e ela me mantém ligada até eu conseguir concluir uma história ou achar uma solução para algo que está me encafifando! 🙂

Alguns livros possuem o poder de nos fazer mudar. Quais livros mudaram você?

“A História Sem Fim”, de Michael Ende, foi o livro mais importante para que eu me entendesse como escritora. Outros que me fizeram pensar e/ou que despertaram meu interesse por temas que até hoje eu curto pesquisar foram “O Jogo das Contas de Vidro” e “Demian”, de Hermann Hesse; “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien; “A Lua da Rena”, de Elizabeth Marshall Thomas; “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley. Três que mexeram muito comigo: “O Centauro no Jardim”, de Moacyr Scliar. “A Mão Esquerda da Escuridão” e “Aqueles Que se Vão de Omelas”, de Ursula Le Guin, que na verdade é um conto e não um livro, mas vale por uma estante inteira de leitura para fazer pensar. Por último vou citar um livro de fantasia que pouca gente deve conhecer: “The Unlikely Ones”, de Mary Brown, que me deu forças num momento em que eu me sentia lá no fundo do poço da auto-estima.

Quantos romances seus já foram publicados?

Romances mais longos: os da trilogia Athelgard (O Castelo das Águias, A Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar) pela Draco, e Pão e Arte (Escrita Fina). Mais curtos, que eu chamaria de novelas: O Caçador (Franco Editora), e, pela Draco, Anna e a Trilha Secreta e O Tesouro dos Mares Gelados. O Jogo do Equilíbrio, que está em e-book pela Draco, já teve versão impressa independente. E tenho um livro de não-ficção pela Nova Alexandria, Os Contos de Fadas: Origens, História e Permanência no Mundo Moderno.

Além de romances, você também publica contos. Sabemos que muitos leitores não possuem por hábito ler narrativas mais curtas. Como tem sido a receptividade dessas obras?  

Em geral as pessoas gostam bastante do que leem, mas as leituras ainda são muito poucas, mesmo oferecendo vários contos de graça no meu blog e no Wattpad. Não faz mal, eu persisto, adoro escrever contos, embora meu formato preferido sejam os contos longos e novelas (em torno de 60 páginas). Atualmente estou escrevendo bastante sobre uma dupla que viaja no tempo, sempre na Antiguidade: o capitão fenício Balthazar e seu escravo heleno Lísias. A série se chama Os Contos da Clepsidra e tem angariado alguns fãs.

Como é escrever para públicos diferentes? O texto se adapta naturalmente durante a escrita?

Depende. Algumas vezes eu já começo imbuída do propósito de conversar com o pessoal mais novo, noutras vezes o tom se transforma durante a escrita. Comecei este ano o que deveria ser um conto meio sombrio e cheio de simbolismos, passado na antiga Cartago, e virou uma novela para jovens adultos. Mas manteve os simbolismos. Uma coisa que nunca vou fazer é tornar meu texto raso, só por ele ser para um público mais novo; posso no máximo torná-lo mais objetivo e menos sombrio. Não subestimo meus leitores.

Em que momento percebeu que a escrita poderia se tornar uma atividade profissional?

Quando comecei a escrever e publicar com regularidade através da Editora Draco, a assumir compromissos e prazos e a participar de eventos literários, como a Bienal do Livro, a Primavera Literária e a Odisseia da Literatura Fantástica.

Como funcionaram os processos de suas publicações? Você foi convidada, enviou original ou se deu de outra forma?

Publiquei livros independentes que chamaram a atenção de editoras e entrei em grupos no Orkut onde conheci pessoas que leram meus originais e os recomendaram. Dei muita sorte, mas também acho que meu trabalho tinha qualidade, para começar. Hoje procuro fazer com que tenha consistência e aumentar meu círculo de leitores.

Para os interessados em ler suas obras, qual indicaria para começar?

Acho que os adultos vão curtir meus contos nas coletâneas Medieval, Excalibur (Draco) e Martelo das Bruxas (Ed. Argonautas). Para conhecer o universo Athelgard, indico A Ilha dos Ossos. Para os mais novos, Anna e a Trilha Secreta. E eu adoraria receber feedback sobre os contos da dupla Balthazar e Lísias: Os Pilares de Melkart (coletânea Piratas, da Catavento), e, apenas em e-book por enquanto, O Ouro de Tartessos e A Caverna de Zakynthos, esse em parceria com Eduardo Kasse

Sabemos que não é fácil conseguir um espaço para publicação, principalmente para autores iniciantes. Como eles podem se tornar visíveis para leitores e editoras? Que dicas poderia dar aos escritores ainda não publicados?

Vou passar essas duas. Na verdade todo mundo busca seu lugar ao sol, cada um do seu jeito, e pode funcionar ou não, por isso prefiro não sugerir fórmulas prontas. Só digo a eles que leiam muito, leituras de vários gêneros, e escrevam sempre, se possível como atividade diária.

Deixe uma mensagem para nós, autores e leitores da Taverna. 

O nome A Taverna me remete ao cenário medieval, onde existiam muitas corporações, especialmente de artesãos. É o que somos todos, artesãos da palavra, e para sermos fortes devemos agir como os membros de uma guilda: orientar os aprendizes, colaborar com os companheiros e honrar os mestres. Juntos, iremos mais longe, mesmo remando contra a maré, como todos aqueles que trabalham com arte, cultura e literatura.

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