Daniel dormia com um romance policial aberto no peito, de luz acesa, quando bateram forte na porta do quarto. Ele tomou um susto. Levantou-se logo. O livro foi parar no chão. Uma voz gasta e irritada se pronunciou:

“Levanta, rapaz.”

Era seu Herculano.

Daniel estava apenas de short. Vestiu uma camisa e calçou os chinelos. A porta foi destrancada, sem nenhuma pressa. O livro ficou debaixo da cama.

O rosto de seu Herculano carregava o mau humor de sempre. Ele usava óculos grandes, um pijama azul e o cabelo branco estava desgrenhado.

“Que demora”, disse o velho.

“Boa noite, seu Herculano.”

“Olhe ali na porta da rua.”

“O quê?”

“A porta da rua. Alguém está batendo.”

A vontade de Daniel era de meter um soco na cara do velho. Mas acabou por atendê-lo. Saiu do quarto, abriu caminho e parou no meio do corredor. Seu Herculano recuou para junto da parede, como se buscasse proteção contra alguma ameaça.

Daniel encarou a porta da rua. Era toda de madeira, cheia de entalhes, mas sem janelinhas ou aberturas. Não dava para ver se realmente havia alguém do outro lado. Ninguém batia nela. Escutava-se o som de um ou outro carro passando. Aliás, Daniel queria saber o que seu Herculano fazia fora da cama tarde da noite. Os velhos moravam em uma casa dentro da pensão. No térreo, entre a cozinha e a sala de refeições, havia outro corredor, que levava até a casa deles. Lá havia sala, banheiro, quarto e cozinha, tudo em tamanho menor.

A recepção estava abandonada.

“Seu Herculano, onde está Danilo?”

“E eu sei daquele ingrato.”

Quando Daniel chegou à pensão, cinco meses antes, Danilo já ocupava a recepção naquele turno. E volta e meia, largava o posto. Daniel logo percebeu que o sujeito não seria um aliado, nem exatamente um inimigo. Seria um tormento a mais naquele lugar. Danilo não morava na pensão. Mas, com certeza, já havia algum tempo, ele fizera uma cópia da chave da rua, sem a concordância dos velhos. O que mais intrigava era o fato de os dois manterem Danilo trabalhando na pensão. Seu Herculano por ser tão duro com todo mundo. Dona Hermínia por claramente não suportá-lo. Seu Herculano o repreendia na frente de qualquer um. Dona Hermínia não lhe dirigia a palavra. Danilo sempre respondia o que seu Herculano queria ouvir.

Batidas fortes na porta da rua.

Daniel e seu Herculano tomaram um susto.

Então não era uma maluquice, uma invenção do velho.

“Vá atender a porta”, disse seu Herculano.

Daniel virou a cabeça para trás e o encarou com uma raiva indisfarçável, o rosto rígido.

Seu Herculano não queria saber de caretas. Queria que Daniel fosse adiante, que se sacrificasse por ele.

Talvez aquele fosse o momento da verdade. O momento de dizer: chega. Chega de trabalhar por cama, comida e quase dinheiro nenhum. Chega de aturar esses velhos. Chega de cuidar dessa casa velha… Mas, como em outras vezes, Daniel respirou fundo e logo se lembrou do motivo que o levara até aquela pensão, que o fizera sair de sua cidade, no interior, na calada da noite, cinco meses antes. Claro que, com um pouco mais de sorte, não estaria naquele buraco… Pelo menos não passava fome, não dormia ao relento… Continuaria ali até arranjar coisa melhor. Continuaria aguentando toda essa amolação.

Seu Herculano não aceitava que Daniel ainda estivesse parado, no meio do corredor.

“Anda, rapaz, anda.”

Mais batidas fortes na porta da rua.

Daniel não se movia.

Talvez fosse o caso de algo mais excêntrico. Seria algum assaltante metido a besta, querendo entrar pela porta da frente só por farra? Contando com uma possível ingenuidade de alguém ali dentro para ter êxito, sem tanto esforço? Esperando convencer algum imbecil com uma historinha sobre uma emergência, para então destrancarem a porta e o assaltante sorrir, mostrar a arma, entrar, dar uns tabefes e levar tudo de valor?

Ou talvez fosse algo mais corriqueiro: alguém carregando uma mala, perdido pelo centro de Salvador, em busca de um quarto. Pelo menos, uma vez por semana, Daniel testemunhava a cena, ao passar tarde pela recepção. Danilo sempre enxotava qualquer um, sem abrir a porta, apenas falando e ouvindo através dela. Era a ordem expressa dos velhos. Não aceitar ninguém depois das nove horas. Depois que a porta da rua era fechada. A partir desse horário, a função de Danilo era, sobretudo, controlar a saída e a entrada dos hóspedes, checando o livro de registros.

Mais batidas fortes na porta da rua.

Seu Herculano não parava de resmungar.

Daniel percebeu que não tinha saída: precisava acabar logo com aquele tormento para cair de novo na cama. Por ele, daria meia-volta bem rápido, entraria em seu quarto e fecharia a porta. Tudo resolvido sem nada resolver. Mas fazer isso seria o mesmo que arranjar ainda mais problemas com os velhos. Portanto, avante, soldado.

Daniel foi em direção à porta da rua, devagar. Logo acelerou o passo, até parar bruscamente.

Todas as noites, àquela hora, a recepção era iluminada por uma lâmpada de luz branca sobre o balcão. Um lustre simples com três globos era desligado sempre às nove. A luz amarela do corredor permanecia acesa a noite inteira.

Que horas eram exatamente?, Daniel quis saber, o corpo quase colado à  porta da rua. Não devia ser tão tarde. Ele sentia certa agonia toda vez que procurava saber as horas e não tinha um relógio por perto.

Uma voz possante deu-lhe um susto:

“Alguém aí, por favor.”

Sem dúvida, o sujeito lá fora sabia que alguém ali dentro chegara mais próximo.

Daniel limpou a garganta:

“Pois não.”

“Eu queria um quarto, amigo.”

Os olhos de Daniel e os de seu Herculano se encontraram. O primeiro olhava sem mostrar surpresa com o desenrolar da situação. Virara-se para trás a fim de confirmar ao outro que corria tudo bem, não havia motivos para preocupações. No fundo, estava enfurecido por toda a aflição do velho terminar no óbvio. E claro, aliviado, por não acontecer nenhuma péssima novidade naquela noite. Mas seu Herculano, ouvindo o diálogo, ainda se mantinha apreensivo, não pretendia baixar a guarda facilmente.

Daniel abandonou seu Herculano e se virou para o sujeito atrás da porta.

“Já fechamos, senhor. Volte amanhã cedo. A partir das seis.”

Silêncio.

E então o vozeirão do sujeito voltou a impressionar:

“Eu vim de muito longe, não conheço a cidade. Está frio aqui fora. Me parece que não existe outro lugar pelas redondezas onde eu possa dormir. Pelo menos, não um lugar com bom aspecto.”

“Desculpe, senhor. São regras da casa. Se tivesse aparecido até as nove horas.”

Daniel olhou para seu Herculano, que balançou a cabeça rápida e negativamente.

“Vamos fazer o seguinte: me diga quanto é o valor de duas diárias e eu passo o dinheiro por baixo da porta. Será a garantia de minha boa-fé.”

A potência da voz do sujeito não o ajudava muito. Ela fazia Daniel ter uma ponta de dúvida de que realmente não havia perigo nenhum.

“Não posso fazer isso, senhor. Desculpe. Volte amanhã. Vou arranjar um dos melhores quartos.”

Daniel nem sabia mais o que falava, ele mesmo reconheceu. Não tinha autoridade para fazer tal promessa.

Novo silêncio. Desta vez, mais demorado.

“Senhor?”

Nada de resposta.

“A mala do seu pai está comigo.”

Daniel tomou um susto, como nunca antes na vida.

A voz possante do estranho tornou aquelas palavras ainda mais surreais. A bile subiu e desceu pela garganta de Daniel. Não podia ser. Ele não tinha ouvido direito. Tinha entendido errado. Ele não conhecia aquele homem. O homem não o conhecia. Conhecia?

Daniel ficou no dilema entre abrir a porta ou não. Eram duas opções igualmente terríveis. Continuar ali dentro, protegido, mas tomado por uma ansiedade crescente. Ou se expor a uma verdade dura demais para suportar.

“Rapaz, o que ele falou?”, perguntou seu Herculano, lá do fundo.

Então Daniel disse, mais para si mesmo, encarando a porta:

“Sobre a mala. Mas ninguém tinha como saber sobre a mala. Ninguém tinha como saber onde a enterrei.”


 Ricardo Santos é um escritor soteropolitano com diversos bons trabalhos na sua carreira e já apareceu por aqui na Antologia Estranha Bahia e com o conto A Espada de Quenai.

Se vocês quiserem saber mais sobre ele é só acessar o blog ricardoescreve, e curti a pagina dele no facebook. ^^

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