23 de dezembro, 11h30m

Meu caro Arthur,

            Ontem fiquei até tarde olhando uma pintura escura, um presente de meu irmão Ramires. Ela retrata a figura de um espantalho no meio do nevoeiro, e com uma casa ao longe, parecendo perdida na névoa e no trigo. Ela me lembra fortemente um episódio que passei quando voltava do Pantanal, a trinta anos atrás.

            Foi com horror que recebi tal presente de meu irmão, mas não tive coragem de falar-lhe o quanto a pintura me horrorizava, então deixei quieto. E isso se mostrou um erro.

            Nunca comentei sobre o que penso ter visto naquela noite. Então vou lhe escrever, já que sou covarde demais para falar em voz alta, pois não quero que ele me escute e me encontre novamente.

            Meu carro corria rápido pela estrada e a névoa atrapalhava muito a minha visão. Fazia frio, um frio esperado, já que chovera o dia todo, arruinando o meu passeio de barco, e estava escuro, com nuvens pesadas no céu.

            Passei pela ponte do rio Arraias e já ia entrando na estrada para o hotel em que estava hospedado, que ficava na entrada da cidade Feliz Natal, quando notei uma criança na estrada. A ponte do rio ficava no meio do nada, eram vários quilômetros até o primeiro povoado, e a rodovia àquela hora estava deserta, a única fonte de brilho era a dos faróis de meu carro. Então pensei que poderia ser algum animal pequeno no acostamento, mas quando me aproximei mais, vi que era realmente uma garotinha, levando um cesto nas mãos.

            Não resisti ao impulso e parei um pouco mais a frente. Saltei do carro, peguei uma lanterna e fui na direção da garota. Ela me olhou com olhos inchados, como se tivesse chorado minutos antes e fiquei com bastante pena, pois seu corpo estava todo molhado pela garoa fina que começou a cair.

            “O que você faz aqui? Onde estão seus pais?”, indaguei, percebendo que ela me olhava com receio.

            A garota nada falou, virou, e começou a andar para o meio do matagal que rodeava o rio.

            “Ei, garota, volte aqui. Onde estão seus pais?” Voltei a insistir, colocando a mão em seus ombros, obrigando-a a parar. Ela olhou para mim, e notei que sua cesta trançada estava vazia, exceto por algumas folhas de árvore secas, que iam lentamente se tornando uma massa molhada e malcheirosa.

            “Estão lá embaixo”, falou baixinho, apontando para o final da estrada, e eu mal a ouvi, pois o rio estava furioso com a chuva que assolara a região.

            “Eles te deixaram sozinha?”, fiquei irritado com a falta de responsabilidade dos pais da garotinha. “Venha, vou te acompanhar até lá.”

            Ela pegou em minha mão, e percebi que estavam geladas. Tirei meu casaco e coloquei em volta de seu pescoço. O vestido que usava era azul, desbotado e velho, provavelmente era filha de algum pescador pobre da região.

            A estrada era longa e perdi de vista meu carro. Fiquei inquieto. Onde estavam os pais da garota? Aquele não era um lugar para crianças.

            “Fica muito longe?” perguntei-lhe, tentando descobrir mais sobre o pequeno mistério.

            “O que fica longe?” ela olha para mim assustada, como se me notasse pela primeira vez.

            “Seus pais, menina. Eles estão longe?”, interroguei novamente, fazendo-a parar na minha frente.

            Olhei ao redor e foi só nesse momento que me dei conta da paisagem. Estava em um milharal abandonado, com o mato rebelde misturando-se aos pés de milho, e ao longe um espantalho parecia observar-me, como se desse boas-vindas ao seu domínio, os braços abertos em minha direção.

            Decidido a não confiar em minha mente, pois o medo as vezes nos tornam irracionais, voltei ao presente e ao problema que enfrentava. A menina me olhava intensamente, seus olhos brilhando a luz da minha lanterna.

            “Por que veio aqui?”, ela falou, e eu vou confessar que essas palavras me deram um arrepio, do tipo que você só tem quando está realmente aterrorizado. Suas palavras não eram mais soluçantes e cheias de dor, eram frias e cortantes, como se um adulto tomado pelo ódio falasse num tom infantil.

            Eu recuei, espantado com o rumo da conversa.

            “Você estava na estrada. Não é seguro ficar lá”, tentei novamente, me perguntando porque aquela garotinha fazia meu coração querer saltar para fora do peito.

            “Você não devia estar aqui. Se ele te pegar, você vai se arrepender”, ela grasnou, naquele tom de voz horripilante que arrepiava todos os pelos de meu corpo. Então se aproximou de mim, e falou num tom mais baixo:

            “Vá embora logo, e nunca mais pare na estrada.”

            Meu cérebro queria fazer aquilo, correr muito como se tivesse um louco me perseguindo, mas minha parte racional dizia que eu deveria levar aquela pequena em segurança para a família.

            “Não vou embora até você mostrar seus responsáveis”, eu insisti, meu coração batendo descompassadamente, imaginando se eu corria algum risco aparecendo para os pais dela de repente.

            “Não esqueça que você pediu por isso.”

            Ela olhou para o espantalho e então vi uma casa ao longe. Naquele momento uma chama lá dentro foi acesa, iluminando as janelas fracamente.

            “Vamos lá”.

            Nós saímos da estrada e começamos a cortar caminho pelo campo. O mato roçava na minha perna, fazendo a calça ficar ainda mais molhada com gotas de chuva. Então o cheiro começou a me incomodar, pois quando mais próximos ficávamos do boneco de palha, mais forte era o cheiro de folhas se decompondo.

            Parei e olhei para trás, mas não consegui ver muito longe, pois a névoa era forte perto do rio. Quando voltei os olhos para a casa vi que minha companheira se afastara enquanto eu não a olhava, e ia mais adiante, a cesta balançando, enquanto corria na direção da casa, passando pelo espantalho, meu casaco escorregando de suas costas e ficando para trás.

            “Ei, espere aí”, comecei a correr na direção dela.

            Ao passar pela figura de palha notei algumas coisas, como por exemplo, a camisa era sobre uma banda que eu nunca ouvira falar, e era nov. Talvez fosse um espantalho novo. A cabeça era feita com uma bola de pano, o rosto era nada além de uns rabiscos no lugar dos olhos e da boca.

            Passei por ele e o cheiro de podridão começou a diminuir, e já estava a alguns metros longe quando voltei o olhar na sua direção. Ele ainda estava com os braços abertos em minha direção, mas olhando por trás dele vi aqueles olhos, e dessa vez sabia que não era minha imaginação: ele me observava através daqueles pontos negros minúsculos e brilhantes, e eu senti seu ódio fluir através de mim, pois ele sentia raiva do mundo, de todos aqueles que se moviam, de todos que andavam ou tinham pernas, e acima de tudo, de todos aqueles que tinham boca para falar. E ele desejava, mais do que tudo, ser livre. Faria qualquer coisa para conseguir.

            Meu caro Arthur, imagine toda essa sensação de ódio e rancor, esse desejo obsceno passando pela sua cabeça num piscar de olhos. Eu já não era mais eu mesmo, era o boneco sem voz.

            Mais tarde em minhas pesquisas extensas, tentando descobrir mais sobre os espíritos reencarnados, descobri que algumas almas decidem permanecer no mundo dos vivos, mas elas precisam pagar seus pecados da outra vida de alguma forma. Pois as Parcas não permitem que essas pessoas voltem a viver suas vidas medíocres rapidamente, então as transformam em fantasmas, e fantasmas só sobrevivem se forem alimentados pelo ódio e pelas crenças dos vivos. Assim, se houver uma pessoa que ainda acredita em espíritos, essa pessoa será uma eterna âncora dos mortos.

            Aprendi isso do jeito mais difícil depois daquele dia, porque aquele espírito dentro do boneco de palha sabia que eu acreditaria nele, e sabia que um dia eu o libertaria de sua prisão de feno. Um dia ele teria pernas e mãos, e viria atrás de minha boca para que esta fosse dele. A capacidade de se expressar é o que nos torna diferentes dos mortos, é a nossa dadiva, e é por isso que eles a desejam tanto.

            Minha mente se nublou em meio ao trigo, e confesso, com vergonha, que corri. Corri como nunca fiz na minha vida.

            Meu carro só parou na porta da delegacia local e relatei o ocorrido para os agentes da lei, e eles me tranquilizaram, enviando duas patrulhas para o local que eu descrevera.

            Segundo o boletim da delegacia da cidade de Feliz Natal, um homem louco deu um trote em seus agentes e foi multado em dois mil cruzeiros, pois não havia garota, casa ou espantalho no local indicado.

            Nunca tive coragem de voltar lá, e toda noite, quando vem a névoa, eu me tranco em meu quarto, acendo uma vela para a Virgem Maria e rezo, com todas as minhas forças, para que ela venha proteger-me das almas que não possuem voz própria.

            Em minha imaginação, aquela garota nada mais era que uma ilusão, ou as Parcas em si, me mostrando o quanto desconheço do mundo, e também o quanto o mau procura pessoas desavisadas, entrando em suas mentes, as enlouquecendo lentamente.

            Escrevo-lhe na esperança de que aquela garota nunca te encontre, pois tenho medo do boneco já ter mãos e pés para andar e, a Virgem me proteja se eu estiver certo, que venha atrás de mim.

            Não precisa acreditar em minha experiência, pode ser só besteira de seu velho padrinho, mas só quero avisar-lhe para que preste atenção ao que te cerca, pois, assim como eu fui uma ancora acidental para aquele espírito sem voz, você também pode ser, caso decida acreditar.

            Eu sinto-o vindo, cada vez mais perto, e temo que ele me encontre enquanto durmo. Acreditar nele torna-o real para mim, e em noites escuras, quando os galhos batem em minha janela, ouço sua voz, sussurrando e me pedindo para abraçá-lo.

            Não acredite em contos de assombração, pois esses contos dão poder a eles, que pode se ancorar em algum lugar em sua casa, e só sairá dali quando tiver mãos e pés para andar como os vivos, e a boca de seu criador para falar.

            Fiquei aliviado em relatar isso, mas não sei se vou enviar-lhe essa carta. Pareceu-me sombria demais para ser lida. Melhor queima-la antes que alguém a leia e acredite em mim. Se ler isso foi porque eu finalmente tive coragem, decidi te explicar o que me perguntou quando veio me visitar no outono passado, quando disse que tinha visto um espantalho do lado de fora da casa, e por que ele estava lá.

Feliz Natal, de seu amado padrinho, George

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Conto do autor iniciante William Silva.