Seja bem vindo ao Bar Taverna. Nesse exato momento, escrevo enquanto o Taverneiro limpa o sangue derramado pelo último cliente. Se eu sou o último cliente? Não, eu meio que trabalho aqui. Só não recebo para isso, mas eu meio que trabalho aqui sim. Você deve estar curioso para saber de onde veio o sangue. Já chegaremos lá, mas antes me deixe falar um pouco desse lugar.

O Bar Taverna fica no Rio de Janeiro; o bairro não importa. Gente de todo o mundo passa por aqui, mas a maioria dos clientes são brasileiros. Muitos trazem livros com histórias para contar, outros aparecem aqui só para ouvir. A imensa mesa redonda fica ali, bem no centro. Quantos cabem? Depende da história, o que importa é que sempre cabe mais um.

Eu costumo ficar mais no meu canto, e digo isso de forma literal. Tem uma mesinha com duas cadeiras em um dos cantos do bar, essa é minha mesinha, que fica no meu canto. Vez ou outra aparece um visitante para conversar comigo, mas eu seleciono bem com quem converso, não sou de falar muito. Sou mais de escrever. Mas, da minha mesinha, consigo ouvir tudo o que eles falam, e o melhor, ver também!

Nunca se sabe o que vai sair dos livros que se abrem. Já vi dragão sair voando, anjos batalhando, espadas colidindo e sangue derramando. Outro dia mesmo dei de cara com um Mago e um Guerreiro duelando sobre a mesa, foi areia do deserto voando por toda a parte, você nem imagina o trabalho que deu para limpar. E quer saber? Certeza que eles ainda voltam com mais.

Acho que não cheguei a falar metade do que gostaria sobre esse lugar, e você ainda continua me olhando com cara de quem quer saber de onde veio o sangue que o Taverneiro está limpando. Você venceu.

Todos já tinham ido para suas casas quando ele chegou. Todo de preto, ombros retraídos e cabelos grisalhos. Trazia consigo duas malas que dificultavam seus passos.

– Estamos fechando, senhor – informou o Taverneiro.

Um leve tremor chamou minha atenção quando as malas que aquele senhor carregava foram ao chão. Olhos pequenos e apertados se revelaram por trás das lentes, igualmente minúsculas, de seus óculos. Foi impossível não o reconhecer. O Taverneiro pegou uma das malas de imediato. Ainda incrédulo, tratei de abandonar meu canto para ajudar a carregar a mala que ainda estava no chão. Ambas pesavam tanto, que eu não parava de me perguntar como ele conseguira carregá-las.

Mesmo feita de madeira antiga, maciça e preparada para suportar batalhas épicas, a mesa rangeu como reclamação ao ser atingida pelas malas que sobre ela foram depositadas. Através dos lábios finos, portadores de um sorriso majestoso, a voz inconfundível ecoou pelas paredes cobertas por pedras centenárias.

– Algumas histórias têm dentes – disse ele.

 No mesmo instante, as duas malas se abriram. Dezenas, talvez centenas, de livros borbulhavam dentro delas.  Folhas inquietas imploravam por leituras em um convite que não aceitaria recusa. Ele pegou um deles e não se deu ao trabalho de desviar dos dentes que perfuraram sua pele. Sim, eles realmente tinham dentes. O ferimento na mão era atípico, não sangrava. Foram tantas as mordidas, que aquele senhor já  estava acostumado.

Ao soltar o livro sobre a mesa, ele se abriu. Páginas derreteram em espiral e ela emergiu. Sapatos e vestimenta imaculados, penteado esculpido com o cuidado que uma obra de arte requer. Eu sabia o nome daquela menina. Você sabe, não sabe? Deveria. Talvez não tenha se dado conta, deixe-me terminar a história.

Tanto eu quanto o Taverneiro observamos cada passo que ela deu em direção ao centro da mesa. Vindo do alto, o barulho metálico invadiu nossos ouvidos. Parada ela permaneceu, olhos fechados tremeram sob as pálpebras segundos antes do banho vermelho. O odor característico de sangue se espalhou, assim como o líquido que escorreu em direção às extremidades da mesa redonda. Antes que o sangue chegasse até as malas, elas fecharam e foram recolhidas pelo senhor. A menina sentou e, ciente do que estava por vir, o Taverneiro correu para fechar o livro. A figura banhada em vermelho se desfez em mais sangue, que então passou a escorrer da mesa e pingar sobre o chão.

– King… – murmurei.

Satisfeito, ele partiu.

Deu trabalho, mas limpei logo minha parte e vim aqui contar para você. Matou sua curiosidade? Espero que sim. Fora algumas marcas de dentes nas mãos, o Taverneiro e eu estamos bem. Agora o dia amanhece e já passou da hora de fechar. Fique tranquilo, volto em breve.

 


Outros contos do Bar Taverna:

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O Mago e o Guerreiro