Havia um tempo em que os deuses e seus demônios, sombras de suas próprias existências, caminhavam entre os seres frutos de suas criações. Em prol de testar os limites de suas invenções divinas, os seres imortais, disfarçavam-se com a carne de homens, mulheres, monstros e animais para os seus métodos e truques.

   Nesse tempo existiu um homem que por conta dos revezes da vida, perdeu tudo o que possuía. Seus bens eram apenas as roupas no corpo e aqueles que amava já não participavam desse mundo. Em desespero, desabafou a todos os ventos sua angustia e preparou-se para pular de um abismo de morte certa.

Um demônio que passava por ali na forma de um corvo, ouviu tudo e resolveu testar o humano em seu momento de maior fragilidade.

Pousando em um toco de árvore que ali se encontrava ele grasnou para que o homem não pulasse, pois ainda havia esperanças para um destino melhor.

O homem quebrado ouviu a voz do corvo e ajoelhou-se perante ele, acreditando se tratar de uma divindade benevolente. Perguntou ele como aquele não poderia ser o seu fim, se todas as portas da sorte e das oportunidades se fecharam atrás dele.

Aproveitando a presunção do mortal sobre a natureza divina de seu ser, o demônio mentiu, dizendo ser o Deus da Esperança. Se todas as portas do mundo haviam sido fechadas, o Corvo abriria uma nova janela. Mas essa, como o homem não suspeitava, seria uma armadilha cruel.

Ele então ofereceu dois caminhos para o pobre humano reascender financeiramente e assim poder reconstruir sua vida. O primeiro caminho daria ao homem todo o dinheiro que ele possuía em seu ápice, anos antes de perder tudo. O segundo, faria o homem produz riquezas que a cada dia somariam o dobro do valor do produzido no dia anterior, começando naquele momento com uma simples moeda de ouro.

O sujeito, encantado com a possibilidade de ser cada dia mais rico do que o anterior, escolheu a segunda opção, pois considerava a ideia de ter o que tinha antes muito pouco para sua ambição, mesmo sendo mais do que o suficiente para viver sem preocupações.

O Corvo então disse que daria o que o homem queria com uma pequena condição. Tudo o que o homem tivesse produzido durante sua vida seria de posse do corvo quando sua vida acabasse. Não se importando com suas riquezas no pós vida, o homem assinou o tratado com o demônio disfarçado, acreditando que sua ganância o teria guiado para o melhor caminho.

Ali mesmo, no local do pacto, o sujeito cuspiu uma moeda de ouro no chão. Quando ele apanhou o ouro e olhou para cima, o corvo já não estava mais.

No segundo dia, ele cuspiu duas moedas e sua fome ele saciou. No terceiro dia, quatro moedas vieram e ele pode lavar as sujeiras de sua pobreza. No quarto dia, oito moedas foram cuspidas e ele comprou roupas melhores. No quinto dia, o homem cuspiu dezesseis moedas e ele gastou com trivialidades. No sexto dia, vieram trinta e duas moedas de sua garganta e no final da semana ele vomitou sessenta e quatro.

Conforme os dias passavam, o homem ficava mais rico e mais feliz com o que podia alcançar. Mas mesmo assim, esperava pelo próximo dia ansioso pois seria duas vezes mais alegre e bem-sucedido. Cento e vinte e oito moedas, ele cavalgou pomposamente pelas planícies. Duzentas e cinquenta e seis moedas, todos os seus desejos carnais da vida de plebeu foram concretizados. Quinhentas e doze moedas, ele tinha um protetor pessoal para guardar sua vida. Mil e vinte e quatro moedas, comprou uma luxuosa casa nobre. Duas mil e quarenta e oito, gastou com tantas coisas, mas ainda assim sobrou no fim do dia. Quatro mil e noventa e seis moedas, tinha uma equipe inteira como sua guarda pessoal. Oito mil e noventa e duas moedas, apenas duas semanas se passaram e ele já era senhor de terras.

Dezesseis mil trezentas e oitenta e quatro moedas e no décimo quinto dia ele já não sabia onde guardar tudo aquilo. Trinta e duas mil setecentas e sessenta e oito moedas, passou a jogar dinheiro fora e dar aqueles que venciam competições cruéis. Sessenta e cinco mil quinhentos e trinta e seis moedas, cento e trinta e uma mil e setenta e duas moedas, duzentas e sessenta e duas mil cento e quarenta e quatro moedas, quinhentas e vinte e quatro mil duzentas e oitenta e oito moedas…

Em um mês, o humano já era o mais rico do mundo todo e possuía comprara um castelo fortificado para toda sua riqueza exponencial. Mas sua loucura o trancou nos salões, sentado ao trono, mandando e desmandando na vida de centenas de milhares de pessoas ao bel prazer que se sujeitavam à sua tirania absurda em troca de riquezas e mais riquezas infinitas.

No trigésimo primeiro dia, o homem sufocou-se em uma pilha de um bilhão setenta e três milhões setecentas e quarenta e uma mil oitocentas e vinte e quatro moedas, pois ignorou seu conselheiro a sair de um cômodo fechado quando viu a quantidade enorme de moedas do dia anterior.

Foi então que o Corvo voltou, reclamando todo seu ouro de volta. As moedas, espalhadas pelo reino e extensões todas viraram neblina, desaparecendo com a riqueza de diversas pessoas que em apenas um mês construíram seus minis impérios por causa do sujeito ganancioso. Eles quebraram de um dia para outro e toda a organização dos homens ruiu com seus fracassos.

Foi assim que o demônio provou que a ganância de um homem não destruía apenas sua vida, mas também destruía a vida de todos os outros homens gananciosos ao seu redor.

Dowload do Conto em PDF: Uma ou Duas Moedas – André Gaspar


Originalmente publicado nesse link.

André Gaspar é Responsável pelo blog A Taverna, e decidiu divulgar seu trabalho aqui no blog A Taverna. XD

A página dele tem muito conteúdo bacana, incluindo outros contos muito bons, deem uma olhada lá! ^^

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