Nesse exato momento, o Cristo Redentor rola, em pedaços, morro a baixo. Não só ele, o cume do Corcovado também está destruído. Os responsáveis continuam travando uma batalha, digamos, acalorada. Desculpe, não tenho como dizer o que acontece depois. Pelo menos não agora, não enquanto dois dragões cospem fogo e iluminam a noite carioca. Enquanto isso, sente aí e leia o que já aconteceu:

Eu nunca tinha visto um dragão, e não era em plena terça-feira que esperava ver um. Não que eles tenham dias específicos para aparecer, mas você entendeu. De todos os dias da semana, terça é sempre o mais parado. Como sempre, o Taverneiro se entretinha com leituras das mais variadas e eu tirava um cochilo com os pés sobre a mesa.

O magrelo esbaforido adentrou o bar e os passos barulhentos me fizeram despertar e abrir os olhos para acompanhar o que ocorria. Seus cabelos loiro-platinados refletiam com intensidade as luzes escassas.

– É aqui que os iniciantes contam suas histórias?

Após pausar a leitura, o Taverneiro respondeu:

– É sim. Gostaria de beber alguma coisa?

– Não tenho tempo para isso. Preciso que essa história seja lida – disse ele, e entregou uma folha de papel ao Taverneiro.

– Só isso? Sua história só tem um parágrafo?

– É mais que suficiente.

Os dois caminharam até a grande mesa central e o papel com a história repousou sobre ela. Passei a observar o magrelo com mais atenção, havia inquietude na maneira como se portava. Caminhava de um lado para o outro e, sob os óculos escuros, notei o brilho lilás. Um ovo se materializou sobre a mesa.

– Ele vai pegar! – gritei para o Taverneiro, que me olhou assustado e percebeu que o visitante se debruçava sobre a mesa para pegar o ovo que lá estava.

O Taverneiro tentou evitar:

– Você não pode…

Ele realmente não poderia ter feito, mas fez. Com o ovo em mãos,  tratou de descer da mesa e partir em retirada. Não poderia deixar aquilo acontecer. Levantei-me rapidamente e  impedi que prosseguisse.

– Devolva! – ordenei.

Ele não se intimidou. Trazia consigo, sob o sobretudo que trajava, uma espada que desembainhou e usou para me ameaçar. Uma espada! Quem anda com uma espada? Enfim… Atento ao que acontecia, o Taverneiro agiu com rapidez e deu um tapa no ovo, fazendo-o ir ao chão. Os segundos que antecederam o choque do objeto com o chão passaram lentamente em minha mente. Cheio de fúria, e ciente de que não conseguiria evitar o impacto, o magrelo tentou acertar o Taverneiro com um golpe de sua espada. Não me pergunte como, mas ele se esquivou como se treinasse para aquilo todos os dias.

O ovo atingiu o chão e, contrariando todas as expectativas, não quebrou. Apenas rolou até ficar bem próximo à lareira. Sempre achei aquela lareira desnecessária. Um calor dos infernos no Rio de Janeiro e uma lareira no meio do bar. “É para criar um clima de taverna”, dizia o Taverneiro. Bom, descobrimos que ela servia para algo mais instantes depois…

Aproveitando a distração do magrelo, parti em sua direção. Com um mata-leão, consegui imobilizá-lo. Para não ser atingido pela espada, pisei com o pé direito na dobra do joelho e o puxei para trás, fazendo-o ir comigo ao chão. Logo em seguida, o Taverneiro tratou de se apropriar da espada.

Passei a apertar seu pescoço com tanta força que só pensava em quanto tempo demoraria para ele apagar, mas não deu tempo para isso. O barulho de algo se rachando chamou a atenção do Taverneiro:

– Vai nascer! – ele gritou.

Soltei o magrelo e corri até onde o ovo estava. Chutei-o em direção ao fogo e, pelo barulho, era certo que havia se partido de vez. Nosso visitante soltou uma risada aflita e debochada. Bastou olhar para o Taverneiro para saber que tinha feito uma grande cagada. Seu semblante era de apreensão.

Os pedaços de madeira que ardiam, alaranjados, em meio às cinzas, passaram a se mexer e de lá ele saiu. Tinha quase a altura do meu joelho e eu só tinha uma pergunta em mente: Como de um ovo do tamanho da minha mão, poderia ter saído aquele ser que tinha a altura do meu joelho?

Escamas negras revestiam todo o corpo daquele dragão que trazia duas esferas de lava como olhos. Dentes pontiagudos escapavam pelas laterais da boca. Transbordando excitação, o magrelo correu até ele e se posicionou à sua frente.

– Agora vocês vão pagar por terem tentado me deter!

Olhei para o Taverneiro e ele ainda tinha a espada em sua posse. Acenei positivamente com a cabeça na esperança de que ele a usasse. Seus dedos apertaram o cabo da arma com mais força, preparava-se para o golpe quando a labareda de fogo emanou luz por todo o bar. Por pouco, nenhum de nós foi atingido. O visitante não teve a mesma sorte, assim que o calor se dissipou pelo ar, restou apenas um foco de incêndio em todo ambiente. As nádegas do magrelo.

Não pude conter a gargalhada que veio à tona.

– Cuidado!

O aviso do Taverneiro foi crucial para que eu não tivesse o mesmo destino. Ao olhar para o dragão, vi que inspirava oxigênio para mais um ataque. Corremos para o fundo da Taverna e a criatura pareceu ter desistido de nós.

– O que vamos fazer? – perguntou o Taverneiro.

A porta bateu quando, em busca de socorro, o magricelo correu para a rua. E não foi só ele, o dragão não deu tempo para que pudéssemos pensar, lançou-se para fora do bar e partiu.

– Vamos atrás dele! – eu disse.

Corremos para o exterior, mas já era tarde. A criatura ganhara os céus com a imponência de um tirano. Já estava bem maior, crescia em uma velocidade tamanha que, se assim continuasse, logo seria colossal. Ainda deu tempo de ver o vagalume flamejante digo, magricelo, virar a esquina aos berros.

Do outro lado da rua, um senhor de óculos, barba branca e boina gargalhava alto. A barriga protuberante ganhava forma por entre os suspensórios.

Divirtam-se – desejou ele, antes de prosseguir caminhando.

Preciso interromper sua leitura aqui. A história ainda não acabou, adoraria deixar você ler mais agora, mas eles estão indo para o Pão de Açúcar e eu preciso agir. Só falta colocarem fogo nos bondinhos… Me espere, prometo não demorar!


Outros contos do Bar Taverna:

1

Outras séries de Diogo Ramos:

O Mago e o Guerreiro

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