Nossos amigos da Draco são sempre muito bem vindos. Depois de Ana Lúcia Merege, agora é a vez de Eduardo Kasse. Autor da série “Tempos de Sangue”, Eduardo não economizou palavras ao nos conceder uma entrevista que vai da poesia aos sonhos. Tendo sua trajetória como base para a conversa repleta de dicas para autores iniciantes, nosso convidado esbanjou bom humor e foi direto ao ponto quando perguntado sobre como conseguir a tão sonhada publicação.


Muitos não sabem, mas a poesia fez parte da sua formação como escritor. Quais são seus poetas prediletos e como a poesia influencia em sua obra?

Eu vejo a poesia como uma das mais livres e impactantes expressões da literatura. Com poucas palavras e frases, você gera sensações e sentimentos nos leitores. Com um verso você ambienta um local ou, com uma estrofe, você cria mundos. Poesia é a arte de desenhar com palavras!

Gosto muito de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Augusto dos Anjos, Clarice Lispector, Bocage! Enfim, são tantos, de tão diversos estilos, que a lista é imensa.

Isso sem contar as letras de músicas: algumas delas poesias tão magníficas que nos deixam sem eixo. Quem me segue nas redes sociais sabe que sempre posto um para inspirar os escritos com músicas – principalmente por causa das letras – relevantes ao que estou escrevendo no momento.

Assim sendo, não podia ser diferente: a poesia, até hoje, está muito presente na minha obra. Não mais no seu formato clássico, mas em trechos inseridos nos textos, nas falas dos personagens, nas cantigas nas tavernas ou nas lendas contadas à beira da fogueira.

Ao falar sobre sua trajetória, você cita dificuldades em sair do “pseudo-conforto” que conquistou com sua primeira profissão para buscar a felicidade na carreira de escritor. Que conselhos poderia dar aos que vivem esse dilema?

Tudo na nossa vida é baseado em escolhas e, geralmente, os resultados não são absolutamente certos, ou até mesmo imprevisíveis. E todas as escolhas trazem ganhos e perdas.

Quando eu atuava exclusivamente no mercado de TI, tinha um ótimo retorno financeiro, mas zero tempo ou motivação para escrever meus livros. E isso estava me deixando mal, nervoso, adoentado. O desgaste mental era tão grande que, por vários anos não escrevi uma linha sequer.

Era como estar num lugar de onde, da janela, eu podia ver uma linda paisagem, mas nunca podia sair para desfrutar dela. Vivia de forma artificial: acorda, trabalha 15 horas por dia – quem me conheceu nesse período sabe que o Eduardo Kasse ser vivo não existia! –, dorme mal sonhando com o trabalho, acorda, toma doses insanas de cafeína, luta contra a dor de cabeça…

Enfim era um ciclo bem nocivo. Pagava bem, mas sugava a alma.

Mas nem tudo foi dor e tudo o que aprendi nesse período utilizo no meu trabalho com a literatura: planejamento, metas e objetivos, foco, aprendizagem…

Foi um momento que teve seu começo, seu desenvolvimento e seu fim. E sou grato por ter conseguido mudar antes de ter um declínio, por motivos de saúde, de saco cheio, de insanidade, sei lá!

Então, como eu acredito muito que essa vida só tenho essa, decidi dar uma guinada na carreira e atuar na produção de conteúdo: hoje minha atuação profissional é exclusivamente baseada na escrita. E batalho dia a dia para que, em breve, a literatura seja a parte integral.

Meu conselho para quem vive esse mesmo dilema: encontre o equilíbrio!

Não saí de TI da noite para o dia. Foi um processo gradativo, apesar de rápido. E não deixei o mercado corporativo de vez. Até hoje atuo junto com os clientes criando conteúdo para seus negócios, afinal, as contas não seguem nossos sonhos, não é?

O importante é lutar e não desistir (se é esse mesmo o seu desejo, ser um(a) escritor(a)). E aproveitar também o caminho, pois do fim da jornada nada sabemos.

Quais armadilhas o mercado editorial reserva para escritores iniciantes? Como escapar delas?

Como tudo no mercado – independente da área – todas as ações das empresas visam o lucro. Editoras são negócios. Livrarias são negócios e ponto final (calma, não julgue antes de ler tudo!).

E na literatura há duas variáveis fortíssimas envolvidas: a ilusão e o sonho. E os negócios de não tão boa índole sabem muito bem como explorar isso.

Primeiro, a maioria dos escritores têm a ilusão que escreveram algo genial, maravilhoso, sublime e único. E que com esse escrito se tornarão os novos Tolkiens, Martins, Rices, Kasses (hahahahahahaah só para descontrair, ok??????).

Não duvido e sequer julgo que muitos iniciantes já estreiam com histórias ótimas, bem trabalhadas e com conteúdo de valor. A questão não é essa. Mesmo tendo esse material de qualidade em mãos, há muito trabalho a ser feito. E é isso que muitos evitam: acreditam que pagando xxxx mil reais para uma editora e estando uma prateleira de livraria, venderão horrores. Não!

E mesmo quando não pagam, acham que o trabalho terminou. Ou que agora depende somente da editora. Não!

Pesquise as biografias dos seus autores prediletos. A maioria comeu muito pó durante anos na estrada antes de se destacar.

Há muitos negócios que vendem sonhos, mas falo por experiência própria: o sonho se constrói pedacinho por pedacinho no nosso dia a dia. O sonho só acontece depois dos pés sangrarem de tanto caminhar – não, não é exagero.

Então, para escapar das tais armadilhas, o primeiro passo é entender: a prosperidade profissional acontece na mesma medida do nosso esforço, em escrever, em criar comunicação com o público e, acima de tudo, em aprender.

Desconfie sempre de quem oferece soluções milagrosas e ofertas generosas demais de sucesso. Procure editoras idôneas e que te mostrem a realidade. Na Draco sempre foi assim, todas as conversas sempre tiveram o tom: vamos trabalhar juntos, vamos dar o nosso melhor e ir colhendo os resultados com calma. Nunca houve promessas, exceto aquelas de gerar esforços para o crescimento mútuo.

É o famoso ganha-ganha, que muitos pregam, mas pouquíssimos têm esse verdadeiro espírito de colaboração.

É normal que, ao darmos os primeiros passos como escritores, nos deparemos com a sensação amarga de achar que somos uma fraude, que nada do que escrevemos está bom o suficiente. O que dizer aos que ainda estão passando por essa fase?

É mais do que normal, diria que é necessário! São as derrotas (ou as dificuldades) que nos ensinam e nos ajudam a tirar a bunda da cadeira e buscar alternativas. Se só acertamos tendemos a nos tornar arrogantes e a atuar/criar de maneira mediana.

Quando falhamos, buscamos nos superar e a usar as adversidades como combustível. Afinal, todos nós queremos um pouco do ópio da satisfação, do sucesso. Mas cuidado: a fama é efêmera. Hoje você pode estar num pedestal dourado, amanhã na lama.

Por isso é importante construir uma carreira sólida com foco total no bem-feito (nunca nos holofotes, modismos, fórmulas de sucesso), afinal se um leitor investiu seu tempo e seu dinheiro para conhecer o nosso trabalho, ele deve receber o nosso melhor.

E como você disse: é uma fase. Vai causar desânimo, tristeza e vontade de largar tudo. Eu vivi isso. Eu vivo isso em algumas circunstâncias. O importante é respirar fundo e seguir, pois, águas paradas apodrecem, criam lodo. Só o movimento traz as energias criativas necessárias para fazer acontecer.

Você intitula 2011 como “o ano do despertar”. O quão importante foi conhecer um editor que abraçasse seus projetos e acreditasse em você?

Foi essencial. Se o Erick não me apoiasse e confiasse no meu trabalho, tudo seria diferente (melhor, pior, não sei). O que sei é que, só por meio da parceria e da cumplicidade que encontrei na Draco é que pude desenvolver o meu trabalho com mais confiança e com bases importantes. Ele me ensinou muito, assim como todos os profissionais que colaboraram com a Tempos de Sangue, como o Antonio Luiz M. C. Costa, a Ana Lúcia Merege e o próprio Erick.

Cada um trouxe conhecimentos e habilidades que agregaram valor. É o processo de lapidação essencial para oferecer boas histórias.

Para os escritores que ainda não tiveram seus projetos abraçados, quais seriam seus conselhos? Como conseguir a atenção de editores e alcançar a tão sonhada publicação?

Cada um deve encontrar seus caminhos, mas se eu tivesse que apostar minhas fichas seria em:

  1. Tenha identidade: teste, experimente, erre, acerte, faça e refaça até encontrar a sua voz. Encontre o seu estilo e escreva sempre com identidade.
  2. Escreva com verdade: acredite naquilo que escreve. Se você se enganar, o leitor vai perceber e as coisas desandarão. Não copie esse ou aquele autor só porque ele teve sucesso. Inspire-se, claro, mas crie aquilo que te motiva, que te dê tesão.
  3. Escreva com a alma: escrever não é apenas juntar palavras até formar frases. Se aquilo que você cria não te gera nenhuma sensação ou sentimento, comece novamente! Nós escrevemos para impactar de alguma forma.

E sobre o mercado: tenha bom senso! Não seja um(a) pentelho(a) rsrsrs. Não tente forçar seu trabalho goela abaixo. Vá conquistando seu espaço, interaja de forma natural, nunca impositiva. E nem tente “surfar” no sucesso de outros. Haja como você gostaria que fizessem contigo.

Falando sobre a escrita, que desafios encontrou ao escrever o primeiro livro?

Escrever fantasia com veracidade histórica é osso, mas eu adoro! Acho que o maior desafio foi pegar o jeito de escrever uma história coerente, “possível” e sem fugir dos fatos reais. Não criei um mundo, eu permeei o nosso, a nossa realidade com a fantasia e os meus imortais.

A segunda dificuldade foi criar personalidades para cada um – pessoas, deuses, animais – que aparecem nos relatos. Os nossos personagens precisam ser factíveis e, de certa forma, reais.

Ao comparar seu livro mais recente com o primeiro, em quais aspectos a evolução de sua escrita pode ser notada?

Bem, creio que a principal diferença está nas técnicas de criação. Não que isso torne um livro melhor ou pior que o outro. Não. São apenas evoluções nas formas de criar cenas, de trabalhar os diálogos ou mesmo desenvolver os objetivos da trama. Mas como esse foi um processo natural, constante, para mim não fica tão simples descrever objetivamente as evoluções.

 Os cincos livros da série “Tempos de Sangue” são suas principais obras. Fale um pouco sobre a série e, se possível, tente descrever cada um dos livros usando apenas uma palavra.

A Série Tempos de Sangue é uma fantasia histórica medieval – nos contos, temos muitos personagens nascidos na Antiguidade –, em que pessoas comuns, como você e eu, por escolha ou pelo acaso, tornaram-se imortais. São livros para quem curte cenários reais, personalidades históricas reais e medievalismo roots. Como diria a minha amiga Ana Lúcia Merege, competentíssima escritora, é a Série dos S’s: Sangue, Suor, Sexo e Sujeira! Hahahahaah

Vamos ao desafio de definir os livros usando apenas uma palavra:

  1. O Andarilho das Sombras: Orgia
  2. Deuses Esquecidos: Dúvida
  3. Guerras Eternas: Lutas
  4. O Despertar da Fúria: Rancor
  5. Ruínas na Alvorada: Cansaço

Aliás, proponho aos leitores da Série fazerem o mesmo. Tô curioso para ver as definições.

– Que novidades podemos esperar? Já existem projetos em andamento?

Estou escrevendo um novo livro que trará batalhas e jornadas incertas. Também se passa na Idade Média e traz muita mitologia, lendas e afins.

Da Série Tempos de Sangue, em breve, teremos uma novidade em outro formato. Aguardem.

– Deixe uma mensagem para nós, autores e leitores da Taverna. 

Lutem por vocês, pelos seus sonhos e ideologias. Lutem com garra e acreditem que o impossível é apenas uma palavra como qualquer outra.

Obrigado.


Quer saber mais sobre o Eduardo e adquirir toda a série? Acesse:

Site do Autor

Tempos de Sangue

Anúncios