Bom dia galera! Hoje vim compartilhar com vocês um método de escrita muito bacana que descobri essa semana, o MICE (precariamente traduzido por mim como RATÃO XD).

Não sei se vocês sabem, mas eu também me aventuro a escrever umas coisinhas aqui nos bastidores. Confesso que eu gasto muito mais tempo procurando coisas teóricas do que escrevendo efetivamente, e são dessas procuras que saem todas as dicas da taverna. São coisas que eu encontro por aí e penso “cara, isso é muito maneiro” e então tento passar para vocês. São sempre conceitos que me deixam empolgado e me ajudam a organizar as ideias, mas nenhum me ajudou tanto quanto o M.I.C.E (Talvez o mostre, não conte. Mas esse ai é batido já XD).

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Espero que essa dica ajude vocês como me ajudou… 🙂

MICE é a sigla em inglês para Milieu, Idea, Character e Event, que são, em uma tradução livre: Ambiente, Ideia, Personagem e Evento

Escrever usando essa estrutura significa que cada trecho da sua história (ou ela inteira) vai ter um desses aspectos mais proeminentes. Os textos curtos, como contos, normalmente vão apresentar apenas um desses aspectos, e em livros maiores todos esses pontos vão estar presentes, mas ainda assim um deles vai chamar mais atenção.

Quando você escreve uma história, geralmente fica mais claro o que está querendo mostrar ali e, tendo consciência disso, poderá maximizar a eficiência do seu texto, sabendo quando aquela história começa e quando ela efetivamente termina.

Vamos a uma explicação mais detalhada de cada aspecto:


Estrutura de Ambiente (Milieu)

Essa é uma história baseada no que está ao redor do personagem. Pode ser um mundo novo, outro país, outra vizinhança…. Quando o foco é a descoberta desse mundo e as coisas incríveis que tem nele, é uma história de ambiente. Ela normalmente começa com o personagem principal entrando ou muito próximo de entrar nesse mundo novo e termina quando ele sai desse mundo (Ou decide ficar).

Alice no País das Maravilhas é o exemplo mais óbvio disso, mas grandes livros, principalmente de fantasia e ficção científica, geralmente têm aquele momento em que a exploração do mundo ou de algum lugar acontece.


Estrutura de Ideia (Idea)

Essa estrutura é baseada na descoberta de informação. Ela começa com uma pergunta e termina quando a resposta para essa pergunta for encontrada.

Os mistérios usam isso demais. “Quem é o assassino? ”, “Quem roubou as joias? Como ele fez isso? ”. São exemplos perfeitos de uma história baseada em uma ideia.


Estrutura de Personagens (Character)

Essa história foca na mudança interna do protagonista. Geralmente começam com o personagem percebendo algo que ele deseja mudar em si mesmo e termina quando essa mudança (ou a aceitação) é alcançada. Dramas normalmente empregam essa estrutura.


Estrutura de Evento (Event)

Começa quando acontece alguma coisa que muda a ordem no mundo e termina quando esse evento acaba e o mundo alcança uma nova ordem (ou volta para a ordem antiga).

Um antigo senhor do escuro se erguendo é um exemplo disso (Senhor dos Anéis). Muito usada em fantasias épicas.


Essas quatro estruturas não são regras e muito menos são engessadas ou excluem uma a outra. Elas são formas do próprio escritor entender o que está escrevendo e aumentar a eficiência do texto.

Um exemplo de vários usos dessas estruturas no livro O Hobbit, por exemplo:

– Bilbo sai do condado, explora a terra média e conhece muitas coisas incríveis e no final volta para o condado. (Estrutura de Ambiente)

– Um dragão ancião tomou a cidade dos anões e agora ele voltou a despertar, e no final ele é derrotado (Estrutura de Evento)

– Bilbo começa como alguém bem “caseiro” e se torna mais aventureiro para concluir a aventura (Estrutura de Personagem)

[Não consegui pensar em nenhum arco muito grande de Ideia nesse livro XD]

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Viram como essas características não se anularam, ao invés disso elas correram juntas em toda a história? E viram também que cada uma começou e da mesma forma terminou de maneira bem clara, sem pontas soltas? Esse tipo de percepção pode ser muito útil quando você escreve para pensar em um fim para seus arcos narrativos.

Eu descobri recentemente essas estruturas e elas vêm me ajudando muuuito a criar contos e histórias curtas. Facilitaram muito meu processo de ter ideias e de desenvolve-las, é por isso que eu as trouxe aqui procês. ^^

Eu resolvi também avaliar alguns contos da taverna com base nessas estruturas. Como a maioria desses autores não pensaram na forma MICE para escrever, a conclusão pode ser meio nebulosa, mas aí vocês mesmos podem chegar à conclusão se isso prejudica ou não a história. Lembrando que isso é uma avaliação pessoal e totalmente moldada pela minha opinião, os autores não têm nada a ver com essas conclusões. XD


Vamos dar uma olhada nos contos:

O conto Névoa e Palha, terror do Willian Silva, é uma história de Ideia, na minha opinião. Começa mesmo com a pergunta, um mistério: “Quem é essa garota na beira da estrada? ” E o conto gira em torno do aprofundamento desse mistério. Como em muitos contos de horror, a busca por conhecimento não leva a um bom lugar.

No Confissões de um Rei, fantasia medieval do Cássio Levi, eu diria que é um conto de Personagem, com o personagem começando bem e o ódio e a vingança crescendo nele, até o momento que ela é colocada para fora. Uma mudança principalmente na personalidade do personagem.

O Imaginário, terror do Igor Dmirkutska, também gira em torno de uma Ideia. “O que é essa coisa? O que o Protagonista fez? ”. Por mais que o foco seja unicamente o personagem principal, não é um arco de Personagem pois não existe uma mudança acontecendo com o narrador.

No O Mercador de Sonhos, fantasia no estilo fábula de Marcello Schweitzer, temos um uso curioso disso. É uma história de Personagem disfarçada como uma de Ambiente, pois tudo que acontece naquele mundo novo que o protagonista entrou é um reflexo do seu interior. Quando sai do mundo mágico e volta para o mundo real ele também está mudado. Esse é um método muito usado em fábulas.

Uma Noite Qualquer, suspense de Ricardo Santos, é o exemplo mais curioso aqui. O autor parecia saber como funcionava essas estruturas e brincou com isso. É uma história de Ideia essencialmente, “Quem está batendo na porta? ” Só que na hora de responder a essa questão ela para, causando uma sensação de estranheza muito grande no leitor, e o autor se utilizou desse sentimento. Foi um uso diferente dessa estrutura.

E eu reparei que não tem histórias de Evento por aqui, cara 😦 , eu imagino que Evento seja a mais complicada de se usar em um conto curto.


Esses contos exemplos nem sempre são muito claros (Principalmente o Confissões de um rei, que tenta construir um início para uma história maior), mas ainda assim dá para ter uma noção do que realmente é a estrutura e de como pode ajudar você como escritor a entender sua história.

Essa estrutura não funciona só histórias inteiras, mas também para um cena especifica. Pense no propósito da cena, o que você quer passar com ela?

Basicamente é: Entenda as promessas que você está fazendo para o seu leitor, não só com o livro inteiro, mas com cada cena separada. Termine o que você começou!

Tudo isso que eu escrevi foi só uma pequena palinha do texto original do Orson Scott Card (Autor de Ender’s Game, O Jogo do Exterminador). Ele fala mais disso nos ótimos  Character and Viewpoint e no How to Write Science Fiction, excelentes livros que, se você entende inglês, vale muito a pena adquirir. Ele também detalha melhor em um artigo para o site Writer’s Digest The 4 Story Structures that Dominate Novels, também muito bom!

E eu fiquei sabendo disso tudo ouvindo o podcast Writing Excuses 6.10: Scott Card’s M.I.C.E. Quotient

Talvez essas regras sejam muito uteis para você escrever para a coletânea de Contos da Taverna! Pense nisso… 😉

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