Cuidado com essa estatueta, não toque nela! Ah, é você… sabia que voltaria. Desculpe falar assim, mas essa estatueta é perigosa. Faz parte de um história que lhe contarei em breve, mas não agora.  De qualquer forma, vamos ao que interessa; sei que veio para saber se os Dragões colocaram fogo nos bondinhos do Pão de Açúcar. Aqui está o restante da história. Vamos, sente-se e fique à vontade.

Foi desesperador ver aquele dragão negro escapar e sobrevoar a cidade. A maioria das pessoas já dormia, mas quem estava na rua fez questão gritar com tamanha histeria que, só os que assistiam Netflix não correram até a janela para ver o que acontecia. Em um efeito dominó, a criatura deixava um rastro de luzes de apartamentos acesas por onde a passava; fotos e vídeos logo começaram a viralizar por toda a internet.

– É um dragão! É um dragão! É um dragão! – gritavam as pessoas que costumam postar no Facebook que está um calor infernal quando está um calor infernal.

De moto, com o Taverneiro na garupa, passei a seguir a criatura enquanto pensava em como resolver a situação. Quando me dei conta, já estávamos na Lagoa Rodrigo de Freitas; o bicho começou a voar em círculos e, sem que ninguém esperasse, mergulhou.  Nunca havia parado para pensar na profundidade da Lagoa mas, naquele momento, descobri que era muito mais rasa do que imaginava.

Nenhum dos espectadores entendeu de imediato o que aconteceu; a força com a qual o dragão se chocou contra o fundo gerou uma onda, que invadiu a pista dos carros e deu um banho nos curiosos de plantão.  O impacto remexeu detritos acumulados no fundo, fazendo com que fedor podre da poluição impregnasse todo o ar. Apesar de termos conseguido escapar ilesos do banho de água suja, foi impossível ignorar o mal cheiro.

Em questão de minutos, a cena inusitada começou a reunir cinegrafistas amadores com seus celulares em punho. O grande dragão negro permanecia deitado, tal qual uma criança em uma piscina que, por ser de tamanho incompatível, não permitira mais que algumas braçadas. Como não se movimentava, nem abria os olhos flamejantes, dúvidas começaram a surgir.

-Ele morreu? – gritou um curioso da janela.

O jato de fumaça cinzenta exalado pelas duas crateras por onde a criatura respirava foi expelido esclareceu qualquer dúvida.

– E agora? Como a gente vai tirar ele daí? – perguntou o Taverneiro.

Pensei logo na baixinha de família problemática, afinal o irmão havia criado todo o problema, mas as chances dela trazer mais dragões descontrolados para nosso mundo eram grandes demais. Foram alguns minutos pensando até que a solução caísse dos céus.

Um líquido viscoso atingiu meu ombro e escorreu pela manga da blusa até sujar o braço direito; ainda processando o que havia acabado de ocorrer, olhei para cima e me deparei com os dois olhos arregalados que assistiam com expressão jocosa minha reação.

Enquanto entoava um vasto repertório de xingamentos, passei a esfregar o braço na árvore; era trágico pensar que, com tanto lugar para defecar, aquela coruja havia escolhido meu braço. O Taverneiro ainda se recuperava da crise de risos quando me dei conta de que nunca havia visto uma coruja no Rio de Janeiro.

Reparando melhor em minha defecante, pude perceber que trazia consigo papéis enrolados em formato de canudos. Papéis que soltou assim que ameacei escalar a árvore em sua direção.

– O que é isso? – perguntou o Taverneiro.

– São duas cartas da Ana Merege – respondi após uma breve leitura.

– Ela mandou cartas? Deve estar sem internet…

– Depois te explico melhor. Preciso das chaves da Taverna, me empresta? Fica aqui de olho nele, não vou demorar.

***

Não deu trabalho encontrar o que estava procurando; apesar da quantidade de livros guardados no porão da Taverna ser gigantesca, seu acervo consiste em milhões de exemplares que surgem nas prateleiras infinitas e se organizam de forma automática de acordo com o desejo de leituras dos visitantes. A imensidão do lugar e seus corredores repletos de exemplares raros faria a alegria até dos bibliotecários mais exigentes.

 As duas cartas tinham instruções bem claras, mas somente a primeira era endereçada a mim. Minha tarefa seria entregar a segunda ao outro destinatário. O exemplar de “O Último Dragão de Athelgard” encontrava-se logo na primeira prateleira, junto à outras obras da autora. Se tratava de um conto curto, mas tinha exatamente a solução que precisávamos para o problema. Com a história em mãos, retornei ao salão principal e deixei o exemplar aberto repousar sobre a mesa. O homem desajeitado foi cuspido dele de maneira brusca e bateu com as nádegas na superfície de madeira.

Assustado e procurando entender onde estava, ele exalou fumaça cinza pelas narinas ao me avistar com seus olhos verdes. Interrompi a tensão do momento ao notar que escamas rubras ameaçavam brotar de sua pele.

– Grim? Leia essa carta, por favor.

Me aproximei com cuidado e deixei a segunda carta ao alcance dele, exatamente como Ana havia instruído na carta dirigida a mim. Grim lia com atenção enquanto bagunçava ainda mais os fios de cabelos ruivos que já eram rebeldes por natureza. Havia algo familiar naquele cara ruivo e de barba rala, poderia apostar que já o havia visto antes. Ao terminar, coçou o queixo e decretou:

– Me leve até o dragão.

***

Sua falta de intimidade com a moto era evidente. Grim se negou a colocar o capacete e demorou para entender a razão pela qual deveria subir no que chamou de “equino metálico”. Sem muito tempo para explicar, tive que dar uma breve acelerada para que ele adquirisse a confiança necessária.

Não tinha como imaginar o que aconteceria quando chegássemos. Bastou que eu parasse a moto para que algumas adolescentes, que integravam as centenas de curiosos que haviam saído de seus lares para ver o dragão negro, voltassem seus olhares para nós.

– Ed? – murmurou uma ao cutucar outra.

O grito histérico que veio a seguir fez com que, naquele momento, todas as atenções fossem direcionadas a nós. Boa parte das pessoas ficou sem entender o que acontecia, mas todas as adolescentes correram em nossa direção enquanto soltavam gritos que rasgavam suas gargantas. Palavras não bastam para descrever o terror vivido nos instantes posteriores. Fomos cercados por dezenas delas, que começaram a agarrar Grim com unhas e dentes. Fui expelido daquele círculo de tietes sedentas sem ter condições de salvar o ruivo do que mais parecia ser uma horda zumbis que o atacava.

De mãos atadas, apenas podia assistir o coitado sumir em meio aos apertões e unhas cravadas em sua pele pálida. A voz do Taverneiro surgiu como uma alívio para meus ouvidos atacados pelos berros estridentes:

– O que está acontecendo? Quem é o cara?

– É O ED SHEERAN!!! – gritou uma das desesperadas.

Naquele momento tudo fez sentido, Grim era mesmo a cara do cantor.

– A gente precisa dar um jeito de tirar ele daqui agor… – Não tive tempo de concluir a frase.

O gigantesco dragão ganhou massa com rapidez tamanha que arremessou as vítimas da puberdade para longe. Como uma fênix que renasce das cinzas, Grim transformou-se em um imponente dragão de escamas vermelhas que, com apenas um impulso, escapou da multidão que o cercava e alçou vôo.

Flashes de celulares dispararam como relâmpagos em um noite tempestuosa. Grim capturou o, ainda desacordado, dragão negro com suas garras colossais e partiu em retirada. Voava em direção ao Cristo Redentor com dificuldades devido a sobrecarga que levava consigo. Ainda assim, tudo seguia o roteiro que Ana havia escrito em sua carta, Grim deveria saber exatamente para onde levá-lo.

O alívio que sentia por tudo estar  resolvido se esvaiu quando os flamejantes olhos vermelhos voltaram a brilhar. Não houve tempo para que Grim percebesse que o dragão tinha despertado. Dentes afiados atravessaram as escamas do rubro dragão popstar e garantiram a liberdade de seu companheiro de espécie. A batalha aérea incendiou os céus com labaredas ineficazes em uma batalha entre dragões. Claramente mais experiente, Grim investiu contra o dragão negro e ambos começaram a despencar enquanto travavam uma batalha corpo a corpo em queda livre.

Gritos de incredulidade precederam a tragédia iminente; o impacto destruiu parte do morro do Corcovado  e fez com que a estátua do Cristo redentor parecesse uma frágil escultura de areia ao se esfarelar perante todos. A platéia, antes empolgada pelo show, passou a lamentar o estrago feito.

Bastou que os dois sumissem de nossas vistas para que eu pegasse o telefone e tentasse contato com a Ana. Um, dois, três toques e nada. Olhava para o cenário de destruição com o telefone colado ao ouvido e entendi a razão pela qual Ana não atendia. Um equino alado cruzou os céus refazendo o trajeto dos dragões. Mesmo de longe, consegui reparar nos cabelos cheios e óculos de lentes redondas da pessoa que montava a criatura.

– Olha, cara, é a Ana! – gritei ao perceber que o Taverneiro se aproximava. Não pude deixar de reparar que ele usava óculos idênticos aos dela.

– Eu sei, pega esse aqui para você – disse ele ao me entregar outra réplica daqueles óculos.

Mesmo desconfiado, aceitei. Ao vesti-los tudo fez sentido; através das lentes fui transportado para o exato ponto onde Ana estava e  era possível ver tudo o que ela via. Com visão panorâmica da batalha entre os dragões, embarquei em uma perseguição que oferecia grande risco aos que assistiam do chão, os dois trocavam arranhões e dentadas enquanto se encaminhavam em direção ao Bondinho.

Grim se aproveitou de uma pequena distração por parte do dragão negro e ganhou altura suficiente para sair de seu campo de visão. Ambos passaram a voar mais rapidamente e, Grim esperou pelo momento em que o dragão passava próximo aos cabos do bondinho, para colocar um fim em tudo. O bater das asas gigantescas lançou-o de encontro ao seu adversário. Com as patas traseiras ele capturou o dragão negro, enquanto as dianteiras arrancaram os cabos do bondinho.

Parte da estrutura se partiu quando os cabos foram removidos. Pouco se importando com o dano causado, Grim utilizou o material para prender o dragão negro a si próprio e, entrelaçados, os dois passaram a expelir chamas de forma aleatória. Ana precisou abrir distância para escapar do calor emanado não ser atingida; os dragões prosseguiram voando em uma espiral incandescente, que só apagou ao se chocar com as águas turvas do mar.

Engolidos pela imensidão do oceano que banha a costa carioca, Grim e o dragão negro não mais foram vistos. Perdemos a capacidade de ter a visão que Ana tinha através dos óculos logo em seguida.

Dias depois, visitei a Biblioteca Nacional, local onde ela trabalha, para conversar sobre o ocorrido. Achei que saberia mais sobre o que aconteceu com os dragões e onde estariam; ao perguntar, me foi feita a promessa de que um dia a história seria colocada no papel. Até lá, resta-nos apenas imaginar onde Grim e seu companheiro hão de estar.


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Mais séries de Diogo Ramos:

O Mago e o Guerreiro


Gostaria de deixar meu agradecimento especial para a autora Ana Lúcia Merege e seus dragões, que inspiraram a criação da história de hoje. Para adquirir o conto mencionado, acesse:

O último dragão de Athelgard

Para mais informações sobre a autora e suas obras:

Estante Mágica

Castelo das Águias