LITERATURA FANTÁSTICA, MERCADO NACIONAL & CARREIRA CRIATIVA

UMA ENTREVISTA COM ENÉIAS TAVARES

 

“Guanabara Real” acabou de ser lançado e o Steampunk ganha cada vez mais força no cenário nacional. Que portas, no início fechadas, hoje se encontram abertas para você?

Muitas. O principal desafio de um escritor iniciante é encontrar uma editora disposta a investir tempo, dinheiro e energia na obra de um autor desconhecido. Esse esforço apenas não é frustrado quando a obra tem um grande diferencial. Eu suspeito que era isso que a Editora LeYa buscava em 2014, com o concurso “A Fantasy! quer o seu Mundo”: Uma obra ou um universo fantástico que se destacasse, ainda que seu autor não fosse conhecido. Com Lição de Anatomia, o primeiro volume de Brasiliana Steampunk publicado, e o livro ganhando visibilidade devido à editora, aos blogs literários e às minhas atividades para divulgar o livro, surgiu o convite da editora Avec para, ao lado de A. Z. Cordenonsi e Nikelen Witter, assinarmos esse romance no mínimo inusitado e ao mesmo tempo experimental, um romance escrito a seis mãos, com três heróis e três gêneros: policial, horror e ficção científica. Obviamente algumas portas continuam fechadas, mas esse percurso é natural em qualquer carreira. Eu tiro da minha mente a ideia do sucesso instantâneo. É uma construção diária, com novidades regulares, lançamentos constantes e ações sempre contínuas.

Como você apresentaria o Steampunk para os leitores que estão perdidos e ainda não sabem do que se trata?

Há várias fórmulas que podemos utilizar para definir o retrofuturismo. O Steampunk é “O futuro do passado”, “Uma releitura hipotética de como o passado poderia ter sido”, “Se o Cyberpunk é FC no futuro, o Steampunk é FC no passado”, ou ainda “É imaginar o que teria acontecido se a tecnologia tivesse evoluído de uma forma mais intensa do que evoluiu em nossa linha temporal”, entre outras respostas possíveis. Nas obras que eu escrevo, o steampunk é cenário e ambientação, ele nunca vem antes da trama, da boa história, do personagem complexo e atraente. Para mim, é isso que importa. Confesso que não sou um grande apreciador da Ficção Científica mais pesada, que adora jogar sobre o leitor um grande detalhamento de história, geografia e tecnologia. Como leitor, eu tendo a pular esses blocos explicativos. Então, como escritor, almejo inserir uma certa leveza à minha ficção, fazendo o máximo para apresentar esses elementos de forma orgânica e natural.

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Fale um pouco sobre os projetos em desenvolvimento e como eles conversam com suas produções anteriores.

Eu adoro experimentar com diferentes mídias. O cardgame Cartas a Vapor, desenvolvido pela Potato Cat, por exemplo, traz várias missões inspiradas nos livros e nos contos de Brasiliana Steampunk, mas outras inéditas, que em algum momento vão virar histórias. O audiodrama Passeio Turístico por Porto Alegre dos Amantes é inédito ao passo que Bento Alves & O Assalto ao Templo Positivista é baseado num conto. E ainda mais, é um conto cujo final serve de prelúdio ao segundo volume da série, O Parthenon Místyco, com lançamento previsto para 2018. Para o audiolivro de Lição de Anatomia, produzido pela Tocalivros, preparamos dois capítulos inéditos, sendo um deles as misteriosas páginas censuradas do processo de Louison. Além disso, há uma Graphic Novel em produção, em parceria com Evandro Bertol, que irá nos contar o que os heróis de Brasiliana Steampunk fazem no carnaval sulista e como os robóticos daquele universo se sentem como “mão de obra barata”. Minha ideia de carreira, Diogo, é sempre estar envolvido em projetos desafiadores e interessantes. Alguns dão mais visibilidade que outros ou atingem um maior público, mas a diversão mesmo está no processo, no caminho, no desenvolvimento, não exatamente no produto finalizado, por mais fantástico que ele seja.

 

Que novidades podemos esperar ainda para esse ano?

O ano de 2016 foi bem intenso. Então, para 2017, prevejo mais um ano de divulgação do que já fizemos do que produções inéditas. Além de Guanabara Real, do cardgame e do audiolivro de Lição de Anatomia, acabamos de lançar o audiodrama protagonizado por Bento Alves, todos produtos que complementam a dimensão transmídia da série. Tão logo tenhamos a data de lançamento do segundo livro de Brasiliana Steampunk, iremos começar a divulgar o livro. Além disso, eu tenho minha carreira acadêmica como professor e pesquisador e ela nunca para. Uma das grandes novidades deste ano é minha coluna mensal no portal CosmoNerd, coluna que leva o nome do nosso projeto de extensão na UFSM: Bestiário Criativo. Nela, discuto escrita de ficção desde o desenvolvimento das primeiras ideias até a publicação de um livro. A coluna conta com mais de trinta escritores que foram entrevistados por mim e nossa ideia é transformá-la em um livro no próximo ano, talvez o primeiro livro de escrita criativa fantástica publicado em nosso país. Por fim, ao lado de Bruno Anselmi Matangrano, sou o curador de uma exposição intitulada Fantástico Brasileiro: O Insólito Literário do Romantismo à Contemporaneidade. Ela tem origem no nosso trabalho de pesquisa sobre a história da literatura brasileira fantástica. Com mais de 90 autores e mais de 200 obras, vamos de Álvares de Azevedo e Machado de Assis até nomes atuais como Eduardo Spohr e Bárbara Moraes, entre outros, em mais de 25 painéis ilustrados, cuja arte foi assinada por Jessica Lang. Então, novidades é o que não vão faltar aos leitores de Brasiliana Steampunk ou aos interessados em escrita criativa e indústria cultural.

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Um dos objetivos de Brasiliana Steampunk Educacional é reinventar o modo que pensamos e ensinamos a  literatura brasileira nas escolas. No geral, como está sendo a recepção no ambiente escolar?

Novamente, não se trata de um trabalho de lançamento e recepção grandiosa e sim de uma tarefa feita mês após mês, contatando professores após professores. Hoje, quase um ano depois do lançamento do Suplemento Escolar, já temos alguns professores adotando a série nas aulas de Ensino Médio e alunos que leem o livro e então divulgam entre os colegas e professores. Na UFSM, estou orientando a tese de doutorado de Anderson Amaral de Oliveira, que tem objetivo analisar o ensino de literatura no Brasil e utilizar Brasiliana Steampunk como corpus de estudo. Para tanto, estamos contatando professores de diferentes estados que estão usando o suplemento, a série, o cardgame e os audiodramas como suporte para o ensino. Acho que muita coisa surgirá desse trabalho. Vamos conversar daqui a um ano sobre o mesmo tópico?

Conte-nos mais sobre sua trajetória como professor e mencione de que maneira ela influencia sua escrita.

A carreira de professor influencia mais, ao menos no meu caso, a dimensão pública da carreira de escritor. Muitas vezes, as pessoas comentam em eventos, depois de palestras, ou depois de assistirem a alguma vídeo que fiz, sobre minha desinibição – para não dizer exibicionismo. Minha resposta é sempre: “É que eu sou professor e depois de enfrentar semestre após semestre mais de 200 alunos, fica difícil ser tímido, não?” Agora, sobre minha escrita, sem sombra de dúvida, eu devo muito à minha carreira como especialista em literatura, tradutor e pesquisador. Essa dimensão da vida acadêmica – que é distante da sala de aula e muito solitária e centrada em muitos livros, muitas releituras e muitas reescritas e análises pacientes – é ela que te dá a paciência necessária para escrever e reescrever e reescrever… uma obra de ficção até obter o melhor resultado. Eu tenho insistido nisso ultimamente, no quanto muitas das nossas obras fantásticas são escritas às pressas, sem o mínimo cuidado com a forma, com o estilo, com a estrutura, resultando em um texto que é bem ruim de ler, que não engaja o leitor, que não o desafia, que não o encanta. Então, posso dizer que todas as experimentações estilísticas de Brasiliana Steampunk e a preocupação com a estrutura e com o modo narrativo em Guanabara Real resultam diretamente do meu trabalho acadêmico.

 

Quais seriam seus conselhos para muitos que, assim como você, precisam conciliar uma carreira em outra profissão com a de escritor?

Tudo na vida vem com um preço. O da dupla carreira – que é um problema sério em nosso país, especialmente com aqueles que trabalham com arte – é um deles. Você vais dormir menos, vai ver menos filmes, ler menos livros, visitar menos lugares, namorar menos… mas vai se divertir mais! Eu adoro sair do trabalho 17h, 18h, e saber que terei mais duas ou três horas escrevendo, especialmente com estou finalizando algum projeto com prazo específico. Um desafio é o tempo que hoje somos obrigados a passar no computador e nas redes sociais especialmente para divulgar o trabalho. Mas isso também faz parte da carreira de escritor em 2017. Minha sugestão é: levante mais cedo ou durma mais tarde e tente diferentes modalidades de organização pessoal até você encontrar o que melhor funcione para você. No meu caso, trata-se de levantar bem cedo e trabalhar muito de manhã, um pouco menos à tarde e à noite só quando for necessário. Para mim, depois das 20h, só quero beber uma taça de vinho, preparar o jantar, sair com a namorada ou receber alguns amigos para conversa, risadas e um bom filme. E claro… passar tempo com minhas duas gatas, Mona e Penélope.

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Com o mercado editorial em crise e a pouca valorização do autor nacional por parte das grandes livrarias, quais seriam as alternativas para que autores iniciantes encontrem um lugar ao sol?

Essa é uma pergunta igualmente difícil e importante. Não há fórmulas nem segredos para se atingir o grande público, conquistar as livrarias ou mesmo os grandes canais de divulgação. Cada percurso é individual e o que deu certo para o autor X não dará para a autora Y. Eu acredito que o desafio é encontrar sua própria identidade, seu próprio diferencial, tanto na ficção que você produz como também na figura pública que você divulga. Além disso, nunca abrir mão qualidade da obra. De nada adianta pagar assessoria de imprensa ou impulsionar anúncios no Facebook ou em outras redes sociais se o produto final decepcionar o leitor. Então, preze por tudo o que você faz, mas nunca lance no mercado uma obra não finalizada, não revisada, algo que não esteja à altura das suas grandes influências. Quanto à crise, ela torna sim as coisas mais difíceis, mas não impossíveis. Então eu acredito que os melhores autores e obras irão sobreviver a ela, como sempre acontece. Quanto às livrarias, é mostrar a elas que podem ganhar dinheiro e vender livros com autores nacionais. E isso só é possível com bons títulos, com bons eventos e com boas ações de marketing. Na book tour de Guanabara Real, por exemplo, tentamos unir esses três elementos e acredito que resultado foi bem positivo. Tanto na Livraria Cultura do Rio de Janeiro, quando na Martins Fontes de São Paulo como também na Livraria Curitiba de Curibiba e na Catarinense de Florianópolis, tivemos feedbacks bem positivos das gerências e dos atendentes. Além do lançamento, promovemos junto com o Grupo Epic uma série de workshops gratuitos dedicados à Criação de Mundos Fantásticos, o que trouxe a esses eventos um público maior do que apenas aquele que estaria presente para um lançamento de livro. Ou seja: é tentar fazer diferente sempre, surpreendendo o público e as livrarias. Eu torço para que eu esteja no caminho certo para encontrar o meu lugar ao sol e auxiliar, mesmo que indiretamente, outros autores a também conseguirem o seu.

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Deixe uma mensagem para nós, autores e leitores da Taverna.

Eu adoro o trabalho de vocês e acho que não haveria a cena literária fantástica que temos hoje sem blogs e grupos como o Taverna. Parabéns, Diogo e toda a equipe, por todas as iniciativas de vocês para fomentar a leitura, para formar públicos leitores e para valorizar a literatura e especialmente a literatura nacional. Eu adorei essa entrevista. É sempre bom quando temos tópicos tão bem elaborados para discutirmos. Espero ser convidado mais vezes. Quanto aos leitores, me encontrem no Facebook, no Instagram e no Twitter. Vou adorar conversar com vocês. Para finalizar, deixo aqui uma frase que volta e meio escrevo nos exemplares de Lição de Anatomia que autografo: “Boa leitura & boa aventura!”. Um abraço, meus caros!