Com a estreia do seriado Deuses Americanos eu vi a desculpa oportunidade perfeita para fazer uma coisa diferente aqui no blog: fazer alguns posts de livros do Neil Gaiman e principalmente resenhas de livros nacionais que trabalham com a mitologia brasileira!

   Para abrir esse mês sobre mitologia aqui na Taverna eu não poderia ter escolhido outro livro se não o que me influenciou a trabalhar esse tema: Deuses Americanos! Vou comentar um pouco sobre o livro e também o primeiro episódio da série, incluindo uma pequena parte lá no final com uns comentários com spoilers, espero que gostem… ^^


   A história começa com Shadow, um prisioneiro que está no fim de sua pena e a menos de uma semana de ver a luz do dia novamente, com um amigo já lhe prometendo um emprego em uma academia e finalmente tendo a possibilidade de rever a sua amada Laura. A sua redenção está chegando. Ele está limpo dos seus erros, pagou os seus pecados, e agora vai poder ter uma vida feliz. Só que a vida ainda vai ter algumas surpresas para ele.

   Começou com uma boa notícia: ele ia ser libertado dias mais cedo. Para quem está atrás das grades cada segundo conta, e cada dia mais cedo que ele possa se ver livre é uma benção. Mas a felicidade da liberdade custou caro demais. Sua esposa havia morrido em um acidente de carro e estavam o libertando para o funeral.

   Ela era o motivo pelo qual Shadow ansiava pela liberdade. Não foi o desespero que veio até Shadow, mas um vazio repentino, como se o mundo se tornasse um grande vácuo. Ainda tinha um amigo e um emprego esperando por ele, poderia recomeçar, mas havia mais um obstáculo no seu caminho para uma vida pacífica. Um estranho homem lhe oferece um serviço:

— Você não vai me perguntar que tipo de serviço? — Disse.

— Como é que você sabe quem eu sou? — O homem deu uma risadinha.

— Ah, é a coisa mais fácil do mundo saber como as pessoas se chamam.

Um pouco de raciocínio, um pouco de sorte, um pouco de memória.

Pergunte que tipo de serviço.

— Não — disse Shadow.

A comissária trouxe outro copo de cerveja, e ele tomou um gole.

— Por que não?

— Estou indo pra casa. Tenho um emprego esperando por mim. Eu não quero outro serviço.

O sorriso marcado do homem não se alterou aparentemente, mas agora ele parecia surpreso, de verdade.

— Você não tem nenhum emprego esperando por você em casa – ele disse.

—Você não tem nada esperando por você lá. Ao mesmo tempo, estou oferecendo um serviço perfeitamente legal; um bom dinheiro, estabilidade razoável, benefícios notáveis. Diabos, se você viver tanto assim, posso até incluir um plano de previdência privada. Você acha que gostaria de ter um desses?

   Depois de saber que o seu amigo também havia morrido, Shadow não tinha opção. Resolveu aceitar o serviço desse estranho homem que se chama Wednesday e servir de guarda costas em uma viagem pelos Estados Unidos a procura de aliados para uma guerra sem precedentes. Logo Shadow percebe que não está lidando com pessoas comuns. Ele estava indo ao encontro de lendas vivas, antigos ícones do passado…

   Ele estava lidando com Deuses.

    Deuses Americanos é um livro de fantasia urbana que começa com a premissa de que os deuses são reais, ou pelo menos em parte. Todas as coisas que são adoradas, sejam elas deuses antigos, como Thor e Odin, criaturas de lendas, como o leprechaum e o gênio da lâmpada, ou apenas conceitos mais abstratos que nós “veneramos” de diferentes formas, como a Pascoa e a Internet, ganham personificação, e o poder dessa entidade depende do quanto as pessoas a veneram.

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    A América é cheia de culturas de todas as partes do mundo. Imigrantes trazem com eles suas lendas, suas crenças e seus deuses. Mas na América atual a adoração de deuses antigos foi esquecida. As antigas mitologias só vivem nas histórias, por isso os deuses estão fracos e a beira do esquecimento. Wednesday está organizando os deuses da antiguidade para travar uma guerra contra os novos deuses: o dinheiro, a tecnologia…

     “Deuses morrem. E, quando morrem para sempre, não há luto nem memória. É mais fácil matar uma ideia do que uma pessoa, mas, no fim das contas, ideias também podem morrer”

   Os personagens recorrentes do livro são mesmo Shadow e Wednesday, e os dois são muito bons.

   Shadow é um cara amargurado, que cometeu alguns erros no passado e agora não tem mais para onde voltar. Ele não queria confusão, e na companhia de Wednesday acabou descobrindo um caminho totalmente novo para a sua vida.

   Wednesday é um velho sedutor e manipulador com pinta de gangster. Ele literalmente conduz o Shadow nesse caminho e vai convencendo cada divindade que encontra a lutar nessa guerra contra o mundo moderno.

   Além deles, o livro está recheado de figuras incríveis! Mesmo aqueles que têm poucas cenas acabam com uma construção tão boa que se tornam memoráveis, como o senhor Nanci e sua cena incrível do carrossel, onde Shadow consegue ver todos os aspectos da divindade Anansi ao mesmo tempo mostrando o quanto a cultura e as lendas são mutáveis.

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   O livro tem algumas falhas leves. A continuidade da história não foi bem armada. O autor, em uma tentativa de englobar o mundo das lendas de uma maneira mais abrangente, trás pequenos cacos de outros personagens não envolvidos com a trama de Shadow e isso quebra o ritmo da história. Sem falar sobre a sub trama da pequena cidadezinha de interior que poderia facilmente estar em outro livro só dela e sair desse. Detalhe que eu não estou falando que essas coisas são ruins, muito pelo contrário, eu pessoalmente adorei essas narrações e achei a sub trama muito legal, elas só estão meio deslocadas aqui, entende?

   Neil Gaiman faz o seu melhor nesse livro. Assim como em Sandman, ele usa a personificação de conceitos para contar uma história com várias camadas. Deuses conversando têm tanto peso quanto uma conversa entre o Desejo e o Desespero. Pensando bem, ele faz seu segundo melhor…

   Eu creio que a coisa que Neil Gaiman faz melhor mesmo é o aspecto de contador de história que mostra na sua narração, quando usa praticamente a própria voz como narrador. Ele faz com que o leitor se sinta uma criança sentada ao redor de uma fogueira escutando lendas do passado de uma forma divertida e emocionante. Esse aspecto da narração foi suavemente negligenciado nesse livro em prol de uma narrativa mais descritiva, o que eu achei uma pena. As melhores cenas são quando o Neil “Contador de História” vem à tona.


E falando um pouco da série…

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   O primeiro episódio da série chegou mostrando a que veio.

   Ele manteve boa parte dos diálogos praticamente copiados do livro, com leves adaptações, o que eu achei ótimo, pois os diálogos do livro são poéticos e impactantes.

   A escolha de cenas também é a mesma do livro. A história principal cortada por flashes de outros assuntos. Para quem não conhece o livro, a cena da Bilquis ficou parecendo muuuito o “problema da semana” que algumas séries têm, e isso vai deixar muita gente se perguntando “Mas porque essa cena foi mostrada? ”, o que para falar a verdade é uma sensação que alguns tem ao ler o livro também.

   E não é só isso que as pessoas menos acostumadas com ficção fantástica vão estranhar. A série está cheia de cenas psicodélicas. Os sonhos de Shadow, a cena da Bilquis, e (principalmente!) o encontro com o Technical Boy vai ser um teste, ou melhor dizendo, um rito de passagem para muitos que continuarem seguindo por esse caminho e assistindo a série.

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   A produção de maneira geral está de parabéns. Cenas de cair o queixo de tão lindas (como os sonhos e o enforcamento de Shadow). A coisa toda é a nível de cinema, o que é complementado pelo ótimo elenco de atores.

   Não dá para dizer muita ainda só com esse primeiro episódio, mas eu gostei pra caramba! Se continuar dessa forma eu acho que podemos ter uma das melhores séries já feitas (para os fãs de Neil Gaiman XD) ou uma série cheia de coisas estranhas e psicodélicas (Para pessoas que não estão acostumadas a isso XD). Só o futuro dirá.

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Believe…

Se você já leu o livro, algumas teorias a mais… (SPOILERS)

   Têm bastante spoilers da história do livro aí embaixo, e se você não leu, na real você não vai entender nada XD . Estejam avisados…

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   Eu tenho alguns comentários muito pontuais sobre a história. Como os seguintes:

Quem diabos é o Shadow?

   Existe uma teoria de que o Shadow é Balder. Nunca levei muita fé nela. Ela existe pelo fato dele ser filho de Odin, por Balder ser o deus da luz e o nome dele ser Shadow como uma referência e tals…, mas ainda assim é meio vago isso.

A única coisa concreta que eu achei no livro a esse respeito foi uma fala do Loki bem lá no final, em um momento em que Shadow está pendurado na árvore e Loki comenta que se ele ainda estiver vivo, enfiará um galho de visco no olho dele. (Na mitologia nórdica Balder só podia ser ferido por visco). Eu vi isso mais como uma piada do Loki do que como qualquer confirmação, mas eu posso estar deixando passar alguma coisa, já faz tempo que eu li esse livro.

   Como eu disse, eu discordo dessa teoria. Eu sempre vi o Shadow como algo novo. Ele é uma mistura da América com as antigas lendas, e acho que é isso o que torna forte. Uma mistura das antigas lendas nórdicas com o novo continente. Um deus nascido em solo americano.

Sobre a Pascoa….

   Em uma conversa com a Pascoa (Easter), Wednesday mostra como foi acontecendo uma transição da adoração das pessoas. Era a comemoração de passagem de estações, aí foi substituída pelo nascimento de cristo e depois pelos coelhos e chocolate. Em um diálogo rápido ele mostrou como as antigas religiões morrem e novas nascem, e isso é um ciclo natural. Acontece com todas as crenças e, por mais que elas lutem, alguma hora vão mudar ou ser substituída. Talvez por algo totalmente diferente, ou talvez por algo que só mudou a roupagem, mais ainda manteve sua essência.

E sobre a série…

(Spoiler violento a frente!) Eles basicamente entregaram todo o esquema de resolução do livro ali naquela primeira cena dos vikings e seu deus da guerra. Eles explicaram didaticamente vários propósitos do porque o final do livro vai ser daquela forma. Vai ser tão legal para alguém que não leu o livro chegar ao final da série e perceber que a primeira cena explicava tudo. XD


E eu acho que isso é tudo pessoal! Vamos ter mais resenhas de livros mitológicos por aqui, fiquem ligados…

Capa comum: 576 páginas
Editora: Intrínseca; Edição: 1ª (29 de outubro de 2016)

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