Eu precisava chegar a Homper, a vila seca. Em largas passadas fui cruzando o longo Ruívom, e em pouco tempo atravessava o Vale Almíscar, das velhas grutas gotejantes, dos emplumados grous em saltimbancos e dos cogumelos rubros, que contrastavam o cinzento da paisagem. A medida que adentrava as longínquas terras ocidentais fui estremecendo ao perceber que estava cada vez mais perto do velho Katalon, das elevações setentrionais. Na descida surgindo ao longe, avistei o imponente Turvo, de picos nevados e pedras deslizantes.  Contemplei o promontório norte com suas curvas enevoadas e do alto pude ver alguma criatura que batia asas e gemia um som impossível. Bartassos prometera-me uma recompensa generosa, eu deveria apenas esperá-lo no Pardal Soturno, alguma escolta de algum rico e gordo comerciante.

   Foi na descida de uma pequena ravina que encontrei uma figura deitada defronte a uma passagem que se perdia na montanha. Era um homem, estirado na aspereza daquela terra pétrea, e parecida morto.

   Ao chegar mais perto percebi que dos seus olhos faiscavam uma substância estranha. Eu não era versado em qualquer tipo de conhecimento mágico, não tão diferente do que sou ainda hoje, embora a rudeza da vida a estrada tenha me feito defrontar com perigos de natureza arcana. Porém naquela tórrida ocasião, eu não fazia ideia do que havia visto. Seu corpo estava rígido, mesmo sem vida, como se algo quente lhe houvesse percorrido o corpo.

   Toda a cena parecia sugerir que o homem havia saído se arrastando da entrada que penetrava a parede rochosa. Algo deveria ter saído errado. Revistei o corpo e encontrei uma adaga, uma bolsa com algumas ervas que não reconheci, uma vela já gasta e uma pequena gema de tom azul-esverdeado, que guardei em meu bolso. Fui tomado por excitação e medo. Deveria encontrar Bartassos em poucas horas, mas cedendo a aventura, e a possibilidade de riqueza, adentrei o negrume da caverna.

   Acendi a vela que apanhei do morto, a luz revelou uma câmara baixa de pouco menos de 10 metros de diâmetro. Na direção de frente a porta, ao fundo, figurava uma reentrância, como se fosse esculpida e preparada como um altar. Em sua base jazia uma solitária ânfora de barro cru. Parecia inofensiva, mas não ousei tocá-la. Estava aberta no alto. Percebi algumas inscrições na base, a luz na vela logo se extinguia, e quando a apoiei no altar para examinar melhor seus símbolos, fui tomado por um arrepio seguido de um sobressalto de terror. Da ânfora saiu um vulto negro amorfo, sem rosto ou expressão. Ele dominou o ambiente como a vibração de um estouro sem ruído. Uma voz falou em meu íntimo:

– Tens algo que me pertence. – Eu sabia que ele falava da gema azul-esverdeada que eu apanhei do morto. – Se não quiseres ter seus olhos faiscados e morrer como aquele tolo, deves devolvê-la a mim.

   Eu estava perdido e tomado pelo assombro. Pus a mão no bolso e tateei a gema como um louco, ela parecia arder.

   Seguiu-se um discurso enlouquecido, havia ao mesmo tempo seriedade e escárnio, troça e maldição, como o Caos, ele caçoava de mim, mas me impunha um caminho sem volta.

   Percebi que não poderia mais fugir daquele encontro. A imagem de uma enguia a debater-se num lago escuro me fez perder os sentidos. A voz tornou a falar:

– Escuta-me amigo. Sim, amigo, posso chamar-te assim? Escuta-me, eu sou a antiga enguia negra que devora pensamentos. Contempla meus domínios.  Meus altares são assim, simplórios e mortais. Como Malagon, o Grande Pilar, dizia, os suntuosos são tolos, e a mão negra e sorrateira é tão poderosa como um vulto. Dá-me a pedra e continuo a chamando-te “amigo”. Deposita em minha ânfora e sai.

   Não reagi por longos segundos. Estremecido de pavor, fui aos poucos colocando as mãos trêmulas no bolso e saquei a gema que incandescia, depositei-a no altar e comecei a sair, andando de costas em direção a saída. Quando já estava próximo a passagem, o vulto novamente me assombrou tornando a falar:

– As ordens do Caos podem ser justas, amiguinho. Já que agora aceitasses minha amizade, escuta-me novamente. E como se tivesse lido meu destino em um livro, alertou-me sobre o encontro com Bartassos: – Teu companheiro conspira contra ti, quer matar-te e roubar tua parte do acordo. Lembras? Agora escuta-me com atenção, mata-o antes que ele te mate. Eu preparava-me para correr em disparada, quando o vulto disse-me novamente uma vez mais: – Amiguinho, deves ter uma certeza clara, a enguia negra agora olha por ti e a mão negra agora guia teu caminho. Hoje tu passar a aceitar as forças do Caos.

   Não havia mais tempo. Pensamentos tomaram conta de mim em velocidade. Precisava deslocar-me a Homper. Bartassos, conspirava contra mim? Pelos deuses do submundo, eu estava louco. Eu passara a servir o Caos? Eu fui arrebatado pela desordem do mundo, nas nadadeiras de uma enguia negra, por ela fui engolido e cuspido.

   Encontrei Bartassos no Pardal Soturno. Em mesa estava ele sentado com Tatiulus, um gordo comerciante de anéis em dedos e roupas emplumadas. Não consegui tirar os olhos de Bartassos. Ele gesticulava com seus tradicionais trejeitos, cuspindo em cada palavra proferida. Segurei minha adaga em muitos momentos por debaixo da mesa. Eu sabia que teria de matá-lo.

   Tatiulus partiu, e Bartassos, após ofendê-lo em escárnio, e cuspindo mais palavras asquerosas, disse que queria encontrar-me para acertos menores em um quarto que ele havia alugado, na pequena passagem sul de Homper, ao largo da estrada azul.

   As palavras do espectro não saiam de minha mente. Não poderia mais negar-lhe. Eu a encontrei, encontrei aquela maldita caverna assombrada. Nossos caminhos se cruzaram nas insanas teias do Caos. Ela havia me escolhido, a antiga enguia negra, que sorria insana.

   Segui as orientações do espectro, reuni os elementos necessário para um possível embate de morte. Preparei-me cuidadosamente. Aprontei uma pequena besta com um único virote mortal e a prendi em um cinturão de hastes metálicas. Cobri-me ainda com uma longa e folgada capa negra, de modo a ocultar a arma. Eu levava ainda um segundo virote e uma pequena adaga de ponta curva.

   Dirigi-me ao ponto que encontraria Bartassos. Da viela o reconheci de longe. Era noite escura e enevoada, e apenas uma tórrida tocha ao fundo trazia um pequeno facho de luz a cena. Bartassos se aproximou e quando estava a uma distância de pouco mais de 8 metros, percebi que por detrás de mim se aproximava uma outra figura. Arregalei os olhos e num átimo de destreza descortinei a capa que me cobria o corpo, com a mão direita saquei a besta preparada e atirei na direção de Bartassos. O virote veio a atingir-lhe em cheio o peito, ele caiu e eu me tornei a retaguarda. Ajoelhei-me e armei a besta para um segundo tiro, Bartassos gemia. Eu estava virado agora de costas a ele, e em minha direção vi correr como um louco, em espada em punho, a segunda figura que conspirava contra mim. Disparei o segundo tiro que atingiu o homem na garganta. Ele caiu morto.

   Eu estava ensandecido, corri na direção de Bartassos que jazia ao chão. Cuspindo sangue ele gritou num resquício de energia:

– Demônio! Como sabias?!­­

   Fitei-o com meus olhos em chamas.

– Assassino – murmurei, e ainda em fúria, acrescentei quase um sussurro: – Um fantasma me avisou.

Bartassos estava morto. Foi dessa forma que passei a servir as coisas do Caos.


Conto escrito pelo Golem de Pedra, que é o Pseudônimo de um dos responsáveis pelo Blog Pergaminhos de Pedra. Vocês podem ver mais do trabalho dele no blog ou no twitter @pergaminhopedra. ^^

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