“Os estudantes foram encontrados mortos no banheiro da escola. Ainda não há mais informações sobre o ocorrido. Pais buscaram seus filhos assim que a notícia começou a circular. As aulas foram suspensas por tempo indeterminado.”

Em algum lugar no Brasil

 

08:35

Marcos não está feliz com a nova escola. Sentado na primeira fileira, ele aguarda o impacto da próxima bolinha de papel.

— Ei, Marcuzinho! – grita um deles.

Ele não responde. Olha para o lado e lá está Fabiano. Grande demais para seus treze anos, bobo demais para evitar ser chamado de Fabiânus. Existe uma mistura de alívio e ansiedade na maneira como olha para Marcos. Até o ano anterior, era ele o alvo eleito pelos mesmos que agora perturbam o garoto novo.

Cerca de quarenta alunos lotam a sala de aula daquela escola pública. Marcos não gosta, costumava estudar em uma sala muito menos povoada. Mas aquele não é o maior problema; o grupo formato por três garotos repetentes faz questão de ocupar esse lugar.

08:40

A chegada da professora decreta o fim do tormento e dá ao novato cinquenta minutos de trégua até o intervalo. Dividido entre realidade e pensamentos, ele sequer é capaz de assimilar o que explica Cláudia. Era para ser uma aula de inglês, mas é toda em português. A turma agitada não coopera e, para Marcos, a professora parece acreditar que xarope os pode calar.

— Shut up! – ela repete diversas vezes. Gritos agudos saem através da boca de dentes amarelados pelos cigarros e cafezinhos que Cláudia consome entre uma aula e outra.

Grande parte do tumulto gerado tem nos repetentes sua origem. Concentrados no fundo da sala, são eles os maestros responsáveis por reger a zona orquestrada. Marcos nem precisa se virar saber qual deles está falando.

Michel é o cabeça daquela santíssima trindade. Três anos mais velho que os outros, conta com tamanho e força que garantem o respeito necessário para o cargo. Ao seu lado sempre está Marcelo, menos agressivo, mas igualmente irritante. Carlos completa o time sem acrescentar muito aos outros dois. Tímido, acaba sendo o pau mandado do trio.

Marcos luta para se manter acordado. A ansiedade gerada pela ideia de ter que ir ao colégio na manhã seguinte não permitiu que dormisse durante a noite. Claudia ainda insiste em parar a aula de dois em dois minutos na esperança de ter atenção. Ela volta ao quadro, a turma volta a ignorar. Tudo se repete em uma sequência tediosa. As vozes ficam mais distantes e Marcos sente as pálpebras pesarem antes da escuridão.

09:30

O sinal logo bate e decreta o fim do terceiro dos doze rounds que a professora ainda precisa encarar. Marcos abre os olhos e é despertado por três tapas recebidos na nuca; iniciava-se mais um recreio de tortura. Ele sente uma pontada no estômago e considera a possibilidade de permanecer em sala.

— Bora, garoto! – manda a inspetora ao socar a porta. – Pode ficar na sala não.

Marcos prolonga cada passo dado pelo caminho que separa a sala do pátio que fica no andar inferior. Desce as escadas valorizando cada degrau e sente a pontada descer para seu ventre; quando consegue ver a quantidade de alunos no pátio, congela.

– Garoto, você é surdo? – A voz da inspetora faz Marcos estremecer e funciona como empurrão necessário para o mergulho em direção ao pátio.

Seu instinto de sobrevivência o leva para o canto, de onde reza para que o tempo passe logo e o recreio tenha fim. Passa a procurar pelos três repetentes e respira aliviado ao perceber que ainda estão na fila para pegar biscoito.

— Você não vai comer? – De tão preocupado, Marcos não havia percebido que Fabiano também se escondia ali.

— Eu não gosto desse biscoito – ele responde. — Como você conseguiu pegar na frente deles?

Fabiano enfia os três que faltavam na boca e responde cuspindo farelos:

– A merendeira me dá o lanche escondido para eles não roubarem.

Marcos não sabe como fazer o diálogo prosseguir. Observa Fabiano de baixo para cima, o garoto é gordo e bem maior; maior até que os alunos mais velhos.

A gritaria gerada por centenas de adolescentes confinados no pátio coberto preenche o silêncio entre os dois. Fixado próximo ao teto, o grande relógio de ponteiro evidencia o lento passar do tempo.

09:40

Marcos procura pelos repetentes lançando olhares ansiosos para a multidão. Ao encontrá-los, nota que caminham em sua direção.

— Eles estão vindo! – disse ele, tentando alertar Fabiano.

Ainda sujo por farelos, o queixo do garoto começa a tremer.

– Vamos sair daqui – sugere Marcos.

Percebendo que Fabiano não se move, ele tira proveito da baixa estatura para se misturar aos outros alunos. A pontada no ventre faz com que uma onda gelada suba por seu corpo. Ele tensiona os glúteos na tentativa de conter a tragédia iminente. Sem alternativas, corre para o banheiro.

Paredes pichadas, espelhos quebrados e piso molhado. Marcos corre para a única cabine que ainda conta com uma porta e a fecha. Cueca e calça deslizam pelas pernas finas e quase tocam o chão encardido. Não há tempo para se preocupar com a higiene local. Senta-se sobre a tábua e sente as pernas tocarem o líquido incolor que banha a superfície.

A explosão marrom suja o vaso com centenas de pequenos respingos.

— Cagão!!! – grita o menino que utiliza a cabine ao lado.

Marcos ignora. A atenção está voltada para o que ainda está por vir. Suas entranhas começam a contrair e gotas de suor brotam da testa. Concentrado, expele o jato que atinge a água e molha suas nádegas. O alívio chega e some em questão de segundos.

— Marcuzinho cagão. Agora é Marcuzão! Marcuzinho cagão, agora é Marcuzão! – eles gritam.

O barulho vindo do pátio encobre a bagunça que ali ocorre. Marcos prende a respiração em uma tentativa inútil de não ter sua presença notada e ouve o garoto da cabine ao lado sair correndo. Murros fazem a porta da sua cabine tremer enquanto ordens para a abertura dela são dadas.

Uma breve procura revela a falta de papel higiênico. Marcos leva as mãos aos ouvidos e reza para que eles desapareçam. O braço gordo surge pela fresta entre a porta e o chão. Graças a seu reflexo, Marcos consegue levantar as pernas antes que sejam alcançadas.

— Pegou ele, Marcelo?

— Quase…

— Pega logo!

— Não dá, Michel. Ele levantou as pernas.

— Deixa o Carlos tentar.

Já de pé sobre o vaso, Marcos levanta a calça e sente o incômodo pastoso entre as nádegas. O braço magricela é mais ágil e surge com um estilete na mão. Movimentos ameaçadores fazem a lâmina se aproximar perigosamente dele.

— Vocês são muito lerdos. Carlos, levanta daí e fica lá na porta do banheiro. Fecha e não deixa ninguém entrar.

  Sem saber o que fazer, Marcos olha para cima em busca de uma saída. Por serem muito altas, as divisórias são descartadas como possível rota de fuga.

— Ei, Marcuzinho… quer ver você sair rápido daí? – disse Michel.

Marcos não responde. Seu coração bate com tanta força que ecoa por dentro da cabeça.

— Você conhece a loira do banheiro?

Sim. Marcos conhece e tem pavor dessas coisas, mas não ousa responder.

— Vamos ver quanto tempo você vai demorar para sair depois que eu chamar ela aqui.

Nesse momento a vontade de borrar mais a louça do vaso se acentua. Michel e Marcelo cochicham algo que Marcos não consegue compreender.

— São três descargas e três chutes na sua porta. Ela vai aparecer aí dentro, do seu lado! – anuncia Michel.

A primeira descarga é disparada e ele grita:

— LOIRA DO BANHEIRO!

Os joelhos de Marcos começam tremer.

Segunda descarga e mais um grito:

— LOIRA DO BANHEIRO!

Terceira:

— LOIRA DO BANHEIRO!

Lágrimas correm pelo rosto de Marcos e o catarro entope suas narinas.

— Só mais três chutes e você vai sair correndo. Ou quer que ela te mate? Vai querer morrer aqui no banheiro? Assim que ela aparecer a gente vai embora daqui e você vai ficar sozinho. Última chance, Marcuzão. Vai sair ou não vai?

Marcos solta um grito desesperado por socorro. Cinco segundos de silêncio são interrompidos por três chutes que quase derrubam a porta.

— LOIRA DO BANHEIRO!!! – berra a voz raivosa de Michel.

A massa marrom escorre pelas pernas trêmulas e Marcos pressiona os olhos para não ver o que está por vir. Não se ouve mais o som vindo do pátio. O silêncio é quebrado pelas súplicas histéricas dos dois repetentes. Marcos escorrega e vai ao chão, o impacto com o piso gelado faz sua cabeça estremecer. Com o rosto molhado e dolorido, observa a base do vestido branco cruzar o banheiro e o barulho dos pés descalços tocando as poças d’água lhe causa arrepios.

— SOCORRO!!! – Marcelo grita antes de se calar para sempre.

O som do corpo roliço do garoto indo ao chão faz seu companheiro perder a compostura. De dentro da cabine, Marcos sofre com a possibilidade de sua vez chegar.

Michel esmurra a porta que dá para o pátio como um rato apavorado que foge do predador. Ele solta um grito agudo e afeminado que provoca uma leve sensação de prazer em Marcos. Ainda de cara no chão, sentindo a mistura de urina e água molhar seu rosto; ele ouve o repetente implorar por misericórdia enquanto a loira prolonga seu sofrimento. Momentos depois, teve a certeza de que ela havia terminado. A Poça de sangue lava alguns azulejos e escorre até o ralo mais próximo. Tendo seus ouvidos invadidos pelo barulho do pátio, Marcos pensa em gritar. No mesmo instante, assiste a barra do vestido branco, agora encharcada de sangue, voltar de onde veio. Ele apaga.

09:30

O sinal toca e Marcos pula da cadeira, olha para o lado e Fabiano está sorrindo. Confuso, vira-se para trás em busca de respostas. Duas cadeiras vazias confirmam as ausências de Michel e Marcelo. Carlos contempla o chão com olhar perdido e expressão abobalhada. Na porta surge a inspetora:

— Professora Claudia, o recreio está suspenso. A ordem é para ninguém descer.

Quase todos os alunos demonstram frustração com a notícia.

— O que aconteceu? – ela pergunta ao se aproximar da porta.

Seus olhos, marcados por olheiras profundas, se arregalam ao saber do ocorrido. Marcos olha para Fabiano e o garoto limpa o farelo de biscoito acumulado em seu queixo. Em seus pensamentos, ele tenta entender o que está acontecendo. Não poderia ter sido só um sonho.

Marcos fica de pé e tudo gira. O cheiro familiar penetra pelas narinas desavisadas e toma conta da sala. Fabiano aponta e grita:

— Marcuzinho se cagou!!!

 

“Os suicídios ocorreram no banheiro da escola e deixaram pais, alunos e professores em choque. A polícia afirma que um estilete foi usado como instrumento causador dos ferimentos que culminaram na morte dos dois adolescentes.”


 

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