Ele treme, a ferida foi profunda. A flecha o perfurou bem acima da pata esquerda. Reconheço os sintomas; Veneno de Sapo Carneiro, morte em menos de dois dias. Preciso correr.

   Natro esteve comigo desde eu era apenas um pequeno iniciado na ordem da lua, encontrei-o no meu teste para efetivar-me como druida, na ocasião um bando de Gnolls raivosos estavam atacando uma fêmea de gorila que provavelmente havia se perdido do grupo.

   Sei que não devia ter interferido no ciclo da natureza, mas aquelas vis criaturas estavam agindo com um rancor inigualável e pareciam deleitar-se com aquilo.

   Era demais para mim.

   Corri brandindo meu bordão contra o primeiro deles: Acertei bem abaixo do queixo, num movimento de meia lua crescente de baixo pra cima. Sinto a mandíbula dilapidar como se fosse uma frágil escultura de vidro. Ele cai sentado com um baque surdo, e grita o melhor que sua mandíbula destroçada permite.

   Os outros dois prostram-se, espantados, com lanças em mãos. Num fugaz movimento, toco o chão com a palma de minha mão, fazendo uma pequena prece a Cerunnos: ‘’Vineas tenere naturam violare audet’’.

   Vinhas saem do solo, rápidas como um gatuno com a bolsa cheia de joias fugindo de um covil dracônico, emaranham-se em ambos, incapacitando-os.

   Descubro que cheguei tarde demais; A gorila já esta em seus últimos momentos. Seu olhar de suplica está gravado em minha memória até os dias de hoje.

   Mestre Andror sempre me dizia que a natureza é um ciclo, que a natureza há de se renovar, dando com uma mão e tirando com a outra, e foi naquele dia que finalmente pude perceber isso.

   Analisando o corpo com um olhar mais minucioso, descubro que a mesma está prenha. Sei o que devo fazer; Tiro a adaga de meu cinto e corto-lhe a carne da barriga.

   De lá, se revelou um pequeno ser, do tamanho da palma de minha mão, descorado e sem pelos. A partir dali, soube a dádiva que acabara de receber. Todos os druidas tem um companheiro que a mãe Terra os presenteia; Mestre Andror tem Tarda, o grande cágado, Tace tem Anglior, o falcão, Tacinu tem Silento, o morcego, e eu agora também teria um, mas precisaria de um nome.

   Lembrei do ciclo que eu tinha acabado de presenciar, da renovação natural da vida.

   Natro: Renovação.

   Hoje já se faz setenta e três anos desse dia. Meu companheiro está em um estado febril avançado. Sei que posso cura-lo facilmente, mas vejo nele o mesmo olhar de suplica que sua mãe ostentava, 73 anos atrás.

   Um olhar cansado.

   Um olhar de dever cumprido.

   Toco seu rosto. Ele retribui, seus olhos se fecham vagarosamente.

   Meu companheiro se vai. O enterro ao lado do corpo de sua mãe.

   Mais um ciclo que se fecha.

   Adeus velho amigo, e obrigado por tudo.

GorillaPoachingTwo6

Download PDF: A Natureza se Renova, de Lucas Conti [Conto]


Conto do autor iniciante Lucas Conti, se quiser saber mais sobre o autor é só ficar de olho no seu twitter @Contiota! ^^