Olá, meus amigos! Este post dará início a uma série complementar para as Dicas da Taverna a fim de esclarecer algumas dúvidas mais comuns sobre esse complexo ofício que vem a ser a escrita. Bem, acho que nada melhor do que iniciar falando sobre como começar uma história:



 “Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.”

   “Girando em torno desse sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de Quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.”

– O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adans

   Quanta coisa dá para tirar desse trecho, não é mesmo? Imagine se você nunca tivesse ouvido falar do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias. Só de ler esses dois pequenos parágrafos iniciais é possível deduzir que se trata de uma história de ficção científica. Repare no cuidado em nos situar em um “planetinha insignificante” nos confins da galáxia. Dá para notar também que a história tem bom humor e certa crítica aos habitantes do tal planetinha. É uma abertura genial, pois a obra inteira vai usar e abusar desses temas.

   E você? Tem ideia de como escrever a abertura genial da sua história?

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Bem na região mais brega da orla ocidental da galáxia… D:

  Muita gente desiste de escrever seu livro ou conto simplesmente porque não consegue começar. Os parágrafos vão surgindo e sumindo na tela do computador à medida que você escreve e reescreve o texto que nunca fica bom o suficiente.

   Bem, você está certo em uma coisa, um bom começo é importante. O começo de uma história deve ser bom o suficiente para que o leitor tenha vontade de chegar ao fim, mesmo se o final for terrível. Especialmente o primeiro parágrafo e até mesmo a primeira frase devem ser construídos para que quem o leia queira seguir suas palavras para onde elas o levarem.

  Entretanto, não gaste toda sua energia sem avançar. Começar bem é um desafio que obriga muitos escritores a trabalhar essa parte por último, já com a história pronta, pois é mais fácil criar uma abertura coerente assim. Na verdade, o ideal é escrever tudo que vier do jeito que sair até o fim. Depois você volta, organiza e revisa. Revisar é sempre bom, desde que seu texto já esteja concebido. Então, se você está com dificuldade em escrever um bom começo, deixe isso para depois. Escreva primeiro o que vier à cabeça e pense no começo mais tarde.

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Que tal começar com uma baleia caindo do céu? Brincadeirinha. Isso já acontece durante o Guia do Mochileiro das Galáxias.

  Quando for o momento de escrever o parágrafo inicial, saiba que nele você deve receber o leitor. Seja honesto e mostre qual será o tom da narrativa. Apresente o seu estilo de escrita e a proposta do seu texto. Como fazer isso? Com algo impactante, algo que o cative ou o intrigue. Algo curioso que o faça querer saber onde tudo vai dar.

   Geralmente, o começo gira em torno do protagonista, mas isso não é uma regra. O importante é que o que você está contando tenha alguma importância para a história. Seja para situar o leitor em um lugar, para descrever alguma personagem importante. Sempre seja coerente. Os primeiros parágrafos devem servir à história. E mais do que isso, muitas vezes eles são um pequeno resumo do conflito central dela. Lembre-se, não vai ser bom você escrever algo muito bacana, mas que não tenha nada a ver com a obra em si.

   Vamos a um exemplo:

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  “Queimar era um prazer.”
“Era um prazer especial ver as coisas serem devoradas, ver as coisas serem enegrecidas e alteradas. Empunhando o bocal de bronze, a grande víbora cuspindo seu querosene peçonhento sobre o mundo, o sangue latejava em sua cabeça e suas mãos eram as de um prodigioso maestro regendo todas as sinfonias de chamas e labaredas para derrubar os farrapos e as ruínas carbonizadas da história. Na cabeça impassível, o capacete simbólico com o número 451 e, nos olhos, a chama laranja antecipando o que viria a seguir, ele acionou o acendedor e a casa saltou numa fogueira faminta que manchou de vermelho, amarelo e negro o céu do crepúsculo. A passos largos ele avançou em meio a um enxame de vaga-lumes. Como na velha brincadeira, o que ele mais desejava era levar à fornalha um marshmallow na ponta de uma vareta, enquanto os livros morriam num estertor de pombos na varanda e no gramado da casa. Enquanto os livros se consumiam em redemoinhos de fagulhas e se dissolviam no vento escurecido pela fuligem.”

– Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

   Nesse poderoso início do livro Fahrenheit 451, o Bombeiro Guy Montag, nos insere na proposta central da obra: um futuro distópico, no qual as pessoas são proibidas de possuir e ler livros. E sobre a tarefa dos bombeiros de destruir esse objeto tão perigoso. O começo de Fahrenheit 451 é feito com uma ação. O protagonista incendiando os livros e a casa onde eles estavam escondidos. Também há uma ênfase na ideia prazerosa que ele nutre sobre esse serviço. Prazer que desaparecerá ao longo da história enquanto o personagem for se desenvolvendo.

   Há muitas maneiras de iniciar sua história. Pode ser com uma ideia que conduzirá o personagem durante a trama e sobre a qual ele descobrirá estar certo ou errado; Uma descrição, seja ela de um lugar, um personagem, etc; Também podemos começar com uma ação . Em Fahrenheit 451 há uma ação e uma ideia. Você pode mesclar isso como quiser e até usar os três juntos: descrição, ação e ideia, contanto que construa algo que favoreça a sua história.

   Por fim, o que recomendo de verdade é que você leia bastante procurando observar como seus autores favoritos começam as histórias deles. E escreva muito também. Lembre-se: praticar sem desistir te transformará em um escritor mais cedo ou mais tarde. Até a próxima!


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