Esse é o segundo post da série Manual do Escritor da Taverna. Caso você queira conferir as primeiras dicas sobre como começar sua história clique aqui. Boa leitura! ^^ 


   Muita gente sonha em escrever um livro cujo sucesso leve a obra para o cinema. Isso realmente é uma possibilidade fantástica na vida de um autor bem sucedido. Entretanto, muitos escritores iniciantes tentam transmitir suas histórias para o papel imaginando-as, desde já, como um filme (ás vezes, até um seriado ou um anime). Isso pode ser prejudicial. O que você quer escrever é um livro, ou seja, uma narrativa. Filmes e séries são dramatizações. Narrar é contar fatos ou eventos. O ideal ao escrever uma história é imaginar-se narrando ela para alguém.

   O hobbit quase pulou fora da própria pele quando o chiado chegou-lhe aos ouvidos, e, de repente, viu os olhos pálidos e salientes voltados para ele.

– Quem é você? – ele perguntou, erguendo o punhal à sua frente.

– Quem é ele, meu precioso? – sussurrou Gollum (que sempre falava consigo mesmo porque nunca tinha com quem falar). Era o que vinha descobrir, pois na verdade, não estava muito faminto no momento, apenas curioso; caso contrário, teria agarrado primeiro e sussurrando depois.

– Sou o Sr. Bilbo Bolseiro. Perdi os anões, perdi o mago, e não sei onde estou; e não quero saber, se puder sair daqui.”

O Hobbit – J. R. R. Tolkien

   Esse é um exemplo de texto narrativo. Agora vamos a um exemplo de texto para dramatização (bastante improvisado):

 

Gollum – (faz um chiado)

Bilbo – Quem é você? (ergue o punhal)

Gollum – Quem é ele, meu precioso? Se nós estivesse com mais fome, nós comeria ele…

Bilbo – Sou o Sr. Bilbo Bolseiro. Perdi os anões, perdi o mago, e não sei onde estou; e não quero saber, se puder sair daqui.

 

   O texo dramatizado é, praticamente, só falas. Muito do que ficou de fora vai ser preenchido pela atuação dos atores. Ás vezes, existem fatos que precisam ser ditos nos diálogos, pois na dramatização ninguém está contado o que acontece ou descrevendo o que há em cena. Tudo tem de ser exibido para o expectador.

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O Gollum é ótimo no drama.

   O autor de O Senhor dos Anéis e O Hobbit, J. R. R. Tolkien, costumava dizer que era perda de tempo tentar adaptar de forma satisfatória sua obra para o cinema ou teatro. Não apenas pela complexidade dos seus livros, mas ao converter uma narrativa em uma dramatização, a obra original perde muito do seu valor. De fato, você já deve ter ouvido uma centenas de vezes esta frase: “O livro ainda é melhor que o filme.”

   Deixando os filmes de lado, a narrativa possui elementos, são eles o enredo, os personagens, o espaço, o tempo e o narrador. O narrador é quem você deve se imaginar no lugar. Existem dois tipos mais comuns de narradores, o narrador em 1° pessoa e o em 3° pessoa. O ideal é escolher o tipo de narrador mais apropriado para sua história e saber usá-los de forma inteligente. Vamos entender como:

O Narrador em Primeira Pessoa

   Este tipo de narrador é um personagem contando fatos vividos por ele próprio. Em alguns livros, ele será o protagonista, em outros, será alguém que relata e acompanha as experiências do personagem principal. Os fatos escritos pelo narrador em 1° pessoa serão sempre restritos ao que ele presenciar. Aqui, a subjetividade será intensa. O texto pode estar carregado com os pensamentos, emoções e opiniões do narrador. O narrador em 1° pessoa também pode ser um Narrador Não Confiável, o qual mente para o leitor, mas deixa pistas para que ele possa descobrir a verdade ou desconfiar do que está sendo dito. Exemplos de livros narrados em 1° pessoa: A Companhia Negra, O Nome do Vento, O Oceano no Fim do Caminho, As Crônicas de Artur.

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O narrador Derfel, um guerreiro que conheceu de perto o Rei Artur, revela os segredos desse personagem mítico ao longo das Crônicas de Artur.

O Narrador em Terceira Pessoa

   Aqui o narrador contará a história de alguém sem participar dela. Ele pode até ser um narrador personagem que vive no mesmo universo onde se passa o enredo ou conhecer alguém na história, mas ele nunca falará de si mesmo durante o texto, sempre será sobre fatos ocorrido com terceiros. Eis agora alguns estilos de narrador em terceira pessoa:

   Narrador Onisciente: O narrador sabe absolutamente tudo. Ele mostra o que vários personagens diferentes pensam e conta o que estão fazendo sem se prender a um único ponto de vista. Exemplo de livro: A Revolução dos Bichos de George Orwell.

   Narrador Limitado: Este é um tipo de narrador muito comum na literatura. O narrador mostra a perspectiva apenas de um personagem, deste modo, sabemos tudo que ele pensa e vê, mas nada além disso. Em O Nome do Vento, começamos o livro com o narrador em 3° pessoa limitado, contando sobre o protagonista, mas, em dado momento, o protagonista inicia um relato sobre seu passado e o tipo de narração do livro muda para 1° pessoa. Em Guerra dos Tronos e em O Iluminado, a história começa sob a perspectiva de alguém, mas ao longo do enredo o narrador limitado segue outros personagens em capítulos próprios para eles, assim, obtemos uma percepção muito maior da trama com vários pontos de vista diferentes.

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O Nome do Vento possui duas formas narrativas. Bem legal!

   Narrador Objetivo: Este narrador contará de modo imparcial o que acontece. Tudo será exposto por diálogos, ações e descrições que construirão todo o universo do livro. O narrador explicará fatos sem dar sua opinião. Os pensamentos dos personagens não serão revelados, mas suas ações e reações evidenciarão o que sentem e pensam. Um exemplo de livro: A Estrada de Cormac McCarthy.

   Como eu disse, o narrador em primeira e terceira pessoa são os mais comuns, porém exite também o narrador em Segunda Pessoa. Nesse caso, o narrador pode estar falando sobre alguém, mas se refere a ele usando você ou tu. Isso causa um efeito no leitor que é forçado a se colocar no lugar do personagem. Um exemplo é o livro Terra e Cinzas de Atiq Rahimi.

   Por fim, já que falamos tanto sobre narrar e contar histórias, quero deixar uma última dica: Quando seu texto estiver pronto, a primeira pessoa para a qual você deve lê-lo é você mesmo.  Leia-o em voz alta. Leia como se o estivesse fazendo para uma platéia. Este simples ato fará você perceber o que deu certo e o que deu errado. Muitas construções frasais poderão soar mal aos ouvidos e você perceberá onde é preciso escrever de forma mais clara e mais bonita. Sendo você um contador de histórias, sei que assim o fará.


No próximo post, falaremos sobre como os conflitos prendem o leitor no texto. Basta clicar aqui para conferir!  Até breve!

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