1

No dia 31 de dezembro de 2016, cinco amigos pretendiam passar o ano novo juntos. Apenas um voltou para casa. Grande parte dessa história é baseada no depoimento prestado pelo sobrevivente à polícia civil carioca.

Com um mês de antecedência, Tiago perguntou:

– Partiu copa no ano novo?

– Partiu! – responderam três ao mesmo tempo.

– Bora, Daniel?

– Copa agora só em 2018 – ele respondeu.

– Putz, que merda de piada… Deixa de ser palhaço, bora?

Daniel riu.

2

Daniel preferiu chegar cedo. Morava no Catete e sabia que pegar o metrô para Copacabana no ano novo era um inferno. Aquela galera vestida de branco, com seus suvacos amarelados e suados, apertando-se no vagão, não se encaixava na sua ideia de diversão. Para evitar tudo isso, antes do almoço, já estava lá.

O apartamento ficava no quarto andar de um prédio antigo, localizado na Rua Barata Ribeiro. Ao chegar, demorou a reconhecer o prédio, a reforma feita na fachada havia sido estendida para a portaria e o local de entrada fora alterado. Antes mesmo que ele terminasse de digitar o número do apartamento no interfone, o porteiro atendeu:

– Vai pra onde?

Pego de surpresa, respondeu:

– É… bom dia. 401.

– Espera aí – ordenou.

Pelo vidro, pôde ver que o senhor sisudo tentava contato com o apartamento. O procedimento demorou mais do que deveria e o fez esperar debaixo do sol pouco agradável do verão carioca. Um estalo e a porta foi destravada.

Já ciente de que a educação não era o forte daquele senhor, Daniel passou em silêncio e apenas sinalizou de forma afirmativa com a cabeça ao passar pelo porteiro. Desconfiado, o homem não deixou de segui-lo com o olhar até que entrasse no elevador. Talvez a explicação fosse óbvia. Como o apartamento era da tia de Tiago, e ela não morava no Rio, era incomum aquela movimentação.

Apesar de antigo, o prédio apresentava boa conservação e um cheiro que, mesmo sem ter vivido aquele período, remetia Daniel à década de sessenta. Prédio de pessoas com poder aquisitivo bem acima da média nacional, o lugar contava com apenas um apartamento por andar. Dois elevadores levavam até entradas independentes do mesmo apartamento. Pegou o elevador de serviço, já que a tia nunca deixava a chave da entrada social com Tiago.

A porta pantográfica se abriu fazendo um esporro desproporcional ao necessário assim que o elevador chegou. Daniel não gostava de elevadores, um misto de trauma infantil e claustrofobia. Apertou o botão com o número quatro ao lado e fechou os olhos até que outro esporro acusasse o término da viagem. Ao sair, Tiago já o aguardava com a porta que dava para a cozinha aberta.

3

– Chegou cedo – disse ele após cumprimentar o amigo e trancar a porta.

Havia suor em sua testa e a respiração ofegante deixava sua voz trêmula e hesitante.

– Ué, você falou que ia precisar de ajuda.

– Sim, mas a gente tinha combinado de ir no mercado à tarde. Não esperava que você viesse antes do almoço, nem comprei nada pra gente comer.

– Deixa de ser mão de vaca, cara. A gente vai ali na esquina e pega um frango. Eu pago.

– Beleza… Quer água? – ofereceu já abrindo a geladeira.

– Misturada – respondeu Daniel, enquanto caminhava para a sala.

– Não chegou ninguém ainda. Toma sua água – disse ele, quase derrubando a garrafa no chão com uma cotovelada involuntária.

– Valeu! Cara, preciso ir ao banheiro.

– Vai no de empregada.

– O outro ainda está ruim?

– É… a descarga ainda está dando problema.

Enquanto despejava sua urina no vaso rosa, que para ele denunciava a falta de bom gosto da dona do local, Daniel pensou ter ouvido uma voz feminina. Modificou a direção do jato amarelo para uma parte da louça que não fizesse tanto barulho e tentou escutar melhor o que acontecia. Tudo o que conseguiu ouvir foram passos apressados.

Balançou e guardou. Alguns pingos atingiram o piso branco e o último ficou para a cueca.

– Chegou alguém? – perguntou ao ver Tiago sentado em uma posição pouco espontânea no sofá da sala.

– Ahn? Não. Só vão chegar mais tarde mesmo. Vou só mandar uma mensagem para eles confirmando e a gente desce para almoçar.

– Beleza… – respondeu Daniel se atirando no sofá em busca do melhor lugar para aproveitar o vento que vinha do ventilador de teto.

O som da porta do elevador se ouviu, Daniel olhou para Tiago, que fingiu não ter escutado.

4

A ideia do frango assado de padaria para o almoço foi descartada assim que avistaram a longa fila, e o preço inflacionado escrito com giz em uma placa fixada ao lado do caixa. Um almoço rápido na lanchonete que ficava ao lado acabou sendo a solução. Fizeram seus pedidos e ocuparam a única mesa disponível. O local contava com dois ventiladores de teto velhos, revestidos por uma camada de gordura e poeira e que rangiam em protesto por lubrificação.

– Cara, tá muito quente aqui – reclamou Tiago.

– Tá foda… – concordou o Daniel. – Mas se liga, aquele porteiro novo é estranho. Já viu?

– É? Eu não conheci. Quando cheguei não tinha ninguém na portaria, minha tia disse que eles estavam procurando outro. O antigo morreu.

– Sério?

– Aham.

– Morreu de quê?

– Provavelmente de tédio – disse Tiago, destilando sua primeira dose de humor negro do dia.

– Que escroto…

– Mas não é? Ele só dormia.

– Pior que é verdade… Lembra quando ele interfonou dizendo que a velha do 301 tava reclamando do nosso barulho?

– Nem fala… Ela morreu também.

– Mas que porra de prédio é esse? – perguntou Daniel, em tom de brincadeira.

– Não é? Mas então, ele morreu no prédio.

– O porteiro?

– É!

– Mentira… Sério?

– Uhum – confirmou Tiago.

– Morreu como?

– No elevador. Quando ele foi entrar, deu algum problema e ele acabou esmagado com metade do corpo fora e metade dentro.

– Nunca mais eu entro naquele elevador – decretou Daniel, que não pôde esconder a cara de espanto ao criar uma imagem do que havia sido narrado em sua cabeça. – Foi o de serviço, né? Você já percebeu que o barulho da porta só piora?

Tiago soltou uma risada tão alta que metade das pessoas tremeu de susto e olhou para os dois.

– É mentira, né? – perguntou Daniel.

– Claro que é – confessou gargalhando. – Medroso demais…

Vinte minutos jogando papo fora e Daniel passou a tentar achar uma brecha para perguntar quem estava no apartamento antes dele chegar. A curiosidade era grande e Tiago, escorregadio como sempre, mudava de assunto toda vez que percebia que o rumo da conversa se aproximava perigosamente do que evitava falar. A comida chegou e as bocas cheias só tiveram tempo para engolir a refeição e sair daquela sauna engordurada.

5

Uma rápida passada no apartamento e foram para o mercado. Lotado de pessoas suadas, que caminhavam com carrinhos cheios e pressa. Optaram pelo mais barato.

– Odeio esse mercado… Você falou para eles onde nós estamos? – perguntou Daniel.

– Falei.

– Manda outra mensagem.

– Tô com 6% de bateria. Manda você.

Estava quase retirando o celular do bolso quando ouviu:

– AEEE!!! – gritou a voz que os dois reconheceram na hora.

Caio e Aline se aproximaram com dificuldade, tentavam abrir caminho entre os carrinhos, em grande maioria lotados de engradados de cerveja. Eram os mais velhos e formavam o casal do grupo, dez anos de namoro e já era impossível falar de um sem citar o outro. A típica síndrome de dupla sertaneja que afeta noventa e nove a cada cem casais.

Cumprimentaram-se com abraços curtos e desajeitados, causando engarrafamento imediato no corredor apertado.

– Cadê o João? – perguntou Daniel.

Aline se apressou em responder:

– Ah… Vai atrasar. Como sempre!

– Ele falou ontem que só vem mais tarde – acrescentou Caio. – Não adianta… João não muda.

Com o grupo quase completo deram início às compras. Daniel e Caio ficaram encarregados das bebidas, Aline e Tiago compravam congelados, chocolates e biscoitos.

– Hoje é dia de sair da dieta! – comemorava Aline, apertando o excesso imaginário de gordura que dizia ter acumulado em sua barriga.

Em menos de trinta minutos, já se encaminhavam para o caixa. A pressa generalizada servia para agilizar o andamento das longas filas. Tiago sugeriu que apenas um ficasse na fila e os outros esperassem do outro lado do caixa, a quantidade de pessoas por metro quadrado só aumentava e Daniel deu graças a deus pela ideia. Caio se ofereceu.

Enquanto aguardavam, os três não tiravam o olho da tela de seus celulares. Daniel até tentou fazer com que os dois largassem os aparelhos mas, vencido pela indiferença de ambos, passou a dedicar aquele tempo stalkeando um antigo namorado que, há dois dias, havia mandado um: Oi, sumido. Estava próximo ao local de entrada e saída, e flertava com o bafo ainda mais quente que vinha do exterior. Ao som de uma música sertaneja que mandava o garçom trocar o DVD, que a moda fazia sofrer e aumentar os dez por cento, ele desceu pelas fotos e sentiu algo pontiagudo tocar sua barriga.

– Passa o celular – ordenou o garoto, que não tinha mais que quatorze anos.

O celular foi arrancado antes que Daniel pensasse se reagiria ou não e o menino se foi.

– Ele me roubou – disse Daniel.

Aline foi a única a ouvir.

– O quê? – perguntou.

Tiago então notou que os amigos conversavam.

– O garoto levou meu celular.

Passaram algum tempo discutindo se iriam prestar queixa na polícia ou não, e Caio chegou cheio de sacolas.

– Sério mesmo que vocês não vão ajudar?

Ao ser informado do ocorrido, ele ainda sugeriu que dessem algumas voltas no quarteirão em busca do pivete. Ideia descartada por todos os outros.

– Vamos embora – decretou Daniel.

6

A porta do elevador de serviço anunciou a chegada de todos. Daniel abriu os olhos. Passara o caminho todo lamentando o celular roubado. Carregados de sacolas, encaminharam-se para a entrada. Tiago deixou as compras que carregava em sua mão direita no chão e tateou o bolso de trás em busca das chaves.

– Tem um bilhete na porta – reparou Caio.

Tiago leu em voz alta:

– João não vem.

– Como assim? É isso que está escrito? – perguntou Aline.

– É… Só isso – confirmou arrancando o papel grudado com uma fita adesiva transparente.

Procurando entender o significado daquela mensagem, todos se aproximaram para ler com mais atenção. Trocaram olhares curiosos entre si. Um estranho silêncio se estabeleceu até que todos entrassem e largassem as sacolas pelo chão da cozinha.

Tiago sacou o celular do bolso e constatou que a bateria havia acabado.

– O meu descarregou. Alguém olha no grupo, ele deve ter mandado alguma coisa – sugeriu.

Por instinto, Daniel tateou o bolso em busca do seu. Murchou ao lembrar que não tinha mais.

– Nada… Nem no grupo ele respondeu – informou Aline.

– Vou ligar pra ele – disse Caio.

A atenção se voltou para ele.

– Está desligado – constatou.

 

7

Com o celular ligado ao carregador Tiago informou que João não havia feito contato. Insistiu em saber quem seria o autor do bilhete.

Caio cogitou:

– Ele deve ter deixado de sacanagem. Não duvido que apareça por aí, mais tarde, rindo da nossa cara.

Aline concordou com um breve aceno.

– Pode ter sido o porteiro – disse Daniel.

Caio rebateu:

– Mas ele não estava na portaria quando chegamos. Já sei, a gente pode pedir para ver a filmagem das câmeras.

– Nenhuma está funcionando, servem só de enfeite – disse Tiago. – Minha tia reclamou disso ontem mesmo.

– Como assim? Nunca vi isso… – reclamou Aline.

– Desce lá, cara – sugeriu Tiago, se dirigindo a Daniel. – Procura por ele na garagem.

Os três continuaram tentando contato por telefone com João enquanto Daniel foi em busca de mais informações. Poucos minutos se passaram até que eles, da sala, ouvissem o barulho do elevador se abrindo. Ansiosa, Aline levantou e foi até a cozinha. O grito agudo que soltou fez com que Tiago e Caio pulassem do sofá.

O homem que ameaçava Daniel com uma faca próxima à jugular trajava luvas, calça comprida  e camisa de manga longa, todas pretas. A máscara de palhaço despertou sentimentos distintos em cada um deles. Aline caiu de joelhos e buscava o ar que seus pulmões falhavam em captar. Tapava o rosto tentando controlar o choro compulsivo, sofria de coulrofobia, medo de palhaços.

– Que merda é essa? – gritou Tiago. – É o João, né? Essa brincadeira não tem graça.

Diferente do amigo, Caio não achou que o mascarado estivesse brincando. Pegou a faca que estava na pia e tentou esconder.

O palhaço sussurrou algo que somente Daniel conseguiu ouvir.

– Caio, larga a faca – pediu Daniel. – Ele não está brincando.

Como prova de que era sério, o palhaço apertou a faca contra o pescoço de Daniel. O sangue escorreu pelo corte superficial fazendo com que sentisse como seria ter aquela lâmina dilacerando a carne e rompendo suas veias.

– Larga essa porra, Caio! – gritou Tiago.

Ele obedeceu e se ajoelhou ao lado de Aline buscando acalmá-la.

Mais sussurros, e Daniel serviu novamente como porta voz do palhaço:

– Ele quer que vocês passem os celulares.

Tiago recolheu os aparelhos dos dois e fez com que deslizassem pelo piso da cozinha.

– O meu está carregando na sala – informou.

– Agora ele quer todos com a mão na cabeça.

Caio ajudou Aline a se levantar, ela não conseguia olhar para o palhaço. Procurava manter a cabeça baixa.

– Todo mundo para o banheiro – prosseguiu Daniel, narrando tudo o que lhe era ordenado.

Os três obedeceram.

8

A porta do banheiro foi trancada por fora. Durante algum tempo faziam silêncio e tentavam ouvir o que ocorria. Aline já não chorava mais.

– É assalto? – ela perguntou.

– Acho que sim – respondeu Tiago.

Caio levantou-se e colou a orelha na porta. Tiago segurou a mão de Aline sem que ele percebesse e soltou assim que ele se virou para os dois.

– A gente tem que fazer alguma coisa – disse Caio.

– Não tem como, cara. Ele está armado.

– Com uma faca! Se a gente for pra cima dele, a gente consegue desarmar.

– Ele está com a faca na garganta do Daniel!

– Amor, calma – pediu Aline.

Foram horas sem saber o que lhes esperava. Quando tinham sede recorriam à água da bica, para usar o vaso o desconforto era maior. Nada que a necessidade não transformou em algo tolerável assim que veio o aperto. Deitados no piso rosa, aguardavam com ansiedade o que mais poderia acontecer. Os fogos já explodiam no ar com um intervalo menor. A frequência anunciava a proximidade da queima de fogos. Sem relógios, não tinham como saber a hora exata.

– Já é quase meia noite – disse Caio.

Nenhum dos outros dois deu prosseguimento à conversa. A porta do banheiro foi destrancada.

– Tiago! – gritou Daniel.

Sem saber o que fazer, continuou imóvel.

– Vai lá – disse Caio.

Tiago se levantou.

Aline pensou em impedir que ele prosseguisse, mas apenas tocou brevemente seu braço:

– Vai com cuidado – ela pediu.

Quando Tiago abriu a porta todos puderam ver o que acontecia. A luz do corredor estava acesa, no fim, viram Daniel ajoelhado e cabisbaixo. Atrás dele, de pé, o palhaço. Tinha a cabeça ligeiramente inclinada e a faca na mão direita.

– Tranque a porta quando sair – ordenou Daniel.

Aline não aguentou até que a porta fosse fechada. Desviou logo o olhar assim que se deparou com a figura do palhaço. O choro recomeçou, alto o suficiente para ser ouvido do corredor.

9

– Ele quer que você ande até a metade do corredor e sente.

Três passos foram suficientes. Tiago ajoelhou. Sempre que o palhaço se aproximava do ouvido de Daniel, sabia que novas ordens estavam a caminho.

– De joelhos não. Senta, pernas cruzadas.

Ainda que contrariado, ele obedeceu.

– O que está acontecendo, Daniel? É assalto? O que ele quer?

O palhaço entregou um objeto, que Tiago identificou como sendo seu celular, para Daniel.

– Ele quer saber a senha.

– 4141.

Daniel desbloqueou o celular e entregou ao palhaço, que tirou a luva da mão direita e começou a vasculhar sem deixar de se certificar, com frequência, de que os dois estavam quietos. Depois de alguns instantes o celular tocou o áudio:

“Nem acredito que ele quase pegou a gente. Foi muito bom encontrar você, fazia tempo que eu estava querendo. Mais tarde estarei por ai, pena que não sozinha… Beijos, delícia.”

Os olhos de Daniel se arregalaram tanto que Tiago não conseguiu interpretar o sentimento que ele tentava expressar. O palhaço, mesmo sem produzir som algum, parecia sorrir por trás da máscara.

– O que está acontecen… – a voz falhou antes que Tiago completasse a pergunta.

– Agora volta para o banheiro e chama a Aline – ordenou Daniel.

– Não! – ele se colocou de pé.

Já esperando a reação, o palhaço agiu de forma precisa e um pedaço da orelha esquerda de Daniel foi ao chão. Ele gritou.

Tiago respirou fundo e correu para o banheiro.

– Agora é você – apontou para Aline.

– Não, eu não vou! – ela berrou, aterrorizada.

Outro grito de Daniel foi ouvido pela casa.

– Se você não for, aquele doente vai matar ele.

10

Cada passo que Aline dava era fruto de um esforço além de sua capacidade. O medo a fazia querer voltar correndo para o banheiro. Caminhava de cabeça baixa, olhos fixos no chão para não se deparar com a imagem que tanto lhe perturbava.

– Pode parar aí – ordenou Daniel. – Senta de pernas cruzadas.

Tremia tanto que as pernas desistiram do peso de seu corpo, fazendo com que batesse com o cóccix no chão. Daniel jogou o celular sobre o colo da amiga:

– Desbloqueia.

Aline pousou o polegar sobre o aparelho e a tela acendeu.

– Joga ele pra mim.

Ela arremessou o celular e Daniel segurou o aparelho no ar. Entregou ao palhaço, que passou a mexer em tudo. Aline lutava para manter os olhos abertos e nunca estabelecia contato visual. O celular de Caio começou a apitar e vibrar. Recebia uma quantidade grande de mensagens. Assim que o palhaço terminou de mexer no de Aline, o aparelho de Caio fez silêncio.

– Volta pro banheiro e chama o Caio.

Antes de cumprir a ordem, ela criou coragem e olhou em direção aos dois. Daniel tinha a camisa manchada com sangue que pingava das duas orelhas e um olhar perdido. Aline correu.

 

11

– Eles te machucaram? – perguntou Caio, segurando Aline em seus braços. – Amor, fala comigo.

Ela engoliu o choro e falou:

– É sua vez. Desculpa.

– Vai ficar tudo bem – disse ele.

Quando a porta do banheiro foi trancada por fora, Tiago correu até Aline e a acolheu em seus braços.

– Vem aqui, me abraça.

– Me solta Tiago – exigiu ela enquanto se livrava do abraço.

– O que foi?

– Me conta o que ele fez com você.

Tiago relatou tudo o que havia ocorrido quando fora chamado.

– A gente errou. Esse cara é louco, ele vai contar pro Caio.

– Nada disso faz sentido. Você acha que um doente desses entraria aqui só para fazer a gente confessar?

Aline se calou. Os minutos passaram devagar enquanto os dois faziam silêncio para tentar ouvir, sem sucesso, o que acontecia do lado de fora.

12

O som de algo se estilhaçando na parede fez com que Aline soltasse um grito esganiçado. Passos pesados atingiam o piso e se aproximavam da porta. Um grande estrondo arrebentou a fechadura e fez voar pedaços de madeira pelo banheiro. Caio entrou espumando de raiva e partiu para cima de Tiago. Aline tentou interceder e foi arremessada contra a parede, onde bateu a cabeça.

– Para, cara! – gritava Tiago, enquanto tentava se desvencilhar do amigo que agora se posicionava por cima dele.

Tiago era aparentemente mais forte, mas nem assim conseguia controlar a situação. Apesar de ter conseguido se esquivar da maioria dos socos desferidos, dois deles atingiram sua boca e o sangue já tingia os dentes. Agarrou Caio, tentando diminuir a distância entre eles e evitar que ele conseguisse continuar socando.

Atordoada, Aline acompanhava tudo em câmera lenta. Viu Caio apertar o pescoço de Tiago e o sangue se acumular no rosto. As veias saltavam e ele estava prestes a desmaiar. Pela porta, o palhaço surgiu. Agarrou Caio pelos cabelos e cravou a lâmina da faca em seu ombro. Os dedos que comprimiam o pescoço de Tiago perderam força e ele conseguiu escapar. Mesmo ferido, Caio atingiu o palhaço com um cotovelada. Puro reflexo. A briga agora era entre os dois. Tiago se aproveitou disso para ir até Aline e levantá-la.

– Vem! – ele disse.

Aline não tinha plena consciência do que acontecia. De forma automática, suas pernas ergueram o peso do corpo e ela saiu do banheiro amparada por Tiago. A batalha travada entre Caio e o palhaço prosseguia. No fim do corredor, Daniel continuava ajoelhado e apático.

– Vamos sair daqui – decretou Tiago ao passar por ele. – Daniel… Porra!!!

Nada dele se mover, nem sequer piscava. Era impossível que Tiago carregasse os dois. O palhaço surgiu, aparentemente Caio havia perdido. Um cálculo rápido decretou que o caminho de saída do apartamento era inviável, seriam alcançados. A única alternativa foi o quarto.

Tiago entrou e deixou que Aline cambaleasse até a cama. Livre do peso, conseguiu trancar a porta. Segundos mais tarde alguém se chocou contra  ela. Uma, duas… Três vezes.

13

Nenhuma das investidas feitas contra a porta obteve sucesso.

– Socorro!!! – berrava Tiago da janela. – Apartamento 401. Alguém chama a polícia!

O grito de dor veio da sala.

– Ele vai matar o Daniel – afirmou Aline, com a voz fraca de quem se conforma.

– Aline, olha pra mim. A gente vai dar um jeito nisso.

Ela se descontrolou:

– Dar um jeito em quê? No Caio morto? No João desaparecido? No Daniel sendo torturado?!

– Calma! – Ele a segurou pelos braços e sacudiu.

A porta tremia, alguém tentava girar a maçaneta do outro lado. Tiago empurrou a escrivaninha para obstruir a porta e começou a vasculhar o armário em busca de alguma arma ou qualquer coisa que pudesse ser útil naquele momento. Conseguiu um antigo abridor de cartas, pontiagudo e afiado o suficiente para que servisse como uma arma.

Aproximou-se da porta para tentar ouvir alguma coisa. Aline permanecia deitada na cama. Agora, em posição fetal, só chorava. O líquido  incolor infiltrou o quarto por baixo da porta. Tiago se assustou e abriu distância. O cheiro ardente de álcool subiu.

– Não! – ele implorou. – Não faz isso.

O fogo engatinhou pela fresta e lambeu o chão. Aline, de joelhos sobre a cama, assistia ao que acontecia sem esboçar reação. Tiago pediu:

– Me ajuda a apagar!

Os papéis que haviam caído no chão quando empurrou a escrivaninha ajudavam a alimentar o fogo, que se apropriava do quarto com rapidez. Tiago, em uma tentativa desesperada de abafar o incêndio, abriu o armário e jogou uma coberta sobre as chamas. Era o combustível que faltava para que o inferno tomasse conta do lugar.

Alguns minutos se passaram e a fumaça já preenchia todo o recinto, Tiago lutava uma batalha perdida. Quando ele tentou se acalmar para pensar em mais alguma forma de escapar, notou a cama vazia. Ao olhar para a janela, pôde ver que Aline tentava se equilibrar, de pé, sobre o parapeito.

Tentou gritar por ela, só conseguiu tossir. O ar que inspirou para tentar soltar o grito encheu seus pulmões de fumaça negra e fez com que ardessem. A silhueta de Aline em meio à fumaça foi a última coisa que viu antes de apagar.

 14

Flashes coloridos iluminavam o rosto de Aline. As explosões dos fogos se intensificaram assim que os ponteiros se aproximaram da meia noite. A vista privilegiada das luzes cortando o céu era ignorada pelo olhar vazio. Não houve impulso, apenas entrega. O corpo despencou quando o calor em suas costas destruiu a primeira camada de pele. Fogos explodiram pelo manto negro que cobria Copacabana e silenciaram o momento em que Aline beijou o chão.

15

A garrafa de espumante explodiu em jatos brancos que banharam Daniel. O líquido quente escorreu pelos cabelos e cobriu as feridas nas orelhas, misturando-se ao suor e sangue e fazendo com que ardessem. O palhaço estava desarmado, divertia-se com a bebida e os fogos. Havia deixado a faca no chão, muito mais próxima de Daniel.

 Era impossível continuar imóvel. O banho de espumante o fez despertar do torpor e tomar uma atitude. Ao ficar de pé, olhou nos olhos do responsável por todo aquele terror. Fumaça e calor impossibilitaram que o momento durasse mais, o fogo se alastrava pelo lugar. Apropriou-se da faca e o palhaço quebrou a base da garrafa na mesa.

Os dois caminharam para um encontro inevitável. Sem pressa ou hesitação. Caminharam como amigos que se encontram. O barulho dos fogos explodindo era alto. Chegaram a uma distância que permitia que um pudesse golpear o outro. Olhos nos olhos, se encaravam.

Caio surgiu sem que nenhum deles esperasse. A fumaça ocultara sua aproximação. Investiu contra o palhaço com as forças que lhe restavam e os dois caíram próximos ao fogo.

Ao tentar se aproximar, Daniel paralisou. Já não conseguia ver o que acontecia, a cortina de fumaça o impedia. Correu até a cozinha e se enrolou na hora de abrir a porta, empurrou em vez de puxar. E, por alguns instantes, pensou estar trancado. Quando abriu, deu de cara com o elevador no andar e se jogou no interior. A porta pantográfica bateu.

16

O primeiro dia do ano foi marcado pelas luzes brancas, azuis e vermelhas da sirene. Todo o apartamento fora destruído pelo fogo e o incêndio só foi controlado horas depois.

Envolto em um cobertor térmico e sentado no interior de uma ambulância, Daniel não falava. Tinha curativos nas duas orelhas e manchas de sangue seco pelo corpo. Lembrou-se de ter ouvido dois policiais conversando do lado de fora:

– Dois viraram churrasco e uma virou patê – um deles disse.

Minutos depois um outro policial entrou:

– Vou precisar fazer algumas perguntas. Você se importa?

Daniel acenou de forma negativa. Tudo o que queria era contar aquela história.

17

Longe do Brasil, e um ano depois de tudo o que aconteceu, Daniel aguardava o ponteiro marcar meia noite. A multidão ao seu redor só amplificava a ansiedade que lhe fazia companhia.

– Você é um palhaço – ouvir aquela voz novamente fez seu corpo tremer.

Virou-se e foi acolhido pelo abraço apertado.

– Somos! – disse Daniel. – Eu disse que nós íamos conseguir.

– Você fez tudo certo, eles acreditaram na história. De onde você tirou tanta imaginação? O detalhe das orelhas foi genial.

– Sim… Eles nem imaginam o que realmente aconteceu. Mas ainda te procuram.

– Se você tomou todos os cuidados antes de vir,eles não vão me achar – afirmou João.

Faltavam dez segundos, a multidão que os rodeava deu início à contagem regressiva. Juntos, despediram-se do ano que ficava para trás e desapareceram na multidão.

3…

2…

1…

Feliz ano novo!!!


 

Gostou? Não deixe de ler outros contos da série:

Sangue Brasileiro – A Loira do Banheiro