A humanidade finalmente chegou à era das viagens interestelares. A má notícia é que há poucos planetas habitáveis disponíveis – e muitos alienígenas lutando por eles. Para proteger a Terra e também conquistar novos territórios, a raça humana conta com tecnologias inovadoras e com a habilidade e a disposição das FCD – Forças Coloniais de Defesa. Mas, para se alistar, é necessário ter mais de 75 anos. John Perry vai aceitar esse desafio, e ele tem apenas uma vaga ideia do que pode esperar.

   Guerra do Velho! Ficção cientifica militar escrita pelo Jonh Scalzi, traduzido pelo Petê Rissatti e lançada por aqui pela Editora Aleph! Uma escrita simples conduz a uma viagem ao espaço e a uma guerra de colonização intergaláctica. Esse livro que tem um objetivo: entreter seu leitor! Será que ele consegue? Vamos descobrir…

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   A Terra está em uma guerra intergaláctica. Mas não uma guerra com alguma raça especifica ou por algum ideal, mas pelo simples fato de querer conquistar mais planetas para garantir que a raça humana ainda tenha espaço para nascer e crescer. Toda essa batalha é quase uma lenda para o povo da Terra, pois as Forças Coloniais de Defesa não revelam NADA do que está acontecendo lá fora, apenas diz que precisa de colonizadores e, é claro, soldados. Mas esses guerreiros não podem ser qualquer um, eles precisam ter muita experiência de vida, mais especificamente ter pelo menos 75 anos!

   Por que eles querem só os velhos? Ninguém sabe. Ninguém no chão, pelo menos. Existem muitas teorias como as pessoas são rejuvenescidas e colocadas no campo de batalha, mas a verdade é um mistério.

   Quando você tem essa idade, a mínima esperança de voltar a ser jovem pode ser interessante, mesmo que seja lutando em um campo de batalha intergaláctico.

   “Preste atenção: quando se tem 25, 35, 45 ou até mesmo 55, ainda é possível sentir-se bem com as chances de enfrentar o mundo. Quando se tem 65 e o corpo está diante da ruína física iminente, esses ‘regimes e procedimentos médicos, cirúrgicos ou terapêuticos’ começam a parecer interessantes. Então chegamos aos 75, os amigos morrem e já trocamos ao menos um órgão principal, precisamos mijar quatro vezes durante a noite e não conseguimos subir um lance de escadas sem ficar zonzos – e dizem que estamos em muito boa forma para a idade.

   Trocar isso por uma década de vida nova em uma zona de combate começa a parecer um negócio e tanto. ”

   A Terra não mudou muita coisa. Algumas mudanças sutis de tecnologia, mas nada que seja bizarro para alguém vivo hoje, com uma exceção: a FCD – Forças Coloniais de Defesa. Eles mantêm uma estação espacial ligada a Terra por elevadores que vão do chão até eles, saindo da atmosfera. Orbita na mesma velocidade que nosso planeta e possui tecnologia que desafia a física como a conhecemos. Ninguém no chão consegue entender como eles fizeram isso, apenas teorias muito vagas. A principal explicação é o uso de tecnologias alienígenas.

   Eu vou considerar nessa analise que esse livro se divide em duas partes. A primeira parte é até o protagonista se alistar, e a segunda parte são as lutas espaciais. A trama é conduzida, até o momento das lutas, de maneira bem calma e com um ar de mistério. Cada nova descoberta, seja tecnológica ou das raças alienígenas, faz parte do desenvolvimento do livro! Por isso eu considero divulgar coisas da segunda parte um spoiler, então eu vou falar um pouco do livro em geral e logo abaixo vou comentar o livro como um todo. 😉

   A primeira parte é bem intimista, introduzindo lentamente esse mundo novo e tratando sobre como é envelhecer. Tem uma das melhores introduções que eu já vi, começando um uma bela frase que mostra o que está por vir e partindo para a construção de personagem logo em seguida. Quando a mudança chega você já está totalmente junto do John Perry. O autor sabe o que faz. ^^

   Bem, o protagonista decide se alistar com todo o ar de desesperança possível… E é ai que tudo muda.

   Para dar uma resumida: esse livro é extremamente didático na sua estrutura. Ele faz tudo o que sempre aconselham jovens autores a fazer com a intenção de um resultado final agradável e divertido para o leitor e consegue fazer isso muuuuito bem! Esse é um livro extremamente divertido e gostoso de ler, e para os fãs de ficção cientifica ou uma ficção mais militar, vale muito a pena ler, você vai curti para caramba!

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Alerta de Spoilers (bem leves)

O Mundo lá em Cima e o Mundo Aqui Embaixo

   Tem muitos humanos, e precisamos de mais planetas para continuar existindo como espécie. O problema é que outras raças também estão tentando conquistar o seu espaço. Existem poucos planetas habitáveis por humanos, e eles são preciosos…

   Em algum momento do passado surgiu a FCD. O que fica meio implícito no livro é que o mundo estava cheio, não cabia mais ninguém então pessoas foram “convidadas” a se retirar. Houve uma guerra entre ocidente e oriente e, com ajuda das armas nucleares, o ocidente ganhou. Dessa forma os chineses e indianos se tornaram colonos espaciais, sendo mandados para tentar viver em outros planetas. No ocidente, apenas os velhos podem ir para o espaço e só como recrutas.

   Isso tudo é um background pincelado por auto durante o livro. É mostrado o suficiente para dar um sentido a essa estranha estrutura de recrutamento e colonização. O autor controla a informação na medida certa para não te deixar no vácuo e também não acabar com a sua paciência…

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A capa daqui é a melhor cara…

A Guerra do Velho ainda contínua sendo uma Guerra…

   …E nenhuma guerra é bonita. Jonh Perry é o personagem principal e é acompanhado por alguns ótimos coadjuvantes que, conforme o tempo de serviço dele vai passando, vão sendo substituídos por outros. Sem tempo para luto porque, afinal, a guerra não pode parar. Tanto na parte de velho quanto na de recruta Jonh entrega o que precisa, fazendo o leitor se apegar cada vez mais.

   “— Como é perder alguém que se ama? — Perguntou Jane.

   — Você morre também — respondi. — E espera que seu corpo um dia entenda.

   — E é o que você está fazendo agora? — Jane quis saber. — Digo, esperando que seu corpo entenda?

   — Não, não mais — comentei. — No fim das contas, você volta a viver. Só vive uma vida diferente, é isso.”

   A parte militar do livro é excelente e divertida. Eles tocam em assuntos mais polêmicos como o motivo daquela guerra estar acontecendo e o excesso de violência aplicado pela FCD (a cena deles esmagando uma nação de pequenas pessoas é incrível XD) mas sempre, de maneira angustiante, voltamos ao “você é um soldado, faz o que te mandam e tenta ficar vivo”. Os absurdos da guerra não são esquecidos aqui.

   A parte da ação também é espetacular. Existem algumas novas tecnologias como: o traje super resistente dos soldados, a arma capaz de disparar várias munições diferentes (de tiro de revolver a misseis) e o BRAINPAL, um sistema operacional introduzido dentro da cabeça dos soldados (praticamente um computador dentro da sua cabeça), entre outras… Todas elas têm um uso f&%@ durante a história, sem mais.

   Em resumo, Guerra do velho conseguiu ser bom tanto na ação quanto na filosofia. XD

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Parece Crysis, mas na verdade são cenas do livro Guerra do Velho. (rsrs XD)

Um Livro que Fala Sobre Envelhecimento, Só Que Não…

   O livro fala sobre as dificuldades da velhice, da solidão, da falta de propósito… Até o momento em que é finalmente aplicado o método de rejuvenescimento. Depois, tudo isso é esquecido muito rápido. Os personagens ganham personalidades de jovens, e tudo vira uma (excelente) ficção cientifica militar, praticamente não tocando mais no assunto idade.

   Eu não gostei dessa mudança de paradigma e desse esquecimento do assunto que era o centro da trama até então. Não me entendam mal, o livro é muito bom tanto na parte militar quanto na parte mais intima, só estou fazendo uma observação dessa mudança de temas.

   Partindo desse mesmo problema de mudança de paradigma, o livro não apresenta uma “trama principal” bacana. A maior parte dele consiste em descobrimento desse novo universo e, lá pelo ultimo terço do livro, ele incluiu uma trama maior. Achei isso pouco orgânico. Talvez essa seja a intenção do autor, mostrar que sempre tem problemas como esse pela galáxia, que eles não são tão especiais assim…

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“Armas não matam pessoas, os alienígenas atrás das armas sim.”

Concluindo, Antes que Envelheçamos Lendo Isso Tudo…

   Livro muito bom! Exploração espacial de primeira, com uma raça alienígena e uma tecnologia mais irada que a outra. Toca no significado do que é envelhecer e nas loucuras da guerra ao mesmo tempo e que tem uma ótima ação nas batalhas espaciais e tem uma das melhores frases de abertura que eu já vi. Ele foi inteiramente feito para divertir seus leitores, e ele consegue muito fazer isso perfeitamente! XD

Capa comum: 368 páginas
Editora: Aleph; Edição: 1ª (18 de abril de 2016)

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O Significado da Vida/Morte dos seus Personagens…

   E o que eu queria apontar nesse livro é: não existem mortes vazias!

   Eu explico. Há um tempo eu li outro livro do mesmo autor, o Red Shirts (Não lançado por aqui), que começa como uma paródia de Star Trek e evolui para algo muito mais profundo (Excelente livro, principalmente para escritores). Um dos assuntos principais do livro é sobre as mortes desnecessárias e meio que “jogadas” em uma história, que acontece por diversos motivos (geralmente por preguiça do autor XD).

Red-Shirts
Excelente livro, principalmente para escritores…

   Depois de eu ter lido esse livro eu voltei aqui no Guerra do Velho e percebi o quanto ele põe isso em prática. Nenhuma morte é leviana. A maior parte dela tem o modelo certo das mortes inúteis, mas com um pouquinho de construção Scalzi consegue transformar esse momento em algo f%$@ emocionalmente ou com algum significado maior. Deem só uma olhada no momento da morte de um dos personagens enquanto ele caía na atmosfera de um planeta:

   “Em seguida, Maggie virou-se, encarou o planeta que a mataria e, como a boa professora de religiões orientais que costumava ser, compôs um jisei, um poema de morte, na forma de haicai.

   Amigos, não chorem

   Caio uma estrela cadente

   Na próxima vida

   E essa é uma morte sem relação alguma com o plot “principal”.

   As famigeradas mortes para mostrar que alguém tem poder, para evidenciar uma situação de perigo ou que alguém não tem controle sobre seus atos. Geralmente um “figurante” morre nessa hora, ou até um personagem que ninguém liga. Minha ideia é: mate alguém que as pessoas vão sentir saudade! (no seu livro é claro, não na vida real rsrs)

Red-Shirt

O Personagem Marcado Para Morrer, de uma Forma ou de Outra…

   Existem dois extremos de quem está marcado para morrer: ou ele não tem importância nenhuma (sem diálogos, sem envolvimentos…) ou ele tem uma construção melodramática exagerada, mostrando família e filhos de uma hora para outra… essas duas são ruins quase que por igual. Existe um equilíbrio muito tênue a ser atingido aí.

   Uma solução é dar a esse personagem um tratamento igual ao que de qualquer outro. Construindo uma estrutura e relações que eventualmente vão ser destruídas. É isso que o povo quer ver.

    Pense duas vezes quando você vai matar alguém. Qual a possibilidade que vai trazer mais complicações para a vida dos seus protagonistas? E quais as que tem mais peso dramático? Geralmente essas são as melhores mortes para tornar a história irada!

   Na dúvida mate um personagem principal da história e veja o mundo pegar fogo ao redor dele. Vai ser muito mais interessante do que matar um coadjuvante…

Georginho