O filho de Cláudia tinha oito anos quando se perdeu da mãe. Cláudia não sabe precisamente há quanto tempo procura por Joaquim pelas ruas dessa cidade fantasma, o tempo é de percepção vaga quando ofuscado pela perspectiva de nunca mais ver sua a criança.

   Perdeu-se após um incêndio, e, desde então, nevava cinzas, chovia desespero. Todos temos nossos desafios na vida. O desafio de Cláudia poderia, por exemplo, ter chegado anos antes, no dia em que levou o filho para se despedir da avó no hospital, a mãe de Cláudia morreria horas depois. O desafio poderia também ter chegado quando seu marido abandonou a família, deixando-a sozinha com Joaquim, então com seis anos. Mas não. O real desafio da vida de Cláudia era o sentimento de culpa por perder o filho no shopping, na noite do grande incêndio, na sessão das sete e meia da estreia do filme “O Rei Leão”.

   Depois de um copo dos grandes de refrigerante de soda, saíra rapidamente para ir ao banheiro, deixando o filho sozinho – o menino enfeitiçado no telão – no auditório repleto de crianças; todas com os corações batendo juntos com os alegres acordes do “Hakuna Matata”. Cláudia mal subira o zíper e a fumaça abrasante já lhe enchia os pulmões. “Meu Deus!” Da entrada do banheiro já era possível ver as chamas refestelarem, lambendo as paredes e projetando as sombras de adultos e crianças correndo em pânico pelo saguão da praça de alimentação. O desespero de perder o filho em meio à multidão e ao fogo abraçou Cláudia por trás, o coração pulsante emitindo no peito as notas do mais assombroso medo para toda mãe. Um maremoto em alto-mar não lhe proporcionaria tanto terror quanto perder o único filho.

   – Joaquim! – ela mal se conscientizava de que corria e gritava, arrojando-se contra as chamas que rugiam. – Joaquim! – A obstinação era plena, mas os receios de ouvir o filho gritar no fogo ainda entoava uma nota grave de pânico. – Meu filho não vai morrer… não vai! – Haveria lágrimas se o calor excruciante do fogo não lhe despojasse a umidade dos olhos, dos lábios ressequidos.

   Mas Cláudia teria muito tempo para chorar. Dois anos, agora pode se lembrar, foram dois anos desde a noite do incêndio. Ainda pode ouvir a gritaria repercutindo em casa pesadelo, em casa busca vazia na escuridão sem barulho, sem “Hakuna Matata”. Diz habitar uma cidade e uma alma devastadas por um holocausto, sempre em busca do filho. Quando se é mãe, nunca se vive sem sentido. E era a fim de retrazer essa razão existencial que vagueia solitária ao longo das ruas fantasmas, desbravando uma agonia sem fim em busca de sua criança. O remorso lhe cravejando o espírito, a cada piscar, a cada bombear de coração, como álcool gotejando em uma ferida aberta. A ferida arde a cada madrugada ao acordar febril – dormia todas as noites no quarto do filho. Acordava tremula, chorando sozinha no escuro, com o urso de pelúcia do Simba abraçado contra os seios que um dia o amamentaram, que um dia o ninaram, que um dia o abraçaram… Sim, sua alma de fato se reduzira a uma cidade fantasma, a um auditório em cinzas ocupado por crianças mortas, corpinhos retorcidos pelo fogo…

   Agora, após dois anos, o telefone tocou. Cláudia atendeu e de repente sentiu as pernas estremecerem: era Joaquim do outro lado da linha. “Volte, mamãe!”, chorava o menino, engasgando-se em lágrimas. “Volte! Sinto sua falta, mamãe!” a ligação caiu… tu-tu-tu. “Joaquim, estou aqui! JOAQUIM!” Apossada por uma urgência ensandecida, logo se prontificou de rastrear a chamada: a ligação fora realizada da escola estadual da cidade. E pisou fundo no acelerador, o carro ziguezagueando entre o tráfego, ultrapassando sinais vermelhos, até derrapar em uma freada brusca no estacionamento do colégio. Andou ofegante, quase correndo pelos corredores, em destino ao escritório da diretora. Era o fim de uma tarde quente, o sol se desmaiava atrás dos jardins da escola já vazia. A brisa da noite crescia junto à melodia triste e aflita da esperança. Não havia secretária na recepção da diretoria. Cláudia, claro, precipitou-se em entrar na sala da diretora. Cláudia imediatamente empalideceu. Lágrimas lhe escorreram dos olhos.

   Sentadas no sofá, a diretora e uma mulher – presumivelmente uma psicóloga – conversavam com uma criança. O rapazinho devia ter entre nove e dez anos, tinha o rosto amparado nas próprias mãos: soluçava de tanto chorar.

   A assistente social do orfanato pousou a mão na mão da criança. Com ternura, fez com que o menino deprimido a olhasse.

   – Joaquim – ela lhe disse, afável. – Sei que formatamos muito severas com relação à morte, mas a morte não é algo tão terrível quando interpretada com positividade. Sua mãe deu a vida para salvá-lo de um incêndio, morreu por uma causa nobre. Igual ao Mufasa, lembra? Então, sempre quando você sentir saudade de sua mãe, pense em ter como princípio a nobreza pela qual sua mãe abriu mão da própria vida para salvar a sua. Sempre quando você agir com bondade e nobreza, estará afirmando para si mesmo que sua mãe continua viva, viva dentro de você. A vida tem muitas formas, e não é necessário estar literalmente vivo para existir. Entende?

   O menino, então, enxugou as lágrimas. Aquelas palavras lhe acalentando o peito em uma epifania suave e reconfortante. Suspirou fundo, um ar límpido, expirando lenta e gentilmente.

   Mãe, onde quer que esteja, você sempre será a minha Rainha Leoa.


   Junior Berts é um escritor romancista, se quiserem saber mais sobre o trabalho dele é só ficar ligado na página do facebook Júnior Berts. ^^

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