Atenção, o texto pode conter Spoilers. Boa leitura!


   Como as grandes histórias nascem? Aquelas que nos acompanham pelos anos e nos permitem viver como príncipes e bastardos, nos fazem sorrir e derramar lágrimas, além de permitirem reflexões sobre como a humanidade pode ser terrível e inspiradora ao mesmo tempo. A sétima temporada de Game of Thrones já começou, dando sequencia a trama iniciada na obra literária As Crônicas de Gelo e Fogo e a cada episódio somos surpreendidos mais e mais pelo valor da obra. Afinal, como o trabalho do escritor estadunidense George R. R. Martin alcançou tamanha qualidade? Os escritores que desejam superar a obra de Martin um dia devem saber que não conseguirão sem muita dedicação.

   Para começar, vale considerar que As Crônicas de Gelo e Fogo não é o primeiro trabalho de um autor inexperiente. George R. R. Martin iniciou o desenvolvimento da obra em 1991 e publicou A Guerra dos Tronos, em 1996 (já fazem 21 anos!) mas antes disso ele já era um escritor bem sucedido, escrevia roteiros para a TV e já havia ganhado alguns prêmios respeitados por trabalhos no gênero da ficção científica e fantasia.

   Apesar do reconhecimento, Martin possuía um público razoavelmente pequeno e ansiava por criar algo grandioso. Ele se sentia frustrado, pois, na época, trabalhava escrevendo para a televisão onde o curto orçamento, os cortes nos roteiros e as limitações de tempo cerceavam seu potencial.

 

  Eu queria fazer algo mais expansivo, algo épico, sem ter que me preocupar com o quão grande ele ia ser. Onde eu poderia ter personagens sem economizar no enredo e onde eu poderia ter um elenco de milhares de pessoas. Eu não teria que me preocupar com orçamento. Foi quase uma reação a meus dez anos na TV.

 – George R. R. Martin relatando o que o levou a desistir de ser um roteirista na época.

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Martin atualmente com 68 anos e cada vez mais projetos.

   Para isso, Martin pesquisou bastante. Ele alega que sempre se sentiu frustrado ao se deparar com livros com temática medieval cujos detalhes não condiziam com certas características da época. Mesmo ambientados em reinos com princesas e muralhas os romances possuíam a sensibilidade dos norte-americanos do século XX. Assim, ele buscou inspiração em livros históricos e conseguiu misturar elementos mais realistas com a temática da fantasia épica.

   O romance histórico francês Os Reis Malditos, de Maurice Druon foi uma obra que influenciou bastante a concepção de A Guerra dos Tronos. Dentre outros, temos livros sobre as Cruzadas, a guerra dos Cem Anos e a guerra das Rosas. Esta última, em especial, foi um conflito pelo trono da Inglaterra entre duas famílias, os York cujo símbolo era uma rosa branca e os Lancaster cujo símbolo era a rosa vermelha. Qualquer semelhança com os Stark e os Lannisters não é mera coincidência.

   Apesar da expectativa dos editores e do próprio George R. R. Martin para um grande número de vendas após o lançamento de A Guerra dos Tronos, o livro foi uma grande decepção, vendendo pouco. Entretanto, com o tempo se popularizou pelo boca a boca dos fãs e Martin deu sequência a saga. Inicialmente, tinha planos de fazer uma trilogia, mas depois percebeu que precisaria de mais dois livros, hoje, com cinco volumes já lançados, ele acredita que serão necessários sete no total para conceber o que tem em mente.

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Da esquerda para a direita: A Guerra dos Tronos, A Fúria de Reis, A Tormenta de Espadas, O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões. Todos compõem  As Crônicas de Gelo e Fogo lançados aqui no Brasil pela editora Leya.

   Como foi dito até aqui, As Crônicas de Gelo e Fogo vem sendo desenvolvida há mais de duas décadas. É fruto do esforço de um autor experiente que pesquisou muito para desenvolvê-la. De fato, a qualidade e o sucesso não são à toa. Mas existe outro fator que ajuda a explicar o porquê de Game of Thrones ser tão bom.

Atirando o leitor no caos

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Drogon e Daenerys em Meereen.

   Ao longo dos anos, diversas histórias de fantasia medieval surgiram. A maioria, apesar de propor mundos interessantes, seguiu arcos e fórmulas batidas e foram rapidamente esquecidas, mas As Crônicas de Gelo e Fogo agitaram o marasmo literário com algo que poucas obras conseguiram fazer: oferecer um enredo totalmente imprevisível. Acompanhamos diversos personagens em uma obra extensa e complexa, criando expectativas para o futuro deles, mas Martin conseguiu como ninguém quebrar a maioria delas. Podemos citar as famosas mortes dos protagonistas, as traições e alianças inesperadas, além das mudanças nos rumos de alguns personagens como quando (spoilers a seguir) Daenerys decidiu governar em Meereen em vez de seguir seu plano inicial de atacar Westeros, além de Jaime Lannister que se voltou contra Cersei no final de A Dança com Dragões. (Fim do spoiler)

  Todas essas quebras de expectativa são feitas justamente para contrariar aquilo que os leitores esperam. Elas nos jogaram no meio do caos várias vezes, onde não fazíamos ideia de aonde o enredo iria nos levar. Essa sensação de insegurança constante é o que há de mais excitante na obra em si. E só funciona, pois temos personagens coerentes, com arcos bem construídos, além de sentirmos, apesar das incertezas, que a história caminha. Os personagens nunca param de se desenvolver. E o Lema inexorável da Casa Stark se confirma cada vez mais como uma ameaça apocalíptica: “O Inverno está chegando.”

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Sobreviveremos a ele?

   Assim, a série herdou um enredo maravilhoso que causou muito impacto, especialmente, porque na TV nos acostumados a ver finais felizes. Embora as mudanças entre ela e o livro tenham gerado problemas no desenvolvimento e coerência de alguns personagens, a dramatização conseguiu ser tão surpreendente quanto a obra literária. Agora, é aguardar pelo desfecho cada vez mais próximo. Creio que ainda vamos nos impressionar muito com o que está por vir.


Até breve e Valar Morghulis!