Este post faz parte da série Manual do Escritor da Taverna. Caso você queira ler o artigo anterior sobre como fugir da escrita amadora, basta clicar aqui.


 E então, depois de dar uma boa olhada na sinopse, você abre um livro que te deixou ansioso para começar a leitura.

 Logo na primeira página, o protagonista encontra um mago misterioso… Que passa as próximas vinte páginas explicando as bases e o funcionamento do mundo que eles habitam, e outras trinta contando a história daquelas terras desde o início dos tempos. Enquanto isso o protagonista fica ali, sentado, ouvindo história. Achei que iria ser uma aventura…

 Pode ser um dos melhores mundos fantásticos já criados, mas essa abordagem deixa a história indigesta e entediante. É a fórmula perfeita para fazer o leitor largar o livro.

 Mas por que alguns escritores fazem isso? Como eu já cometi este erro, e vi amigos o cometerem também, posso dizer algumas coisas sobre o que passa na cabeça de quem faz isso.

 Depois de meses trabalhando para construir um mundo fictício e escrevendo sobre aqueles que o habitam, o autor quer que seus leitores fiquem tão entusiasmados quanto ele quando lerem sobre o lugar. Então ele quer mostrar o quão fantástico tudo é, contando o que aconteceu antes da história começar em uma longa interação no prólogo. Que fica indigesto.

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Nota: Mesmo Tolkien, detalhista como era, não jogou todo o conteúdo do Silmarillion no prólogo de O Hobbit – ele cuidou para manter uma história interessante com ritmo agradável acima de tudo.

 Uma forma de sair disso é, ao apresentar um novo conhecimento sobre o seu cenário ao leitor, perguntar-se “o conhecimento que revelei aqui afeta o desenvolvimento da história da maneira que eu quero?”” e “o leitor precisa saber disto nesse momento?”. Se ambas tiverem respostas positivas, pode colocar ele ali! Se não, melhor pensar em reformular a apresentação ou deixar para adiante. Afinal, o melhor de um mundo novo é explorá-lo, e temos um livro inteiro para descobrir sobre ele.

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 Exemplo: Ninguém sabia o que era uma Horcrux quando Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado. Precisávamos saber, logo neste primeiro livro, o que era? Não, até porque alguns conflitos com o Voldemort nos próximos volumes poderiam perder a emoção, e a história provavelmente acabaria mais cedo, considerando o quão rápido as restantes foram eliminadas quando os personagens ficaram cientes delas. Foi bom descobrir o que elas eram lá no sexto livro, e que alguns objetos destruídos na história eram horcruxes? Foi.

 E o que pode ser feito para manter o leitor interessado em um mundo desconhecido? Você constrói uma boa estrutura para sua história.

 Uma forma de entender a estrutura da história sem muitas fórmulas, aulas de escrita, ou copiando de outros autores, é pensar que toda vez que você faz uma pergunta ou cria algum tipo de conflito na sua narrativa, você está fazendo uma promessa. O leitor espera que elas sejam cumpridas de alguma forma até o fim do livro, ou da saga.

 Exemplo: Nas Crônicas de Gelo e Fogo, logo no início do primeiro livro, a frase “o inverno está chegando” é repetida múltiplas vezes, e por personagens diferentes. O leitor espera que o inverno chegue em algum momento (mesmo que leve uns cinco livros pra acontecer, mas isso é problema do Tio Martin).

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A espera compensa… eventualmente.

 No primeiro ato de sua história, você deve apresentar a Maior Promessa da história. Ela só será cumprida no final, e dá o foco da trama. Ou seja, além de apresentar os personagens, você escreve que um deles tem a meta de fazer coisa x, o leitor espera que ele faça a coisa x no clímax da história.

 Exemplo: No filme da Mulher Maravilha, ela abandona o lar e acompanha um completo estranho, no intuito de destruir Ares. O expectador já espera que, próximo do fim da trama, o clímax seja a luta entre Diana e Ares, e acharia muito estranho se fosse diferente.

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 Nota: É possível construir uma história que quebra a principal expectativa do leitor, criando o tal anticlímax. Mas cuidado – se executada errado, ela vai apenas frustrar quem a lê.

 Assim que esta promessa fica estabelecida, pergunte-se “que outras promessas eu posso fazer e cumprir ao longo da história?” e assim você cria sub tramas, que, acompanhando outros personagens, expandem o mundo e abrem a visão do leitor sobre a sua história. Você as apresenta durante o caminhar da história, e as usa para progredir o avanço da trama até o cumprir da Maior Promessa.

 Mas lembre-se: elas não podem tirar o foco da Maior Promessa, ou ser totalmente desconexas dela, senão você vai apenas confundir o leitor e a história fica sem pé nem cabeça.

 As promessas também servem para, e quem diria, manter o leitor atento no início da história.

 Se no prólogo ou primeiro capítulo você faz uma promessa sobre o tom da história (como por exemplo, um livro de aventura começar com o final de uma aventura anterior, ou um a trama policial com o assassinato que a põe em movimento) eles sabem o que esperar daquela história e ficam mais interessados em passar pelos capítulos introdutórios para chegar à ação.

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 E se a promessa de tom não for feita corretamente, pode ser desastroso. Já pensou abrir um livro, achando que é de terror, só para descobrir no terceiro capítulo que é uma comédia romântica?

Isto tudo evita que você “abra o jogo” todo sobre o desenvolvimento de seu mundo já no primeiro capítulo.

 Proponho um exercício: Encontre um texto antigo seu e o releia. Pense como ele poderia ser melhor estruturado, fazendo as seguintes perguntas:

  • “O conhecimento que revelei aqui afeta o desenvolvimento da história da maneira que eu quero?”
  • “O leitor precisa saber disto nesse momento?”
  • “A Maior Promessa que eu fiz foi cumprida?”
  • “As promessas menores adicionam conteúdo à minha narrativa ou só confundem o leitor?”

 Se necessário, o reescreva. Assim, você aprenderá algumas coisas sobre o desenvolvimento de uma narrativa. Afinal, mesmo com as dicas que eu dei aqui, a escrita só progride se for praticada.

Espero que tenha ajudado a esclarecer o básico da construção de uma narrativa! Obrigada por acompanhar a minha primeira publicação aqui na Taverna, e lembrem-se, mantenham suas promessas!


 Olá , meu nome é Letícia, e sou a nova colaboradora da Taverna. Fico muito feliz de participar do site! Se você gostou do meu post, não esqueça de checar o meu blog pessoal, Momento de Ficção! Espero publicar uma ou duas vezes por mês aqui na Taverna, então fiquem ligados 😉