Minha história favorita é melhor que a sua história favorita. Essa afirmação tem sido trocada várias vezes entre os fãs de Star Trek e os de Star Wars, entre os de Crepúsculo e Vampire Diaries, Marvel e DC, e também tem sido dita entre os fãs de Game of Thrones e de O Senhor dos Anéis. Então, vamos levar isso à diante, analisar o último caso e talvez isso nos mostre algo sobre todos.

  O Senhor dos Anéis ou Game of Thrones, qual é o melhor?

  Ambas as obras são do gênero da fantasia épica. Elas são inspiradas na Europa medieval, têm nas histórias de seus mundos eras e eras com fatos minuciosamente construídos, exploram várias culturas, criaturas mágicas, e uma numerosa quantidade de personagens diferentes. Entretanto, apesar dos pontos em comum, o contraste entre as duas obras é enorme. A grande maioria das pessoas conhece O senhor dos Anéis pela adaptação do diretor Peter Jackson para o cinema, ao passo que, As Crônicas de Gelo e Fogo alcançou o grande público através da série Game of Thrones.  Mas, se nós vamos discutir as diferenças de ambas, acredito ser mais justo fazê-lo focando nas obras originais literárias porque o filme e o programa de TV são adaptações.

  Em As Crônicas de Gelo e Fogo, escrito por George R. R. Martin, o narrador nos apresenta uma história sem filtros lemos sobre sexo, assassinatos e todo tipo de violência, entre estupros, torturas e muito mais… Há uma disputa eterna por poder e riqueza que desencadeia traições e alianças a todo momento.

  Em O senhor dos Anéis, escrito por J. R. R.  Tolkien, há alguns personagens que também disputam entre si por riquezas e poder, mas não há a exposição aos temas mais obscuros. Aqui, os problemas mais sérios costumam girar em torno de uma ameaça maligna cujo desejo de dominação e destruição põe a Terra Média em risco.

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O bem e o mal são muito mais claros na Saga do Anel.

  A escolha dos problemas abordados influencia diretamente na psicologia dos personagens. Então, na obra de Martin, temos personagens inseridos em temas complexos e muitas vezes eles demonstram seu lado mau, apesar dos protagonistas possuírem, em geral, uma conduta guiada pela honra e moral. A grande, surpresa ocorre quando temos a oportunidade de ler capítulos com o ponto de vista dos vilões e percebemos que muitas de suas atitudes são compreensíveis e que eles são mais humanos do que imaginávamos.

  Na obra de Tolkien, os tons de cinza então lá de forma mais sutil. A ganância, a sede de poder, a solidão, a insegurança e o medo são temas mais recorrentes.  Aqui há, principalmente, o Um Anel, cuja magia aguça a maldade dos personagens, fazendo-os revelar o que há de mais terrível em seus corações. Alguns com propensão caem rapidamente como Smeagol, outros tentam resistir o máximo que podem como nobre Boromir.

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Sean Bean. Esse ator sabe encenar mortes como ninguém.

  Os personagens de Martin são melhores que os de Tolkien?

  Não. Ambos são muito bem desenvolvidos naquilo que os autores propõem. Você pode argumentar que os personagens de Westeros são mais realistas que os da Terra Média, comparando com nosso mundo, no entanto, a proposta da Literatura Fantástica é justamente criar um distanciamento maravilhoso com a realidade. Tolkien procurou escrever inspirado na mitologia e nas histórias épicas, enquanto Martin buscou inspiração em romances históricos. Os personagens da Terra Média têm grande verossimilhança naquilo que Tolkien criou. Lembre-se que em O Senhor dos Anéis nós acompanhamos a jornada de pessoas com cerca de 1m de altura, pés peludos, orelhas pontudas e, ainda assim, você sente que eles fazem sentido e se importa com eles.

  Ambas são obras de fantasia sim, mas com propostas muito diferentes. Comparar os dois trabalhos é complicado. Tolkien deu sequência ao livro O Hobbit, escrito para os filhos, e assim nasceu O Senhor dos Anéis. Se você deseja ler uma obra mais violenta e de realismo cru, As Crônicas de Gelo e Fogo são para você, mas se esses elementos te incomodam e você quer se aventurar por um mundo extremamente detalhado e mágico, a obra de Tolkien é uma opção melhor.

  Além disso, A Sociedade do Anel, primeiro livro da trilogia do anel, foi lançado em 1954, enquanto A Guerra dos Tronos saiu em 1996. Em 42 anos, as mudanças na literatura foram muito significativas. Guerra dos tronos está mais próximo do modo de escrever com a qual estamos habituados hoje em dia tanto em enredo quanto em estrutura, mas isso não desqualifica uma obra ou a outra.

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Na Terra Média, dificilmente, você montaria um dragão, mas em Westeros, quem sabe?

  Legado

  Chegamos agora a um ponto importante. Após 1954, o mundo literário foi chacoalhado com a obra de Tolkien. O Senhor dos Anéis influenciou a fantasia de modo profundo, lançou as bases de um estilo literário e fomentou ideias na cabeça das gerações futuras.  As Crônicas de Gelo e Fogo, como tantas outras obras, é fortemente inspirada em O Senhor dos Anéis e George R. R. Martin admite categoricamente isso:

   “Tolkien nos deu personagens maravilhosos, prosa evocativa. Algumas aventuras animadas e batalhas excitantes… mas acima de tudo é do mundo que lembramos mais. Eu tenho sido conhecido por dizer que na fantasia contemporânea o cenário se tornou um personagem com seu próprio modo de ser. Foi Tolkien que o fez assim.”
“Muitos dos fantasistas contemporâneos felizmente admitem seus débitos com o mestre (entre esse número definitivamente me incluo), mas até mesmo aqueles que denigrem Tolkien, mais ainda não podem escapar de suas influências.”

Trecho de introdução de Meditations of Middle-earth: New Writing on the Worlds of J. R. R. Tolkien escrito por George R. R. Martin. 

Até mesmo quando se trata das famosas mortes dos personagens Martin diz ter se inspirado na obra de Tolkien como mencionado em entrevista para a “ENTERTAINMENT WEEKLY”:

 EW: “Se você tivesse escrito “Senhor dos Anéis”, Gandalf teria continuado morto após as minas de Moria?”

Martin: “Sim, ele teria. Eu tenho muito crédito por matar minhas personagens, mas Tolkien realmente fez isso primeiro em alguns aspectos que me inspiraram. E então Tolkien fez isso de novo no fim do segundo livro, quando ele, aparentemente, mata Frodo, apesar de ter sido uma simulação.”

   Ademais, podemos ter uma ideia de como O senhor dos anéis influenciará o desfecho de As Crônicas de Gelo e Fogo, graças a entrevista dada por Martin ao jornal inglês “The Observer”:

   “O tom do final para onde estou indo é agridoce. Quer dizer, não é nenhum segredo que Tolkien tem me influenciado muito e eu amo o jeito com que ele encerrou ‘Senhor dos anéis’. Ele termina com a vitória, mas é uma vitória agridoce, Frodo nunca mais é o mesmo novamente, ele vai embora para as Terras Imortais e as outras pessoas seguem com suas vidas. Eu não entendia quando eu tinha 13 anos: ‘Por que isso está aqui? A história acabou?’, mas cada vez que eu leio eu entendo o brilho dessa parte de forma melhor… Tudo o que posso dizer é que esse é o tipo de tom que estou buscando. Se eu vou conseguir ou não, caberá a pessoas como você e os meus leitores julgar.”

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O que nos reserva o futuro?

   Como foi dito, comparar as duas obras é um trabalho complicado. Assim como a obra de Tolkien foi muito importante para a literatura fantástica, a obra de Martin tem se mostrado cada vez mais influente na nossa cultura hoje em dia, mas o impacto real que As Crônicas de Gelo e Fogo causarão só poderá ser medido daqui a alguns anos no futuro. Teremos de esperar para ver.

  Por fim, falando das histórias, de um modo geral, podemos analisar friamente o contexto histórico, os temas da obra e sua complexidade, além do impacto delas na cultura, mas, na maioria das discussões,  o que é bom e ruim será sempre subjetivo e, provavelmente, todos os argumentos não levarão a nada. Pense bem,  nem mesmo a crítica especializada chega sempre a um consenso. Então, desculpem-me, só vocês podem responder a pergunta que eu propus no título.


Até a próxima e Valar Morghulis! (Ou seria Valar Morgul?)