Em A Infância do Brasil, o premiado quadrinista José Aguiar lança seu olhar sobre a História do Brasil não pela perspectiva dos grandes eventos, mas pela das pessoas comuns, pelo viés da infância.

   Nela o autor atravessa nossa história cheia de contradições, abusos, descaso, abandono, entre outras situações que insistem em não ficar para trás. A Infância do Brasil é sobre refletir o presente a partir do nosso passado para, quem sabe, projetarmos um futuro melhor.

   Esta edição ainda conta com prefácio da historiadora Mary del Priore e textos finais sobre o contexto histórico de cada capítulo.

   Essa HQ foge um pouco do que eu estou acostumado a falar por aqui. Ela é sentimental, crítica e sublime. Esse é um quadrinho que merece ser conhecido! Escrita e desenhada pelo José Aguiar e lançada pela AVEC Editora!

   Ela não tem uma história exatamente linear e nem protagonistas como estamos acostumados. Ela conta a história em diversas linhas do tempo diferentes e, em cada uma delas, existem alguns personagens para ilustrar certas situações, mas o plano geral é o que importa, não o individual.

   Eu acho que vale dizer que o grande protagonista dessa HQ é o Brasil, e lentamente vamos acompanhando o desenvolvimento dele durante essa grande narrativa que é a nossa história. E o principal, sempre através do ponto de vista do mais sensível e importante na nossa sociedade: o das crianças.

Infancia (9)

   Temos aqui uma divisão em seis capítulos, cada um se passando em um século da nossa história e retratando uma realidade mais difícil daquele período.

   Nascer, o primeiro capítulo, começa no século XVI no começo da colonização do Brasil, acompanhamos o nascimento de uma criança em uma terra bruta e cheia de promessas.

   Trocar, o segundo capítulo, mostra o século XVII, acompanhando a catequização de índios e o tratamento duro que o esse povo teve aqui nesse país e, infelizmente, continua tendo.

   No terceiro capítulo, Delegar, vamos para o século XVIII, onde vemos o abandono de uma criança e a dura vida nas ruas.

   No século XIX tínhamos um período onde a escravidão estava começando a cair no mundo, mas os homens no poder ainda faziam de tudo para manter a escravidão, principalmente esmagando o espírito de luta dos negros. É isso que vemos no capítulo quatro, Reter.

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   No capítulo cinco, Responsabilizar, vamos ao início do século XX, com o aumento das indústrias brasileiras e a exploração de emigrantes e pobres que não tinham outra opção além de se submeter para ter o que comer.

   E por último temos o capítulo Perpetuar, que se passa no século XXI e mostra um panorama geral de como esse século nasceu com muito barulho pelos direitos humanos e igualdade, mas ainda assim muita coisa contínua a mesma, uma herança dos séculos passados. O novo século ainda é uma criança com muitas possibilidades para o seu futuro.

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   Ao final de cada capítulo temos um vislumbre da época atual e de como aquela temática tão barbara ainda afeta a nossa realidade.

   A arte dessa HQ é cartunesca, o que da um tom lúdico a tudo. Escolha interessante se tratando do mundo das crianças o mais retratado aqui. O texto é simples e profundo. Ele não narra mais do que o necessário, deixando a cargo das situações apresentarem todo o subtexto por trás das palavras não ditas. O texto e a arte estão de parabéns! ^^

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   Além disso, temos também um apêndice escrito pela historiadora Claudia Regina B. Moreira, que contextualizou cada momento histórico mostrado nos capítulos. Esse apêndice é uma aula de sabedoria e história e complementou muito bem o resto dessa HQ, fazendo dela uma obra completa para qualquer um que deseja se aprofundar um pouco mais nas origens desse país.

   Essa HQ é uma obra sublime, onde temas pesados que acreditamos estarem só no nosso passado são revelados ainda intrínsecos em nossa sociedade e na nossa maneira de pensar. Uma obra para pensar, refletir e, principalmente, melhorar, tanto quanto pessoas quanto como um país.

Capa comum: 96 páginas
Editora: Avec; Edição: 1 (15 de julho de 2017)

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nota5

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