Antes da criação do homem, quando o mundo se resumia a um oceano de vida sem rumo, eis que o criador da sequência ao seu maior feito.

   O jardim do Éden era grandioso, com plantas diversas a se perderem de vista e tantos animais, quanto pudessem ser contados. Mas o ciclo da vida precisava de mais para continuar. A opulência do sol queimava as frágeis plantas, tornando infindável o trabalho do criador. O rutilar da lua não permitia que o cansaço acometesse os animais, os transformando em feras ensandecidas que jamais dormiam.

   Para consumar seu trabalho, o criador decretou que daquele dia, até o dia que o Éden estivesse pronto, quatro seres criados da sua pura luz seriam os responsáveis pela manutenção do jardim.

   Solai, Yadra, Mirída e Tedun eram seres espectrais com a semelhança daquele que os criaram e quase tão brilhantes quanto o próprio. Yadra e Mirída foram incumbidas de levar o frescor das brisas até as plantas sofridas e faziam isso com uma dança graciosa e exuberante durante todo o dia. Solai e Tedun também tinham seu papel, porém só o exerciam quando a lua roubava o lugar do sol, com a obrigação de acalentar os ânimos das feras, com canções doces e melodiosas.

   Apesar de todos os quatro serem provenientes do mesmo criador, Solai, Yadra, Mirída e Tedun não tinham a permissão de ver uns aos outros e viviam sob esse decreto.

   O trabalho era incessante durante os dias e noites e dispondo-se em diferentes lugares, bem afastados um do outro, eles faziam aquilo que foram criados para fazer.

   Yadra e Mirída trabalhavam com seus movimentos, mas não deixavam de observar a natureza ao seu redor. Viam as árvores crescerem e tornarem-se frondosas, mas também viam as flores crescendo e se perdendo do dia para a noite, os frutos tomando forma e caindo em desuso sobre o chão que os devorava. Solai e Tedun, por sua vez, com suas canções, sempre acalmavam a agitação dos animais, mas observavam que independentemente do esforço que fizessem, não conseguiam fazer com que os animais parassem de comer uns aos outros. Tais vislumbres em seus cotidianos não faziam do trabalho a ser empenhado frustrado, pois nada sentiam eles ao ver aquilo.

    O criador pouco aparecia no Éden e quando o fazia, reunia a todas para proferir e profetizar palavras sobre o andamento do trabalho de cada um. Mas fora as reuniões sob o olhar atento do criador, os dias e noites de cada um se estendia trabalhoso e solitário.

   Os dias passaram e transformaram-se em semanas, depois meses, até se tornarem anos. Durante esse tempo, cada um dos quatro exerceu seu trabalho com fervor e empenho, na ânsia de ser elogiado pelo criador. O Éden já passara de um vale de animais enfurecidos e plantas queimadas, para uma vastidão de vida e cores que iam de horizonte a horizonte, até onde os olhos enxergavam.

   Certo dia, após anos sem fazer presença, o criador surgiu e reuniu a todos para dar-lhes a boa nova.

   — Criações? — Falou o criador tendo os quatro como seu público. — Alegro-me em ver o Éden, alegro-me em ver cada um de vocês! Vim-lhes anunciar, que falta pouco para que o trabalho se finde e vocês enfim descansem ao meu lado. Sei que a batalha é árdua, solitária e penosa, mas qual merecimento ao alento, teriam vocês, se não fosse por esse caminho? Mas não é tempo de descansar-vos, pelo contrário. Quando os dispus pelo éden, fiz com cada um ficasse o mais longe um dou outro, pois conheço bem aqueles que criei. Sei bem que a tentação os acometeria cedo ou tarde, e preferi adiá-la, pois assim o tempo os inundaria com a sabedoria necessária para combaterem o male que esta por vir.

   — Criador? — Empertigou Yadra. — O que és tão difícil quanto passar anos tendo como guia apenas os pensamentos?

   — Yadra, Luz da minha luz! Sei que acreditas que nada é tão ruim quanto as vicissitudes que nos acompanham, mas pergunto-te: Os fortes são aqueles com problemas menores, ou aqueles que dissolvem os seus independentemente do tamanho? Digo-lhe mais: Se manterdes desse pensamento, não merecera os tesouros que preparei a vocês.

   Naquele momento, Yadra sentiu algo estranho. Era como se um grande pesar sem peso a puxasse para o rumo do chão.

   — Isso que sentes agora, chama-se arrependimento! — falou o criador. — Isso é um sentimento! Um dos mais poderosos, que pode te levar do ouro à lama antes mesmo que aquele sol se afunde no horizonte.

   — Criador, nós estamos preparados para tanto? — foi a pergunta de Tedun.

   — Tedun, Filho da lua! Ainda que a preparação seja infinita, o resultado da prova, só vem após a prova! De onde eu estava, acompanhei os passos de cada um de vocês e vi o quanto são capazes de suportar, mas o que esta por vir, será novo e difícil. Sejam fortes e acreditem, pois só assim passarão por essa última prova.

   — Esses tais sentimentos virão nessa próxima etapa? — perguntou Mirída.

   — Mirída, O Vento a Soprar! Sim, são eles que virão daqui para frente! Tome cuidado com os dias que estão por vir. Dúvidas venenosas os acompanharão, por isso, vigiem. Cautela! Cautela é a palavra.

   — Acredito estar pronto para essa nova etapa, criador! — Solai reluziu mais que o normal ao dizer aquilo.

   — Solai, A Canção das Estrelas! Veja você mesmo o quanto a alegria faz resplandecer aqueles que a acolhem, mas assim como a noite serena toma o lugar do dia majestoso, a tristeza sem controle, ofusca o brilho da confiança.

   Cada um deles tentou absorver o máximo das palavras do criador. Apesar de a maioria deles não acreditar nas tais dificuldades, ficar sem ver ou ouvir os outros durante anos, era o suficiente para que memorizassem cada detalhe dessas reuniões.

   — De hoje, até o fim dos dias, permito que os sentimentos se instalem no Éden. Permito também que de agora em diante vocês se vejam, mas não permito que se toquem. De agora em diante, podem invocar a mim, sempre que necessário, mas lembrem-se: Somente quando necessário.

   Daquele momento em diante cada um voltou aos seus afazeres.

   O primeiro dia com os sentimentos rendeu poucas e boas para Yadra. Uma felicidade radiante a tomava sempre que uma flor desabrochava diante de suas vistas, mas da mesma maneira que ela vinha reluzente, ia arrebatadora sempre que tais flores secavam e lançavam suas pétalas ao ritmo da sua dança.

   — Ó criador, porque não criaste flores eternas? Porque permitíeis que tão lindas vidas se despedaçassem nesse ciclo interminável?

   — Yadra, Luz da Minha Luz! Essa morada na qual vives é apenas uma das infinitas que criei. O ciclo da vida necessita de renovação e, sem a morte, nada se renova. Você se entristece por aqueles que se vão, mas não se alegra por aqueles que chegam. Qual a lógica nisso?

   Yadra pensou e voltou aos seus afazeres. No fundo, a tristeza que sentia ao ver a morte era a mesma, mas as palavras do criador surtiram efeito suficiente para ela se alegrar a cada novo desabrochar.

   Do lugar onde estava Mirída não alegrou-se ao ver o trabalho de Yadra. As plantas cuidadas por Yadra estavam bem melhores que as suas, e ela não entendia por que, mas não gostava do que via. Então para saber o motivo daquilo, o criador ela chamou.

   — Ó criador, que justiça é essa, que faz do meu trabalho menor que o de Yadra?

   — Mirída, O Vento a Soprar! Acreditas que teu empenho tenha sido menor que o de Yadra? Pois se nisso crês, empenha-te mais para não dar fios ao tear da inveja. Ela a consumirá, tirando o rumo dos seus passos e transformará sua vida em um eterno rastejo sem fim.

   Bastou o criador retirar-se, para Mirída voltar a cultivar seus anseios. Ela não entendia, mas ainda que mil imagens passassem diante de si, a única na qual ela conseguia se concentrar era a imagem de Yadra. Sempre dançando reluzente e majestosa. Mirída odiava aquilo e passou a ver como um empecilho em seu caminho.

   O sol mais uma vez se afundava no horizonte e era hora de Tedun sair e cantar. O lindo entardecer já tomava conta da natureza quando Tedun teve o vislumbre de sua vida.

   Diante dos seus olhos, a magia dos ventos corria pelos campos ao ritmo de Yadra. Com leveza e uma suavidade impossível de se descrever, ela lançava luzes pelos campos por onde dançava com inúmeros giros e cambrés sequenciados. Tedun não entendia como Yadra, que sempre esteve ao seu alcance, podia deixá-lo daquele jeito. Mas aquela não parecia a mesma Yadra que ele sempre encontrava nas reuniões.

   — Ó criador, explica-me que sentimento é esse! Explica-me por que anseio tanto aquela que foi criada junto a mim!

   — Tedun, O Filho da Lua! Despertastes em ti o sentimento mais avassalador de todos. A paixão. Sei que agora deixarias parte de ti, para celebrar a vida ao lado de quem anseia. Mas a paixão é como um oceano, vasto e lindo, porém, assim como o oceano, a paixão tem momentos tempestuosos que te afogam e matam se você não souber nadar.

   Tedun acreditava fielmente nas palavras do criador, mas como agir perante aquela novidade? Naquela noite em especial, Tedun não tirou a imagem de Yadra da cabeça. Suas canções soaram estranhas e ele não entendeu o porquê dos animas ao seu redor terem dormido tão mais tranquilamente.

   E outro canto do Éden, Solai cantava como de costume. Mas uma imagem estava prestes a mudar sua serenata.

   Uma lebre tão branca quanto à própria lua, pousava calma e serena sobre uma pedra. A pobre lebre estava desavisada do perigo que a rondava e não sabia que um feroz lobo já a marcara como vítima. Ao ver aquilo, sem nem mesmo saber o porquê, Solai correu desesperadamente de encontro à lebre na ânsia de salvá-la das garras do lobo. Vendo que não teria tempo para chegar até a lebre, Solai tomou posse de um galho seco e atravessou o lobo com um único golpe.

   — Ó criador, por que trazes-te ao Éden feras que comem tão lindos animais?

   — Solai, A Canção das Estrelas! Perante aos meus olhos, toda vida é igual! Sua piedade acredita ter salvado uma vida, mas digo-lhe que arrancou dez. Essa lebre que toma nos braços é jovem e ainda nem sequer procriou, já a loba que mataste, tinha uma ninhada de nove esperando por essa carne! Questiona aquilo que faço sem nem mesmo menear as vistas ao seu redor para ver que minha criação é perfeita. Arrepende-te do que fizeste, peneire seus pensamentos e continue seu trabalho.

   O criador não precisou falar mais nada para Solai voltar a fazer seus afazeres. Ele ainda não se contentava com os ataques que presenciava, mas pensava ser melhor esquecer aquilo e deixar a vida seguir seu curso.

   Os dias correram.

   Yadra já havia se contentado com as flores que iam e vinham, mas se deparava com outro impasse. Durante outros entardeceres, ela notou que Tedun a observava de maneira diferente. Ela não sabia o porquê, mas sentia-se agradada por aqueles olhares. Por também pensar em Tedun o dia inteiro, Yadra dançava mais feliz e deixava a fauna ao seu redor ainda mais esplendorosa.

   Mirída não fazia nada, que não fosse pensar em destruir o trabalho de Yadra. Sua vontade maior era atacar sua parceira diurna, mas o criador havia sido bem claro quanto ao fato de não poderem se tocar. E para afetar aquela que tanto a desagradava, Mirída invadia o território de Yadra para tentar reverter os efeitos da dança. Na maioria das vezes não conseguia nada e acabava deixando a verdadeira destruição para o seu próprio território.

   Solai já não interferia na natureza noturna. Ele apenas cantava e tentava cerrar os olhos para o que acontecia fora de suas obrigações.

   Tedun não conseguia mais fazer nada com plenitude. Suas noites voavam assim como seus pensamentos em Yadra. Nenhuma canção saia mais por sua boca e os animais ao seu entorno padeciam por isso. Tedun via as feras digladiando-se, mas sentia suas forças exauridas pelo sentimento não correspondido. Por várias vezes ele chamou o criador, mas em nenhuma delas foi atendido. Talvez o criador não julgasse suas súplicas necessárias, era o que Tedun acreditava.

   — Ó criador, permita que eu tome Yadra em meus braços ou arranca de mim esse sentimento! Se fores mesmo aquele que cria o bem, ajuda-me ou atira-me à lama de uma vez por todas, para que eu viva como os porcos, que são felizes com tão pouco.

   — Tedun, Filho da Lua! Preferes viver como um porco a ter que encarar a verdade sobre a qual vives? Se essa paixão te prejudica sem nem mesmo precisar tocar-lhe, porque me pedes pra tê-la em seus braços? Não permito tal paixão, pois nem vocês, nem meu jardim estão prontos para tanto. Mas se quiseres provar da minha fúria, desobedece-me!

   Naquela noite Tedun esperou o dia se mostrar e não aguentou segurar aquilo que o acometia. Ele então foi de encontro a Yadra e abriu-lhe o coração como nunca havia feito com ninguém. Yadra se emocionou, pois também ainda não havia provado da reciprocidade de tal sentimento. Ambos envaidaram-se de felicidade e o resultado foi um forte abraço. Mas o decreto sob o qual viviam ainda era lei e o resultado da desobediência veio à tona.

   Aos poucos seus corpos foram perdendo o brilho até ficarem completamente opacos. A luz que deles irradiava agora se assemelhava a uma pedra sem vida. Seus pés enraizaram-se e dos seus corpos, brotaram galhos. Nos galhos não se viam folhas, mas lindas frutas vermelhas cresceram suculentas e atrativas.

   — Por que desobedeceram-me? Faltava tão pouco para o fim da prova. — falou o criador ao ver aquela arvore estranha em meio ao seu paraíso.

   Por trás dos seus ombros, eis que Mirída surgiu sorrateira e feliz pela cena dos amaldiçoados.

   — Esse é o preço que se paga por desobedecer! — disse ela aos risos.

   — Mirída, O Vento a Soprar! Pensas que não vi sua inveja envenenar meu jardim? Qual motivo eu teria para guardar uma maçã podre em meio a minha colheita? De hoje até o fim dos dias, você rastejará fazendo o que faz de melhor, salpicará seu veneno por onde os caminhos te levem e será odiada por isso!

   E as palavras do criador fizeram-se verdade. Mirída tornou-se uma cobra tão feia quanto à própria inveja,

   Restando-lhe apenas uma das suas criações, eis que o criador foi em busca de Solai.

   — Solai, A Canção das Estrelas! Bem aventurados aqueles que seguem os meus passos! Foi forte e agora é merecedor do descanso.

   Uma luz ainda mais forte ofuscou os olhos de Solai. Quando ele voltou a si, seu corpo estava diferente. Ele era perfeitamente a imagem e semelhança daquele diante dos seus olhos, porém longas e belas asas farfalhavam ao vento em suas costas.

   — De agora em diante, eu revogo sua vida e missão! — decretou o criador. — Suas lembranças serão apagadas e seu nome revogado. Agora voe livre como os pássaros meu filho e proteja o novo Éden! Voe Lúcifer, voe!

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Eduardo da Costa Mendes é um escritor iniciante, se quiser saber mais sobre o trabalho dele é só ficar ligado no Facebook dele! ^^

Download PDF: As Luzes do Éden, de Eduardo da Costa Mendes [Conto]