Este post faz parte de uma série cujo objetivo é servir de guia e oferecer dicas para escritores iniciantes. Caso você queira conferir o artigo anterior, clique em “Cumprindo suas Promessas“. Boa leitura!


   Escrever difícil é uma arte controversa. Existem escritores que oferecem ao leitor uma estrada enevoada através das páginas de seus livros. Estradas pelas quais o leitor levará pouco na primeira leitura, fará um passeio mais esclarecedor na segunda, e, na terceira, talvez, assimile por completo o encanto da paisagem.

   Um texto difícil é para aqueles leitores casuais que gostam de desafios ou para os aquele leitores que realmente apreciam uma obra mais rebuscada. Se você é um autor iniciante, seu objetivo agora provavelmente é conquistar um púbico e pode ser uma péssima ideia tentar essa abordagem mais elitista. A verdade é que as leituras simples em si já são desafiadoras para muita gente no nosso país, um trabalho recheado com palavras sofisticadas, pouco usuais e muito antigas pode ser um tormento para a maioria delas. Para conquistar um público considerável, o escritor iniciante deve ser claro e o mais acessível dentro daquilo que se propõe a fazer.

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Quer um desafio?Ulysses de James Joyce. Uma obra muito estudada e cultuada.

   Talvez isso vá de encontro ao sonho de escrever como um autor clássico. Entretanto, esses artistas consagrados viveram em outras épocas nas quais a escrita se diferencia da atual assim como a fala. Enquanto um idioma é falado numa sociedade, ele vai se transformando no decorrer do tempo junto com ela. Distinguimos os idiomas vivos dos mortos, não apenas pelo fato dos vivos ainda possuírem falantes, mas pela sua capacidade de mudar. De certa forma, se você está tentando escrever como o Machado de Assis, você está tentando fazê-lo em um idioma que não existe mais.

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Machadão escreveria diferente se fosse um autor contemporâneo, mas ainda seria um gênio.

   Mas não rejeite as palavras mais difíceis assim tão rápido. Contanto que elas apareçam naturalmente e de maneira consciente, elas serão muito bem vindas. O excesso e o emprego irresponsável são os problemas. Fazem qualquer escritor parecer prepotente como um político discursando com verborragia desenfreada.

   Alguns autores já tocaram antes no tema da clareza da escrita com humor:

“Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo?”

– Luis Fernando Verissimo

 “Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.”

– Mário Quintana

   O desafio real é tornar seu texto mais claro. Dizer mais com menos palavras. Descomplique e escreva para ser entendido. Existem algumas maneiras de facilitar tudo isso, caso você tenha dificuldade:

Escreva Frases Curtas

   Usar frases muito longas é uma questão de estilo, mas não se pode negar que um texto com frases curtas é mais claro. Elas tornarão seu texto mais objetivo. Evite períodos muito longos, pois o foco do leitor pode se perder. Além disso, frases compridas podem ser cansativas e exigem uma ótima articulação do escritor. O ideal é alternar o tamanho delas, dando preferência para as menores.

Use Conectivos

   Mais cedo ou mais tarde, você terá de escrever uma ou outra frase mais longa. Quando for preciso, use os conectivos, que são as conjunções (mas, porque, não só, logo…) e preposições (após, até, com, contra, de, desde…), para dar coesão textual. Utilize as conjunções para ligar as orações e as preposições para ligar um vocábulo a outro.

   Até mesmo para manter o leitor mais atento ao texto, você pode começar as frases usando os conectivos. Eles reforçarão a coesão e darão a impressão de continuidade do assunto.

Evite a Voz Passiva

    Fazendo um resumo: A voz ativa é aquela na qual o sujeito influência o verbo, ou seja, pratica a ação. A voz passiva é quando o sujeito sofre a ação. Tente escrever na voz ativa. A voz passiva pode tornar seu texto ambíguo ou menos expressivo, além disso, a voz passiva faz você dar voltas para dizer algo:

Voz passiva

A torre do castelo estava sendo atacada pelo sopro infernal do dragão.

Voz ativa

O dragão atacava a torre do castelo com um sopro infernal.

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É muito difícil para mim criar exemplos que não envolvam dragões…

   Se você se deparar com um caso no qual a frase transmita de forma mais eficaz a mensagem na voz passiva, use-a, mas acredite, na maioria das vezes a voz ativa soará melhor.

Sem Ambiguidade

   A ambiguidade dá margem para mais de uma interpretação na frase. Ela confunde a compreensão da mensagem, portanto, é altamente prejudicial para a clareza do seu texto.

A víbora da sua mãe me mordeu. – Quem mordeu foi a víbora que pertence a mãe ou a própria mãe é chamada de víbora?

O caçador viu a lebre correndo na floresta  – Quem corria pela floresta, o caçador ou a lebre?

O guerreiro disse ao outro que estava com medo. – Qual dos dois guerreiros estava com medo?

   Como você pode ver, a ambiguidade confunde o leitor e ainda expõe o escritor descuidado. Entretanto, alguns autores sabem usar esse artifício de propósito para criar ótimos momentos de humor.

   Por fim, podemos resumir que abusar das palavras rebuscadas, de frases muito longas, da voz passiva, escrever sem coesão e com ambiguidade, são alguns dos principais perigos que podem fazer o leitor se perder no seu texto. Use sua boa escrita para levá-lo aos lugares onde só a sua imaginação pode chegar. Faça-o de um modo que ele queira voltar mais e mais vezes. Assim, você conquistará seus leitores.


Até a próxima e boa escrita!

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