Não era um dia especialmente ensolarado, mas o vento estava bom, soprando carinhoso as velas dos diversos navios que se encontravam no porto de Grona. A grande cidade era conhecida como um território de trégua, onde piratas sob as mais diversas bandeiras podiam se encontrar sem medo de confronto. Claro que a possibilidade de uma escaramuça não estava descartada, mas a guarda local era rigorosa e conhecida por sua brutalidade com infratores.

   A tripulação do Céu Carmesim estava ansiosa para ir a terra. Fazia dois meses que tudo que viam era água e apesar de não ser, nem de longe, o maior período em que estiveram no mar, era reconfortante esticar os ossos fora do navio.

   Por esse motivo, todos os marujos amontoados no convés torciam secretamente, ou abertamente, para serem escolhidos pela capitã, Carmem.

   Ela, uma mulher jovem de cabelos curtos muito negros e olhos castanhos tinha a pele morena do sol e os lábios rosados. Falava com suavidade, mas séria, raramente sorria, se o fazia era para mostrar os dentes brancos e uma graça que alguns julgavam impossível naquela face endurecida pelo vento e a chuva. Tinha conquistado seu lugar como capitã por meio tanto da espada quanto da diplomacia e embora não fosse a melhor espadachim a bordo era uma lutadora astuta e contava com o apoio das figuras mais aterrorizantes da tripulação.

   Havia Roxxar, homem forte de uma tribo de guerreiros. Era grande e musculoso, se destacava mesmo entre os seus, fosse pela força, pela ferocidade ou pelo peculiar gosto por homens bonitos. Vestia-se com roupas leves de marujo e mantinha os enormes cabelos loiros bem penteados e limpos. Tinha os lábios coloridos de vermelho e os olhos pintados de azul.

   Outro era Danke, o inútil. A maioria dos capitães o atiraria para fora do navio por ser totalmente imprestável e preguiçoso. Incapaz de ajudar com um esfregão, aproveitava o tempo na cidade para festejar com mulheres e bebidas. No entanto, em meio ao perigo ele se mostrava indispensável. Era frio como um demônio e em situações onde a maioria dos homens se perderia em prantos ou desespero era capaz de agir racionalmente.

   Sobre Heitor pouco poderia se dizer. Um velho calvo de bigodes espessos que ia com Carmem a toda parte e que apesar de sua aparência inofensiva nunca havia se ferido durante combate algum.

   Muitos outros eram a brava gente do Céu Carmesim, mas foram esses que a capitã escolhera para levar consigo pela cidade naquele dia. Seria uma parada rápida e apesar da frustração de não serem escolhidos, muitos se sentiam intimamente felizes por não precisarem participar daquele encontro com Bartolo, o agiota.

   – Não podemos passar em algum bordel no caminho, querida capitã? – perguntou Danke tão logo chegaram em terra.

   – Você já sabe minha resposta, imprestável. – respondeu ela – Não podemos perder tempo aqui e não quero contribuir com sua fama de “ladrão de corações”.

   A verdade é que apesar de não ser excepcionalmente bonito, o pirata era um boníssimo mentiroso e por onde quer que passasse deixava garotas suspirantes com suas histórias a respeito de ser um grande nobre, cheio de posses e títulos.

   – Alguém tem que ser macho nessa tripulação. – retorquiu ele, dando um olhar maldoso para Roxxar, que era carinhosamente chamado de Roxxane pela tripulação.

   – Ih, querido. – atalhou o enorme homem – Você não sabe o que é ser macho até ter um brutamonte lindo entre os braços.

   Trocaram mais algumas alfinetadas enquanto caminhavam, mas sempre mantendo o bom humor. Haviam passado pelo diabo juntos e sabiam que entre si havia uma amizade sincera.

   Conforme se aproximavam da enorme mansão que era a residência do agiota todos se sentiam um pouco angustiados e ao mesmo tempo eufóricos. Haviam precisado de uma enorme quantia de ouro para comprar um navio, após sua antiga nau, o “Andarilho da Espuma”, ser destruído em um combate que custara a vida de muitos membros da tripulação. Quitariam agora a dívida e a sensação que preenchia seus corpos era aquela que antecede a concretização de um sonho.

   – A partir de agora – disse Carmem, colocando em palavras o sentimento do grupo – velejaremos livres novamente. Veremos a beleza que se esconde nas ilhas mais remotas do mundo e desfrutaremos das suas maravilhas.

   – Eu, por mim – era Danke – me contento com sossego e belas mulheres.

   – Você se contenta de ter onde dormir, Danke – disse Roxxar.

   – Verdade. Podemos dizer que eu sou uma pessoa pouco ambiciosa.

   Pararam. Haviam chegado até os portões da grande casa. Tomando a dianteira Carmem falou com os guardas. Um deles atravessou todo o pátio entrou na casa e voltou dizendo que eles deveriam esperar e que dentro de minutos seriam recebidos. Nesse meio tempo podiam aproveitar pra se desfazer de suas armas, deixando-as sob a guarda dele próprio. Sabendo que não tinham opção fizeram o sugerido.

   O tempo se arrastava. Nenhum dos presentes entendia aquela demora. Do seu ponto de vista era simplesmente entregar o dinheiro e partir. Simples assim. Nem conseguiam conversar entre si, como se as palavras houvessem escapado para outras bandas a fim de não tomar partido naquela angustiante espera. Apenas Heitor continuava tranquilo. Ele, alias, parecia sempre tranquilo. Como um monge que atingiu a plenitude.

   Depois dos longos minutos que se passaram outro guarda trouxe a notícia de que podiam entrar. O grupo atravessou os grandes portões e caminhou rapidamente até a porta de entrada. Atravessaram-na intrépidos e deram no enorme salão de entrada que era também o escritório suntuoso de Bartolo.

   Este, com um rosto marcado pela crueldade e a cobiça estava sentado a uma enorme mesa. Comia solitário uma refeição que daria pra três ou quatro. Atrás de si cerca de doze homens fortes, vestindo coloridas roupas de seda, mas desarmados, montavam sua guarda pessoal. Mas era a figura de um enorme minotauro, criatura homem e touro, ameaçadora e poderosa, que garantia o respeito de todos que ali entravam.

   – Muito boas tardes – disse ele, limpando os dedos engordurados com a boca. – Estão atrasados um mês. Achei até que teria de enviar alguns homens para lembrá-los de suas obrigações.

   – Nós sempre cumprimos nossas obrigações, Bartolo – respondeu Carmem com uma pitada de desprezo na voz. – E trouxemos ouro o bastante para cobrir os juros pelo atraso.

   – Maravilhoso! – exclamou o homem – E onde esta toda essa riqueza?

   Roxxar deu um passo à frente e colocou a pesada mochila que trazia às costas sobre a mesa. Um dos guardas tomou-a. Não conseguindo ergue-la sozinho foi auxiliado por outro homem. Ambos despejaram o conteúdo a frente do agiota.

   Moedas de ouro em abundância, taças cravejadas de brilhantes, pedras preciosas. Havia no interior da mochila o bastante para pagar por dois barcos, mas a tripulação havia concordado em ceder toda aquela riqueza para evitar problemas. Não queria qualquer tipo de ressentimento numa das poucas cidades onde podiam se sentir em casa.

   – Esplêndido, esplêndido. Sempre soube que emprestar dinheiro a mais bela capitã desses mares seria um bom negócio.

   – Ótimo – retorquiu a mulher – Considere então que nossos negócios estão concluídos.

   – A menos que você tenha mulheres pra vender – emendou Danke. E sorriu para Carmem quando ela o olhou com fogo nos olhos.

   – Na verdade, pequeno bufão. – Bartolo tinha nos lábios um riso frio, maligno. – Recebi pela sua capitã e pelo bárbaro afeminado ofertas irrecusáveis.

   Com um aceno de mão, o minotauro e os homens atrás dele formaram um círculo ao redor dos piratas. O ser bovino tinha os olhos fixos em Roxxar, provavelmente fora instruído a enfrentar o homem, pois a força deste era reconhecida por muitos. Avançou na direção dele. Enquanto os homens esperavam para ver quem lhes restaria por adversário.

   Uma bota voou. Atingiu em cheio as narinas enormes do minotauro. Furioso a besta desviou seu olhar e viu Danke, homem pequeno e debochado, rindo enquanto segurava a outra bota. Cego de raiva esqueceu seu alvo original e estourou contra o outro. Apesar do ventre um pouco largo o pirata era veloz e desviou agilmente da criatura. Com movimentos calculados afastava a besta dos companheiros.

   Os guardas, que tinham ordens prévias ficaram desorientados por um instante. Tempo bastante para o poderoso bárbaro que saltou sobre eles e com uma patada feroz derrubou dois de uma só vez.

   Chamados à ação pela ofensiva do inimigo, os guardas arremeteram na luta. Oito contra o homem, dois contra a mulher. Bartolo praguejava vendo seu plano ir por água abaixo, mas confiava no poder do minotauro, que tão logo esmagasse Danke, derrotaria também Roxxar que atacado e seguro por todos os lados tinha dificuldade em golpear com a potência necessária. Esperneava e balançava os braços tentando se libertar.

   Se movendo agilmente pelo grande salão Danke continuava a insultar a fera, fazendo-o de bobo. Mas o monstro era grande e a dado momento conseguiu encurralar o marinheiro contra uma parede.

   – Pode vir vaca pintada – disse o homem com um brilho no olhar que fez a criatura parar. – Pode vir, mas tenha certeza de me matar, de outra maneira enfiarei meus dedos em seus olhos e os arrancarei da sua cara horrorosa.

   O minotauro pareceu ponderar. Não temia por certo aquela pequena imitação de homem, mas sentia que talvez, mesmo sob o peso esmagador de seu punho, aquele rato se levantaria para morder-lhe a garganta e feri-lo de morte.

   Por alguns momentos Roxxar sentiu-se impotente, mas o peso sobre si começou a diminuir e percebeu que era Carmem, que após derrubar seus antagonistas com golpes precisos no pescoço, viera em seu auxílio e, utilizando-se as técnicas marciais que aprendera em Casvia, incapacitava os inimigos rapidamente.

   Com um dos braços liberto o gigante não teve dificuldades em arrebentar a mandíbula de um homem e partir o pescoço de outro. Antes que pudessem contar até dez, todos os guardas estavam no chão.

   – Vá ajudar aquele imprestável – ordenou Carmem – antes que ele acabe morrendo.

   A aberração taurina ainda debatia-se com a dúvida de atacar ou recuar quando sentiu uma pancada violenta. Atingida do lado esquerdo por um golpe de corpo todo de Roxxar o monstro cambaleou. Virou-se para o bárbaro e saltou sobre ele, satisfeito de enfrentar um igual e não uma monstruosidade que parecia não sentir medo de seu poder.

   Atracaram-se então homem e fera. O pirata, gigante entre gigantes, bateu os punhos fechados contra a face bovina do outro e sentiu sua dureza. Os dedos pareciam trincar ao chocar-se com aqueles ossos poderosos. O minotauro por sua vez, reconhecia a força daquele que apesar da bizarra aparência era um bravo guerreiro. Ele era, no entanto, mais forte que o homem.

   Desarmados, Carmem e Danke podiam apenas assistir enquanto o companheiro se debatia naquela peleja de morte. Viram-no agarrar, ser agarrado, bater-se e cansar-se.

   O corpo de Roxxar doía todo. Como se estivesse a lutar contra uma terrível tempestade em alto mar. Não aceitava a derrota, mas sabia que era questão de tempo até ser totalmente subjugado pela besta. Agarrou-o então pelos chifres e num esforço hercúleo fez a fera curvar-se. Essa porém, tomando impulso, ergueu-se novamente, demonstrando toda sua força.

   Aproveitando o momento o bárbaro puxou contra si a fera. Usando a força do monstro contra ele próprio jogou-se de costas no chão e com um pé cravado na barriga do adversário o fez voar pela sala.

   Não acostumado a ser arremessado do chão o minotauro caiu sem técnica e seu braço partiu-se sob o peso de seu corpo colossal. Quebrantado pela dor, ele não se levantou.

   Carmem, vendo o companheiro a salvo, voltou seus pensamentos para Bartolo. Percebera-o se esgueirando pela sala ao ver seus homens caídos e imaginava quando ele voltaria com reforços. Notou, porém, que ele não havia deixado o local. Estava sentado no chão, mãos na cabeça cobrindo os olhos, murmurava frases sem sentido e tão baixo que mal podiam ser ouvidas. A seu lado estava Heitor a olhá-lo com indiferença.

   – Vamos embora daqui – gritou a mulher. – os guardas do portão estão armados então provavelmente teremos de lutar.

   E lutaram. Mas foi uma batalha rápida. Pois os guardas não esperavam por aquela fuga e a carga inicial de  Roxxar e Danke lado a lado, ferozes e desesperados, os pegara de surpresa. Deixaram suas posses para trás e correram o mais que podiam até alcançar o Céu Carmesim que zarpou rapidamente sem despedidas ou segundos pensamentos.

   – Você precisa relaxar – a voz doce e musical de Lucia, linda menestrel de cabelos da cor do sol, era tão efetiva quanto suas mãos que massageavam as costas de Carmem para relaxá-la. – Mesmo que, de fato, Bartolo tenha aliados e eles queiram vingança, não somos assim tão importantes para que eles mobilizem uma força poderosa contra nós.

   – Sim. Eu só estou frustrada – respondeu a capitã que partilhava a cama com a outra e deitada sob seu corpo delgado e macio descansava. – Tudo sempre foge ao meu controle.

   – Não pense mais nisso. – retorquiu a loira com voz autoritária e com um puxão áspero fez a outra virar-se de frente pra ela. – Agora você está a salvo, estamos todos. E você vai se divertir.

   Sem esperar por resposta Lucia beijou os lábios de Carmem e deitou-se sobre ela. Os seios de ambas se roçaram numa carícia involuntária e deliciosa. A que estava por baixo teve os cabelos puxados com força e gemeu de prazer. E ali, em meio as almofadas macias e cobertas de seda, na sala do capitão, elas se deliciaram uma da outra.

   No convés Danke cochilava sob o sol. Roxxar olhava os próprios ferimentos da batalha contra o minotauro e sorria orgulhoso, enquanto o menino Tom cuidava dos hematomas com uma pomada misteriosa. Heitor olhava o mar, sempre calmo. Olga, a cozinheira, cantarolava enquanto preparava a ceia e todos os marinheiros descansavam, exceto por aqueles que estavam em turno de serviço.

   E assim, numa tarde rubra, o Céu Carmesim velejou pelo oceano até encontrar o horizonte.

NadandocomTubarões (2)


Esse conto foi escrito pelo autor Denis Fonseca, se quiserem saber mais sobre o trabalho dele é só darem uma olhada no facebook dele. ^^

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