Este post faz parte de uma série cujo objetivo é servir de guia e oferecer dicas para escritores iniciantes. Caso você queira conferir o artigo anterior, clique em “Escreva com Clareza, Escreva para Todos“. Boa leitura!


   “Uma tarde de chuva na encosta leste do cemitério de Mountjuic, […] e a mão do meu pai segurando a minha com força excessiva, como se assim ele quisesse silenciar suas lágrimas, enquanto as palavras ocas de um sacerdote caíam naquela fossa de mármore para dentro da qual três coveiros sem rosto empurravam um caixão cinzento onde o aguaceiro deslizava como cera fundida e onde eu acreditava ouvir a voz da minha mãe, chamando-me, suplicando para eu libertá-la daquela prisão de pedra e de escuridão, enquanto eu só conseguia tremer e murmurar sem voz para meu pai não apertar tanto minha mão, pois estava me machucando, e aquele cheiro de terra fresca, terra de cinza e de chuva, devorava tudo, cheiro de morte e vazio.”

 A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón


    Às vezes, tudo que precisamos para contar algo terrível é de um pouco de beleza. Já se perguntou como a poesia pode transformar sua escrita? Para alguns, talvez seja difícil elaborá-la. No entanto, o caminho mais curto está nas figuras de linguagem como no trecho acima, retirado da obra de Zafón, que está repleto delas, enchendo o parágrafo com imagens provocantes, capazes de evocar a função poética e, sobretudo, construir uma cena tocante. Muitas vezes, o escritor iniciante se vê as voltas com uma criação insossa sem ter a noção de que as figuras de linguagem podem abrilhantar sua voz com poesia.

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Em A Sombra do Vento, somos levados ao Cemitério dos Livros Esquecidos na cidade de trevas e mistérios que era a Barcelona do pós guerra.

   Existe muita confusão entre os termos poema e poesia. O primeiro refere-se a um formato no qual o segundo é escrito. Diferentemente da prosa, que se escreve com parágrafos, um poema tradicional surge ao escrevermos a poesia em versos e estrofes. A poesia, por sua vez, é quando nos expressamos no sentido conotativo, levando ao fundo da alma palavras calculadas e trazendo a tona emoções inesperadas. Para isso, empregarmos rimas, jogos de palavras, figuras de linguagem, dentre outros recursos…

   Quando a função poética está presente, o texto pode ganhar um valor artístico enorme e as figuras de linguagem nos ajudarão a alcançá-la na narrativa, além de nos darem mecanismos para evitar adjetivos em excesso (Se você não sabe o motivo dos adjetivos serem perigosos, clique aqui). Há vários tipos de figuras de linguagem, mas vamos citar as mais relevantes para o nosso tema:

Comparação

   “o aguaceiro deslizava como cera fundida”

   Usando essa figura de linguagem, o autor pode criar descrições com imagens poderosas. A comparação é feita para que possamos entender melhor uma característica, ação ou situação associando-as a outra coisa familiar.

   “O sorriso dela me alegrava como um dia de sol.”

   Na frase acima, conseguimos um efeito interessante porque os dois elementos têm o poder de alegrar o emissor. Aqui, também poderia ser escrito “O sorriso dela era bonito”. Entretanto, tornamos a frase mais expressiva, ao criarmos uma comparação para substituir o adjetivo “bonito”. Seguem outros exemplos:

“As ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro.”

Victor Hugo

“O moralista é como um sinal de trânsito que indica para onde se pode ir para uma cidade, mas não vai.”

Charles Dickens

Metáfora

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Smaug, um dragão que sabe metáforas!

   A metáfora é parecida com a comparação. Entretanto, aqui não usaremos “como”, “tal qual”, “da mesma forma que”, e etc. As palavras que antes eram comparadas, agora se relacionarão diretamente. Portanto, para a metáfora fazer sentido, os termos devem ser muito bem escolhidos:

“Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro.”

Carlos Ruiz Zafón

“A vida é uma simples sombra que passa […]; é uma história contada por um idiota, cheia de ruído e de furor e que nada significa.”

William Shakespeare

“A música é uma amante orgulhosa e temperamental. Recebendo o tempo e a atenção que merece, ela é sua. Desdenhada, chega o dia em que você a chama e ela não responde.”

O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss

Sinestesia

   “cheiro de morte e vazio

   A sinestesia cria combinações com os cinco sentidos para expressar impressões humanas complexas. É uma forma criativa de descrever sensações, além de nos aproximar do entendimento do abstrato:

“Recordação

Agora, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro de suas pétalas”

Cecília Meireles

“Por uma única janela envidraçada, (…) entravam claridades cinzentas e surdas, sem sombras.”

Clarice Lispector

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Clarice Lispector pinta e borda em nossa imaginação usando sua escrita sinestésica.

Personificação ou Prosopopeia

   “aquele cheiro de terra fresca, terra de cinza e de chuva, devorava tudo”

   A personificação ou prosopopeia ocorre quando atribuímos atitudes, ações, emoções, típicas dos seres humanos a elementos não-humanos como plantas, objetos e até sentimentos:

Congresso Internacional do Medo

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro.

Carlos Drummond de Andrade

Sonhos não fazem promessas.”

Sandman, de Neil Gaiman

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Literalmente, Morpheus é a personificação do sonho.

Antítese

   A antítese surge quando usamos ideias ou palavras que se opõem criando contraste no período:

“Não há assunto tão velho que não possa ser dito algo de novo sobre ele.”

Fiódor Dostoiévski

Paradoxo

   No paradoxo, usamos palavras que se anulam de modo a fazer a frase perder o sentido objetivo, mas ainda mantendo um sentido subjetivo. A ideia é ir mesmo contra a lógica:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

Luís de Camões

  Vê como é possível enriquecer o texto e contar histórias valendo-se de recursos diferentes? Existem várias outras figuras de linguagem para finalidades diversas como a  hipérbole, o eufemismo, a ironia, a elipse, etc. Caso você queira conhecer mais delas clique aqui!

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Hei, Não vá embora ainda! Temos mais uma ótima dica a seguir!

  Há mais um elemento capaz de valorizar sua prosa. Fundamental na música, o ritmo pode ser decisivo para a concepção de um texto fluido. O trecho abaixo esclarece de forma genial esse assunto. Originalmente, tirado do livro 100 Ways To Improve Your Writing  de Gary Provost publicado em 1985, ele vem circulando há anos na internet e, certamente, ajudará a melhorar sua escrita:

“Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Usar cinco palavras é legal. Mas várias juntas ficam monótonas. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.”

 “Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante.” 

 “Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.”

   Assim, com uma boa combinação de ritmo e poesia, podemos produzir nossas obras primas, não é mesmo? Não se dê por vencido. Caso você tenha dificuldade, lembre-se que o maior segredo dos escritores profissionais é que eles não desistiram!


Muito obrigado por ter chegado até aqui e até a próxima!

 

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