A saga fantástica que conquistou George R. R. Martin! O jovem Fitz é o filho bastardo do nobre Príncipe Cavalaria e foi criado pelo cocheiro de seu pai, à sombra da corte real. Ele é tratado como um penetra por todos na realeza, com exceção do Rei Sagaz, que faz com que ele seja secretamente treinado na arte do assassinato. Logo ele enfrentará sua primeira missão perigosa. E embora alguns o vejam como uma ameaça ao trono, ele pode ser a chave para a sobrevivência do reino.

   O Aprendiz de Assassino, livro escrito pela Robin Hobb, traduzido pelo Orlando Moreira e lançado aqui pela Editora LeYa!

   Acompanhamos aqui a história de Fitz, um bastardo do príncipe. O rei vê nele uma possível ameaça se for largado a própria sorte, então decide fazer dele um homen do rei começando um treinamento como diplomata, espião e assassino!

   E na Dica da Taverna vemos como esse livro abriu mão da trama para dar foco total ao desenvolvimento do seu protagonista e como isso é a atitude mais acertada possível…

   Vamos a nossa análise desse livro incrível…

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Os personagens

“Se tudo o que eu tivesse feito na vida fosse ter nascido e ser descoberto, ainda assim teria deixado uma marca em toda aquela terra, para todo o sempre. Cresci sem pai nem mãe, numa corte onde todos me conheciam como um divisor de águas. E um divisor de águas me tornei.”

   Nos Seis Ducados, o cenário onde se passa essa aventura, existe a tradição de dar um nome de uma qualidade a alguém no momento em que aquela pessoa nasce, acreditando-se que, de alguma forma, aquilo vai moldar a personalidade dela no futuro.

   Entendido isso, vamos falar sobre alguns personagens que marcaram essa história…

   Tudo começa com o nosso protagonista, filho bastardo do príncipe Cavalaria, que é o filho mais velho do rei e o que mais possui qualidades para assumir o trono. O aparecimento desse bastardo causa um escândalo na corte, fazendo o príncipe Cavalaria se exilar, indo para longe do seu bastardo e dos jogos da corte.

   Nem por isso o jovem bastardo é deixado ao relento. Ele é criado no castelo real por Bronco, o homem do estábulo que costumava ser o homem de confiança de Cavalaria. Ele é um homem bom e, mesmo severo, acaba servindo quase como uma figura paterna para o protagonista.

   O garoto acaba não recebendo um nome oficial, e todos o chamam apenas de Fitz (que é uma palavra para bastardo no mundo, e não tinha como ser traduzida) e ele aceita de bom grado esse nome.

   O rei Sagaz, ao ver essa criança já deduz que, se ela for deixada à própria sorte, se tornara um potencial perigo ao trono. Logo ele decide fazer de Fitz um homem do rei, mas não um que todos possam ver e sim uma ferramenta oculta, que carrega o peso do sangue real para a diplomacia e, caso as negociações não funcionem, para entrada facilitada a pessoas dormindo ou taças a serem envenenadas. Sobre ordens de Sagaz, Fitz começa seu treinamento como espião e assassino do rei com o atual assassino, Breu.

   Outros personagens que chamam a atenção nessa trama são o príncipe Veracidade, segundo filho mais velho de Sagaz e provável futuro rei, mas que tem mais alma de guerreiro do que de aristocrata.

   E temos o odioso Majestoso, filho do rei de seu segundo casamento e a criatura mais nojenta e BABACA de todos os tempos. Um excelente personagem que você ama odiar. XD

   A construção de personagens da Robin é excelente. Ela se foca totalmente no Fitz e, com o tratamento que ela dá tanto aos acontecimentos quanto as emoções. Ele vai passar por muitas dificuldades e situações de sofrimento e, assim como acontece com o jovem Kvothe do Nome do Vento, você acaba se apegando pelo sofrimento do personagem principal.

   Todo o “elenco de apoio” é de outro nível também, com seus próprios defeitos e qualidades sendo trabalhados enquanto acompanhamos seus problemas. Você, como leitor, entra em contato com o pior e o melhor desses personagens de uma maneira super orgânica e fluida. De longe o ponto mais atraente desse livro é esse lado emocional forte. Isso porque eu nem vou falar dos cachorros… 😦

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Fitz e seu mestre assassino Breu.

Um mundo sólido, mas com pouco destaque

   O cenário que nós conhecemos aqui nesse livro são os Seis Ducados, fundados a muito tempo pela família real, os Visionários.

   De uma maneira geral, o mundo lembra a nossa época medieval. Criaturas de lendas, como dragões, são vistas apenas como isso mesmo: lendas. As pessoas comuns não acreditam que possa haver essas coisas.

   Politicamente falando a autora está de parabéns. Toda a divisão dos reinos e a as posições de poder tem um motivo histórico por trás. Dá para ver que foi criado todo o passado dos Seis Ducados e por isso suas divisões ficaram bem realistas.

   Temos um pouco de tensão política aqui nesse livro, mas a atenção não sai dos personagens.

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Os Seis Ducados

Magia intensa emocionalmente

   Com relação aos sistemas de “magia” criados pela autora, nós temos O Talento e a Manha.

   O Talento é basicamente telepatia, onde o usuário pode entrar na mente de alguém e alterar alguma lembrança ou influenciar a pessoa de alguma forma sem que a pessoa perceba que está sendo influenciada. Se forem duas pessoas treinadas para isso, elas podem se comunicar, independente da distância. Era uma habilidade mais comum antigamente, nos tempos em que o reino estava em guerra, mas agora em tempos de paz é reservado apenas a família real, os Visionários, e alguns poucos escolhidos.

   A manha é algo parecido com o talento, só que funciona com animais ao invés de pessoas. Quem possui a manha pode criar conexões e usar os sentidos deles, se ligar com os seus sentimentos e se comunicar de maneira geral. A manha é vista como algo grosseiro e animalesco. Dizem que um homem que se entregue a essa comunicação com animais vai lentamente se transformando em um animal ele próprio, se tornando um ser de instintos e não mais um humano.

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Cachorro na história é a arma secreta para fazer qualquer um se emocionar…

   Mas as minhas descrições são rasas demais frente ao que a autora faz com esses poderes nas páginas…

   Robin Hobb dá um show de profundidade e sentimentos com o talento e a manha. O personagem principal consegue criar ligações emocionais com os cães dele e não tem como não se ligar também a amizade deles. As descrições dos sentimentos e instintos caninos são incríveis demais! O que torna as cenas dramáticas envolvendo cães muito mais emocionantes.

    E a sutileza com a qual ela trata o talento é linda. Não é uma telepatia super poderosa, e sim algo extremamente sensível. Você apenas pode mudar coisas pequenas na mente da pessoa, o que a autora faz bem é em mostrar que detalhes mínimos podem fazer a diferença entre a vida e a morte.

Eu comecei nesse mundo de uma maneira peculiar…

   A minha trajetória para esse universo foi meio… estranha, digamos assim. Em um belo dia eu vi um livro no Audible (o serviço de áudio livros da Amazon gringa), eu olhei o nome da autora e pensei “Olha, esse é aquele livro que saiu aqui pela LeYa, né? Mas que estranho, traduziram Fool’s Assassin como O Aprendiz de Assassino, que escolha mais estranha de palavras…”. Eu, distraidamente, comprei esse livro e comecei minha áudio-leitura. Logo no início eu achei várias coisas curiosas, como o fato do protagonista ser um “herói” aposentado já, e sempre citar suas aventuras do passado. Mas ainda assim eu gostei muito da fluidez da história e me deixei levar…

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   Não deu outra, fiquei apaixonado por esse mundo! O Fool’s Assassin tinha o problema de ser totalmente focado no desenvolvimento dos personagens, mas ainda assim era maravilhoso de ler e ainda deixa um gancho difícil de não seguir. Não deu outra, acabei de ler e fui procurar outros livros da autora. Foi aí que eu percebi que entrei pela porta errada nessa casa…

   Fool’s Assassin, o meu primeiro contato, é o início da quarta trilogia, isso mesmo, A QUARTA trilogia! E além disso existem outros livros soltos, ou seja, tem aí mais de QUINZE livros nesse mundo que eu não tinha lido!

   O monte de referências a atos do passado, que eu inicialmente tinha interpretado como um ousado worldbuilding, agora faziam bem mais sentido. XD

   Mas pensem bem, mesmo não sabendo nada sobre os outros livros eu ainda fiquei maravilhado por esse mundo e esses personagens. Eu logo fui atrás do primeiro livro que saiu aqui, li e continuei achando incrível. Ter visto o destino desses personagens me deixou ligado emocionalmente a eles e isso se complementou muito bem com essa minha visita as “origens” dos personagens que eu já tinha aprendido a amar.

   Obviamente eu tive muuuuitos spoilers, como quem está vivo e quem não está, quem vira rei depois de quem, o destino de muitos personagens… mas nada disso me fez ter menos vontade de ler. 🙂

   Ainda assim eu não recomendo que façam isso não, comecem pelo começo e continuem lendo, vocês não vão se arrepender. ^^

   Até porque eu tive que ler a última trilogia e a primeira ao mesmo tempo (uma hora eu via o personagem velho e enferrujado, e na outra eu via ele jovem e aprendendo ainda) e isso foi uma experiência bem estranha. XD

Finalizando…

   O Aprendiz de Assassino é um livro lindo. Um mundo simpático é recheado de personagens carismáticos. Ela abre mão de uma trama focada em um plot grandiloquente e com isso dá uma aula de construção de personagem! Isso pode desagradar alguns leitores que esperam algo mais “explosivo”, mas, ainda assim, esse é um dos livros que mais me tocou como leitor e uma recomendação máxima a você que quer curtir uma boa fantasia, sem pressa para acabar. 😉

Capa comum: 416 páginas
Editora: LeYa (1 de julho de 2013)

Links de Compra da Taverna: Amazon / Saraiva / Submarino

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Trama x Personagens

   O que eu queria apontar aqui nesse livro, que também acontece no Fool’s Assassin, é que o foco inteiro vai no desenvolvimento do protagonista, até mesmo se abrindo mão da trama.

   Pode-se dizer que a história é a vida do protagonista e tudo que o afeta de alguma forma. Se ele acaba se envolvendo com algo maior no mundo você sente como se fosse apenas uma coincidência. O objetivo de cada linha e de cada palavra é fazer você se apegar ao protagonista e, quando isso acontece, você vai se importar até com problemas pequenos.

Robin Hobb
Robin Hobb manda muito bem!

   Eu imagino que, assim como tudo na vida, isso seja uma questão de opinião, a minha é que uma história tem que ter bons personagens, mesmo que a trama não seja lá essas coisas.

   O personagem é a espinha dorsal de qualquer história. É quem vai conduzir o leitor no mundo e fazer com que ele “sinta” tudo ao redor. Se o seu personagem não convencer, não tem trama que salve, mas possivelmente bons personagens salvem até mesmo uma trama mais ou menos.

   Lembrem-se: O personagem é o ponto principal da sua história, então de atenção redobrada a ele.

   Esse livro (creio que O Nome do Vento entre nesse quesito também) é a prova de que um personagem sendo desenvolvido pode ser muito mais atraente do que um problema gigantesco que o mundo está passando.

   Como deixar personagens interessantes é um outro tópico que ocuparia espaço demais aqui XD, a pergunta principal que eu queria fazer aqui é: como a sua história está afetando seu protagonista?

   O que faz o leitor se apaixonar pelo seu livro é o personagem, mesmo que ele não perceba isso.