Este post faz parte de uma série cujo objetivo é servir de guia e oferecer dicas para escritores iniciantes. Caso você queira conferir o artigo anterior, clique em “Escreva Prosa com Poesia!”. Boa leitura!


 Você já deve ter visto escritores discutindo como desenvolver protagonistas marcantes, ou a falta que um antagonista memorável faz em certas histórias. Mas você sabe mesmo qual o papel deles em uma história?

 É muito comum a simplificação que diz que o protagonista é o “mocinho” e o antagonista é o “vilão”. E para um milhão de exemplos, esta definição está correta. Mas e quando não está?

 Para entender o papel de ambos, acho válido lembrar das origens destas palavras, como nomenclaturas do teatro grego.

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No princípio…

 Na Grécia antiga, as cenas das peças tinham ordem de fala, que do primeiro até o penúltimo, ia do mais para o menos importante.

 Protagonista (Do grego protagonistes, de prótos= primeiro; agonistès= ator, lutador; agon=  disputa, exposição, combate.) significa o primeiro a falar, e assim era nomeado o personagem que tinha a primeira fala na cena. A peça podia ser sobre ele, ou ele tinha outra extrema importância no contexto da trama.

 Depois dele vinha o deuteragonista, segundo à falar, e depois o tritagonista, terceiro, e assim por diante… Até chegar no último à falar, o antagonista (antagonistes, de anti= contra;  agonizesthai= competir por algo; agon=  disputa, exposição, combate).

 Ele não era, de forma alguma, o menos importante na peça; é que os seus objetivos eram contrários aos do protagonista, e quando eles conversam, exibem ideias contrárias. Isto era feito para que a cena terminasse no conflito entre ambos.

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Agradeço ao Google pela ajuda com a etimologia.

 E dessa época, uma coisa fica até hoje: o Protagonista e o Antagonista tem objetivos e ideais contrários, e seu embate gera o conflito da trama.

 O conflito é, provavelmente, o elemento mais importante para manter uma história interessante, e criar personagens com objetivos contrários é uma forma simples de fazê-lo.

Vendo exemplos tradicionais, em que heróis e vilões são bem distinguíveis, podemos citar:

 No filme do Dr. Estranho, Stephen Strange ainda estava aprendendo as técnicas místicas do Kamar-Taj, quando Kaecilius e seus discípulos realizam ataques aos Santuários que protegem a Terra dos perigos de outras dimensões. O intuito deles é invocar o poderoso Dormammu e entregar-lhe a Terra, assim prendendo o planeta na Dimensão Negra, onde o tempo não existe e ninguém morre. Dr. Estranho é avisado por sua mestre das consequências ruins desse ato, e ele é a única pessoa capaz de impedir o plano de Kaecilius antes que seja tarde demais.

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“Impedir antes que seja tarde demais” é um trabalho frequente para protagonistas.

 Em Harry Potter, Harry era somente uma criança bruxa “normal”, que iria crescer e levar uma vida bruxa “normal”, mas Voldemort, acreditando em uma profecia, tenta mata-lo, e consegue matar os pais de Harry, mas sai na pior ao enfrentar o menino. Desde então, Harry tenta levar uma vida boa com os seus amigos e se sair bem na escola de Hogwarts, está sempre em risco pela ameaça de Voldemort e seus Comensais da Morte, que querem instaurar um ideal de supremacia bruxa no mundo.

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Tanto aqui quanto em Dr. Estranho, os antagonistas “espelham” o protagonista, mostrando o que ele poderia se tornar se seguisse um caminho sombrio. Também um tema tradicional.

 Ao menos no filme d’A Torre Negra, baseado na série de livros de Stephen King sem se basear diretamente em qualquer um dos livros, os Pistoleiros protegem a titular Torre Negra, única proteção do multiverso contra os demônios que habitam a região de fora dele. O vilão (o nome dele era… Walter? Acho que o chamam de Rei Escarlate em algum momento) quer destruir a Torre e deixar os demônios entrarem, por razões próprias não especificadas.

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Em uma trama que de tão tradicional chega a ser genérica.

 Nestes exemplos fica clara a dualidade protagonista-herói e antagonista-vilão. Mas também é claro que, se tirarmos um deles, a história perde todo o seu sentido. Afinal, ambos colaboram para o mesmo fim – gerar conflito.

 E se tanto o protagonista quanto o antagonista tem a importante missão de gerar conflito, qual a diferença entre eles? Normalmente, acompanhamos a história do protagonista, e em casos como da narração em primeira pessoa, vemos o mundo pelos olhos dele.

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Afinal, todos nós gostaríamos de ser heróis.

 O protagonista mais comum pode, sim, ser o herói da história, e ser escrito de forma que torçamos para ele. O antagonista se opõe, e geralmente causa os obstáculos pelos quais o protagonista deve passar para alcançar seu objetivo, o que pode torna-lo vilão da história.

 O papel de heróis e vilões pode ser modificado e reformulado, assim gerando anti-heróis de moral duvidosa e vilões com mais fãs do que heróis, mas como são variações de protagonismo e antagonismo?

 Teoricamente, poderia se escrever um protagonista vilão, com antagonistas “mocinhos” o impedindo de seguir em frente. Ou um antagonista que é extremamente agradável para o protagonista, mas por segundas intenções, ou até por coincidências, põe empecilhos na vida do outro. E estes são só duas possibilidades! Variar gera histórias mais únicas, com qualidades próprias.

 O primeiro exemplo de variação que vou falar é lá da Grécia antiga, para mostrar como isto existe há tempos: Na peça Édipo Rei, o personagem que a dá o nome começa como um príncipe que fugiu de sua cidade, depois de receber a profecia de que mataria o próprio pai e se casaria com a própria mãe.

 No meio da estrada, tem uma discussão com um senhor vindo da direção oposta e acaba matando ele em uma briga. Chegando perto de Tebas, descobre que a cidade está amaldiçoada e uma Esfinge propõe uma charada para os viajantes que se aproximam; os que erram são devorados.

 Édipo é o primeiro a responder corretamente, assim espantando a Esfinge. Em Tebas, ele é aclamado como herói e nomeado rei, já que o anterior havia sido assassinado, e se casa com a rainha viúva.

 Tempos depois, outra maldição cai sobre Tebas, que só seria libertada quando o assassino do antigo rei fosse descoberto. Então a verdade aparece… Édipo era adotado, abandonado pelos pais biológicos quando eles ficaram sabendo da mesma profecia, e que o homem que ele matou na estrada era o rei de Tebas e seu pai. Sua esposa também era sua mãe. Assim, Édipo é protagonista e antagonista da própria história.

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Essa peça me dava dor de cabeça nas aulas de teatro.

 Outro interessante é 20.000 Léguas Submarinas, onde o personagem mais conhecido, Capitão Nemo, é na verdade o antagonista.

 Os protagonistas Pierre Aronnax, seu criado Conseil e o arpoador canadense Ned Land acabam acidentalmente dentro do submarino Nautilus, no qual são recebidos de forma pouco amigável, mas o Capitão logo os dispõe acomodações, entrada no museu da embarcação e são servidos como convidados de honra. Com uma condição: Eles estão presos ali para sempre, pois a existência do Nautilus é um segredo. O trio, especialmente Ned, quer ir embora, mas não sabe como.

 Em nenhum momento o Capitão é mau para eles; ele serve jantares suntuosos, os leva em expedições e os deixa livres na área de convívio do submarino. Nemo até chega a ser visto como uma forma de herói por Pierre, mas sempre há receio sobre as intenções de ambas as partes, e a proibição gera tensão entre eles.

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Nemo, antagonista, visto aqui lutando com um tubarão branco para salvar um homem que ele não conhece.

 Esta foi uma introdução à algumas das possibilidades que existem na relação entre protagonistas e antagonistas. Espero que te ajude quando for escrever suas próprias histórias, assim como te leve a interpretar o que lê de outra forma. Abraços, e até a próxima 🙂