As histórias em quadrinhos oferecem muitas possibilidades. Embora ainda existam pessoas medievais que consideram tal forma de arte exclusiva para crianças, as obras adultas já se consolidaram há muito tempo. O fato é que as crianças cresceram, mas não abandonaram os quadrinhos, pelo contrário, tornaram-se cada vez mais exigentes quanto ao conteúdo deles. Agora temos de tudo, como a clássica ficção, reportagens, biografias e autobiografias.

   Sobretudo, nos dois últimos exemplos, há obras que já conquistaram enorme destaque no mercado e premiações importantes nos últimos tempos, abordando temas delicados e fatos surpreendentes. Elas provam que as HQs podem ser tão sérias e bem escritas quanto qualquer outro livro com temas maduros.

   A proposta aqui é apreciarmos fatos que ocorreram com pessoas de verdade e isso nos permite viajar para outros lugares e épocas de forma especial. Além de refletir sobre as questões da vida, somos submetidos a um choque cultural e de realidade e é difícil terminar a leitura sem mudar um pouco nossa concepção de mundo. São histórias que muitas vezes nos provam que a realidade pode ser mais inacreditável que a ficção.

   Vou listar a seguir quatro opções de quadrinhos já consagrados que, se você não conhece, precisa conferir:

Pílulas Azuis

4HQS (10)     Poético e pronto para quebrar tabus. É sobre o relacionamento complexo entre o autor, Frederik Peeters, e uma mulher HIV positivo, chamada Cati, pela qual ele se apaixona. O maior mérito aqui é a construção de uma obra sem sentimentalismos baratos. Há uma honestidade enorme ao tratar das dúvidas e medos adquiridos pela ameaça do vírus da AIDS e de temas como o amor, a morte, a aceitação que são tratados com profundidade sem abrir mão do humor e da leveza.

Merecidamente, essa obra levou o troféu HQ Mix de melhor edição especial estrangeira em 2016.

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Pílulas Azuis
Capa comum:
 208 páginas
Editora: Nemo

 

O Árabe do Futuro – Uma juventude no Oriente Médio

   A infância é uma época de descobertas e sensações que se alojam na memória para sempre. Em O Árabe do Futuro, o autor Riad Sattouf nos apresenta os odores, as cores e os sons que ele experimentou quando tinha três anos e sua família deixou a frança, seu país natal, e se mudou para a Líbia. O choque cultural desencadeia situações peculiares e mais tarde quando a família vai para a Síria, país de origem do pai, mais uma vez, intrigam-nos os diferentes hábitos da cultura mulçumana. Com suas madeixas loiras herdadas da mãe bretã, Riad é visto com admiração e desconfiança aonde quer que vá naquela realidade e nós, com nosso olhar ocidental, somos fisgados pela estranheza do oriente médio do final dos anos 70.

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Riad protagoniza e vislumbra as coisas mais absurdas e engraçadas.

   O traço é simples e talvez desagrade a quem não está acostumado, mas a história nos entrega momentos únicos de humor e perplexidade e depois de começar a leitura é realmente muito difícil largar.

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O Árabe do Futuro
Capa comum: 160 páginas
Editora: Intrínseca

Maus

   Uma obra prima de Art Spiegelman agraciado com um Prêmio Especial Pulitzer. Conta os fatos vividos pelo pai do autor, um judeu polonês, que lutou de todas as maneiras possíveis para sobreviver com a esposa ao holocausto nazista, mesmo em situações nas quais a salvação parecia impossível. Os fatos históricos se misturam com terríveis momentos pessoais, porém a cada nova crise somos surpreendidos pela esperteza e as façanhas que o pai de Art emprega para não padecer.

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Art Spiegelman desenha os judeus como ratos e os alemães como gatos para criar uma metáfora interessante.

   Apesar de existir uma quantidade enorme de obras sobre o genocídio do povo judeu, Maus consegue ir muito além. Há o relacionamento sempre conflitante entre o autor e seu pai, além do tratamento honesto quanto imagem heroica que o velho sobrevivente recebe.

   Ler Maus é como se sentar com um sobrevivente dos campos de concentração nazista e ouvi-lo contar sua história. Acredite, dificilmente você acompanhará essa obra sem se comover ou sentir o pesar daqueles dias de horror da segunda guerra.

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Maus
Capa comum: 296 páginas
Editora: Quadrinhos na Cia.

Persépolis

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   Em 1979, Marjane Satrapi, então com 10 anos, vivenciou a revolução no Irã que levou o país para o regime Xiita. Foi obrigada, como todas as meninas e mulheres de lá a usar o véu para esconder os cabelos e a conviver com a repressão e as atrocidades impostas pelo novo governo.

   É chocante ver como o Irã mergulha nas trevas após a revolução, principalmente por antes ter aspectos comuns a cultura ocidental. Marjane, por exemplo, é uma jovem tão parecida com os jovens daqui que é impossível não se espelhar nela. Nós a acompanhamos numa tentativa constante de ter uma vida normal e livre, mesmo em um lugar tão hostil.

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Persépolis fez tanto sucesso que virou filme de animação em 2007!

   A autora decidiu contar sua história já adulta, após se mudar para a França e, assim, surgiu Persépolis. A obra alcançou tanto sucesso que além levar premiações ganhou uma animação para o cinema muito bacana!

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 Persépolis
Capa comum: 352 páginas
Editora: Companhia das Letras

   Assim, comentamos rapidamente sobre essas quatro obras tão importantes. Entretanto, há muitas outras esperando por você como Uma Vida Chinesa, de Li Kunwu e P. Otiê; Estudante de Medicina, da brasileira Cynthia B.; Retalhos, de Thompson, Craig e tantas outras. Eu sempre tenho a sensação de ter conhecido de verdade uma pessoa nova ao terminar de ler uma obra biográfica ou autobiográfica. Se você se interessou pelo gênero eu recomento fortemente.