– Boa noite, minha filha! – diz a mulher com a voz doce e meiga, preparando-se para convencer a menina de que não havia problema em dormir com a luz apagada – Durma bem e lembre-se, não precisamos ter medo do escuro, então nada de gritos e nem de me chamar hoje novamente, tudo bem?

   – Sim, mamãe! – responde a criança.

   – Não tem nada de mau na escuridão, nem diferença entre claro e escuro, tudo que há no dia há também na noite, portanto, não precisa ter medo – Ela conclui e a criança gesticula positivamente com a cabeça – Como o papai te chama?

   – Formiguinha! – diz a criança sorrindo.

  – Então, já está na hora da formiguinha dormir, tudo bem? – Ela para brevemente olhando para a criança e repete – Boa noite, minha filha!

   A mãe então dá um beijo na testa da criança que já estava deitada e coberta, anda em direção a porta e passa deslizando-a vagarosamente. No último instante, antes de fechá-la, a mão da mãe surge e apaga a luz, o quarto se apaga quase inteiramente, ficando iluminado apenas por uma fresta de luz vinda da porta que pouco a pouco se fecha.

   Quando o escuro toma conta de tudo, a criança tem uma sensação estranha como se algo ou alguém deslizasse debaixo da sua cama para fora. Ela fecha os olhos com medo, tentando se convencer de que tudo aquilo não passa de sua imaginação, mas não se contem, acaba olhando.

   Parado, ao lado da cama, fitando-a, havia um par de olhos brilhantes e uma boca enorme aberta em um sorriso medonho. A criança pensa em gritar e chorar, como havia feito na noite passada, mas se lembra do que sua mãe havia acabado de dizer, então se contem, apenas observando a criatura.

   – Fique tranquila, – diz a boca monstruosa com uma voz rouca, fria e desumana – sua mãe estava certa em quase tudo, não há o que temer no escuro, ela só errou em uma coisinha, nem tudo que existe no claro vive também no escuro e vice-versa, eu existo apenas na escuridão e apenas para você, porque você é uma garotinha muito especial! Por isso, a sua mãe não me vê, só você o pode. Mas já chega de falar sobre mim, quer brincar um pouco?

   Percebendo que a garota não responderia, ele resolveu completar dizendo:

– Lembre-se do que a sua mãe disse, não precisa ter medo. Venha, vamos brincar um pouco!

   Ainda receosa, a criança se levantou da cama, andou até o seu baú de brinquedos, lentamente devido a baixa visibilidade, abriu-o e tirou de lá algumas bonecas. A criatura se aproximou e agora com a visão mais acostumada ao escuro a menina pôde perceber que se tratava de um homem adulto, alto, gordo e disforme, como um sapo. O homem tomou delicadamente uma das bonecas das mãos da garota e se sentou no chão, a garota sentou-se logo após e os dois brincaram por duas horas. No início, a garota estava desconfiada, mas aos poucos se soltou e se acostumou com o homem.

    Enquanto os dois brincavam, a mãe da garota entrava em seu quarto, trocou-se, ligou o seu notebook e se sentou diante dele, abrindo uma das suas redes sociais.

   – Pronto, pronto. Eu sei que a brincadeira está muito boa, – diz o homem para a garota – mas agora é hora de dormir. Venha para a cama! – O homem se levanta com rapidez, guarda as bonecas da garota no baú e a acompanha para a cama, cobrindo-a carinhosamente.

   – Você quer um pouco de biscoito? – pergunta a garota.

   – Não, só o seu sorriso me basta – diz o homem mostrando aquele sorriso medonho que a garota aprendeu a não temer – Você não pode contar para ninguém sobre mim, entendeu? Ninguém pode saber que eu estive aqui, pois só assim eu poderei voltar novamente.

   – Por quê? – ela pergunta.

   – Somente você pode me ver, mais ninguém, só pode ser assim. Tem mais uma coisa que eu quero te dizer…

   Enquanto ele a colocava para dormir, a mulher já estava dormindo. Sentada na cadeira, debruçada sobre o teclado do notebook que exibia uma foto do seu marido sorrindo, um homem alto e bonito, dono de um sorriso atraente com dentes perfeitos… Era uma foto tirada no ano anterior, havia sido seu aniversário de trinta anos, ele estava muito feliz naquele dia, reencontrara seus amigos do colégio, sua filha estava como sempre linda, sendo o centro das atenções, era realmente uma boa foto, mas, acima dela, havia uma faixa preta escrita em branco em letras garrafais:

DESAPARECIDO.

– Boa noite, minha formiguinha.