Saudações, taverneiros!

Com extremo lisonjeio ao convite de Diogo Ramos, apresento-me a vocês, caríssimos leitores. Sou Ian Duarte, o mais novo autor d’A Taverna. Pelo menos por ora, ficarei encarregado de resenhar livros, goste eu deles ou não. Orar objetivo aqui, sobretudo, será dar um norte àqueles curiosos que têm alguma intenção de se aventurar nas páginas de um determinado livro, mas que, por qualquer que seja a razão, são assolados por algum receio de não apreciarem a obra.

Prometo que darei meu máximo para honrar confiança do Diogo e demais membros deste blog incrível.

Pois muito bem. Antes de iniciar, gostaria de fazer quatro céleres apontamentos.

i) Devido ao fato de eu ser um “spoilerfóbico”, irei me esforçar em entregar-lhes resenhas inteiramente livres de spoilers, pois não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Em verdade, não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral. E, na minha singela opinião, nada dotado de maior potencial destrutivo para tal do que a revelação de surpresas sobre o enredo ou arco de personagens. Fiquem tranquilos quanto a isso, portanto.

ii) Farei minhas resenhas dentro de uma estrutura, que consistirá na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; e quão sinérgicos são os elementos citados.

iii) Sempre que necessário, tecerei considerações além da obra em si. Técnicas literárias, reflexões, nuances acerca do autor e afins.

iv) Ao final, darei notas aos elementos expostos em “ii” e tirarei uma média entre elas.

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E que outro autor melhor para a minha estreia aqui n’A Taverna do que o saudoso Brandon (Brandão, para os íntimos) Sanderson?

Além de ser um dos maiores — senão o maior — expoentes da Literatura Fantástica mundial contemporânea, o autor vem mostrando, desde que deu as caras no mercado literário, uma periodicidade religiosa, publicando, no mínimo, um livro ao ano. Convenhamos que talvez essa disciplina seja um dos (inúmeros) fatores que deram a Sanderson a fama que tem. Independente disso, fato é que trata-se de um sujeito deveras adorado. Os números não mentem, afinal. Basta a constatação de que seus livros foram traduzidos em dezenas de línguas e vendidos aos milhões.

Sem mais delongas, comecemos.

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A resenha.

Warbreaker” é um livro standalone (fecha em si mesmo). Infelizmente, ainda não possui tradução em português. Logo, caso deseje lê-lo imediatamente, terá de fazer em inglês. O que é, convenhamos, um ato perspicaz. Assim, exercitará tal idioma e estará, eu diria, pronto para aventurar-se noutra saga do autor, sua série mais aclamada: “Stormlight Archive”, a qual ainda não foi trazida ao nosso querido país por nenhuma editora, apesar de rodarem rumores internet afora dizendo que os direitos, outrora pertencentes à Aleph, teriam sido transferidos a outra editora. Que editora seria? Não tenho ideia. De início, pensei ser a LeYa, porém não tenho mais certeza. De qualquer modo e independente disso, “Warbreaker” vale como uma perfeita introdução ao linguajar do Sanderson, pois, por se tratarem de livros enormes, mesmo quando essa editora misteriosa se revelar, muito ainda demorará a tradução e edição finalizarem. Inclusive, foi o primeiro livro em inglês que li, e o fiz exatamente visando me preparar para “Way of Kings”, primeiro livro da saga supracitada.

“Warbreaker” compõe, junto com vários outros livros do autor, seu universo compartilhado, o Cosmere. Para os que desconhecem, o Cosmere é um mundo, no sentido amplo da palavra. Uma galáxia. Lá, existem vários planetas. Assim sendo, cada uma de suas sagas passa dentro de um desses planetas. O nome de algumas delas (sagas): “Elantris”; “Mistborn”; “Warbreaker”; e a já mencionada “Stormlight Archive”.

A narrativa é em terceira pessoa, limitada a um POV (ponto de vista) por vez. Aliás, todos os livros do Brandon, salvo os da série “Alcatraz” — que são em primeira pessoa —, enquadram-se nesse formato. Possui quatro protagonistas, os quais são detentores de esmagadora maioria dos POVs.

Sanderson é conhecido por arquitetar tramas complexas, sempre recheadas de plot twists. Neste livro não é diferente. Ele faz jus à fama. No entanto, não espere nesta obra algo tão radical, como são, por exemplo, “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de nosso querido George R. R. Martin. Apesar disso, tenha certeza que é uma estória que tirará seu Fôlego (está maiúsculo de propósito). Para quem está lendo esta resenha e desconhece o livro, o trocadilho provavelmente passou despercebido. Bem, aproveitarei a deixa para lhes introduzir o sistema de magia.

Como em qualquer obra do Sanderson, o sistema de magia de “Warbreaker” é intrinsecamente interligado à trama, sendo uma de suas forças motoras. Não é algo inovador como é em “Mistborn”, mas, ainda assim, merece palmas.

Em Nalthis (mundo de “Warbreaker”), todas as pessoas nascem com algo que eles denominam como Fôlego (Breath). Os Fôlegos são o que chamaríamos, em nossa cultura, de alma. Lá, qualquer um têm a habilidade de coletar Fôlego alheio, caso aquele que está para perder o Fôlego pronuncie, em alto e nítido som, uma frase específica. Talvez você pense que, ao perder a alma, uma pessoa morreria. Não é bem assim. O sujeito se torna um Monótono (tradução livre terrível de “Drab”). A pele empalidece, as capacidades sensoriais reduzem, dentre outros sintomas.

Em T’Telir e Idris, cidade e reino nos quais os principais eventos do enredo ocorrem, as cores estão entre os principais elementos culturais. Nesse sentido, as religiões têm forte embasamento nas cores (veja-se, como exemplo, um dos deuses adorados: Austre, o Senhor das Cores), assim como vários costumes e o próprio sistema de magia.

Uma pessoa com um único Fôlego tem uma capacidade ordinária/comum de percepção das cores; assim como nós, terráqueos, temos. Todavia, à medida que o inventário de Fôlegos de um indivíduo engorda, ele passa a desenvolver uma percepção cada vez mais aguçada das tonalidades. E, junto dela, vêm várias habilidades. A principal delas é a capacidade de Acordar (Awakening) objetos inanimados, como cordas, roupas e palha. Realizado o ato, o objeto fará tudo que seu Acordador (nossa… tradução terrível!) Comandar (Command). É óbvio que o conhecimento do Acordador e sua prática afetará drasticamente no processo.

Para fechar esta parte, uma observação: o fato de a mera pronúncia da frase ser suficiente para a transferência do Fôlego — sem a vontade do falante de transferir ser necessária — é algo que, por si só, abre um leque de possibilidades narrativas. Leque este que Sanderson explora com maestria.

Falemos, agora, de personagens.

O personagem com o qual temos o primeiro contato é Vasher, um Acordador misterioso. Não obstante seu tempo de aparição ser curto no começo da estória, ele, aos poucos, retoma os holofotes. Em minha opinião, é o segundo melhor personagem. Acho isso principalmente por sua essência misteriosa e sua relação/interação com outros personagens. Isso sem contar sua desenvolvida técnica de Acordar e Comandar. Caso leia o prólogo e se intrigue com Vasher, digo-lhe que vale a pena continuar o livro para conhecê-lo melhor.

Depois, conhecemos Siri e Vivenna, irmãs de personalidades antagônicas e filhas do rei de Idris. Enquanto Vivenna, a mais velha, tem uma educação polida, trejeitos refinados e vive em função de seu dever, Siri vive aprontando e fugindo dos encargos de princesa. De início, talvez não pareçam personagens interessantes. Porém, no desenvolver do enredo, elas dão um tapa na sua cara demonstrando o quão errado estava ao tirar tal precipitada conclusão. Dos quatro protagonistas, são as que mais desenvolvem, crescem. Seus arcos, digo sem hesitar, são incríveis. Siri e Vivenna são nítidos exemplos de como Sanderson é talentoso em construir personagens complexos, vívidos, tridimensionais. Noutras palavras: convincentes e fascinantes.

Por último, é-nos apresentado Lightsong, um dos deuses Retornados (Returned) de T’Telir. Enquanto em Idris a crença é metafísica (Austre pareceu-me inspirado no Deus Cristão, o qual é onipotente, onipresente e onisciente), em T’Telir o credo é voltado completamente ao mundo físico. Os vinte e cinco deuses de T’Telir são pessoas que morreram, mas, graças aos atos heroicos que causaram seus falecimentos, renascem: Retornam (Return). São indivíduos dotados de um número absurdo de Fôlegos e possuem estatura avantajada. Lightsong, apesar de ser considerado um deus, não demonstra comportamento digno de uma divindade. Sempre frívolo, despreocupado, irresponsável, preguiçoso e matreiro. Um personagem fabuloso! Ele, sim, é meu preferido. Seu conflito interno é estupendo: nunca acreditou em si próprio; sempre achou uma baboseira ser considerado uma divindade. Ele Retornou? Sim. Contudo, esse fato não era, em sua opinião, suficiente para elevá-lo a um grau supra-humano. Sua personalidade, em verdade, é mero fruto dessa descrença em si próprio — por isso a ironia exacerbada e as piadas constantes. Sua relação com seu sacerdote, Llarimar, é maravilhosa. A dinâmica dos dois é algo próximo do sublime — sobretudo nos últimos capítulos. Sem mais detalhes. Esqueceram que sou spoilerfóbico?

Vale apontar, para finalizar, que os personagens coadjuvantes e alguns secundários são muitíssimo bem construídos; alguns tanto quanto os protagonistas. Ademais, não ficam, nem um pouco, para trás no que diz respeito às suas habilidades de cativar e intrigar os leitores. Susebron, Nightblood, Blushweaver, Bluefingers, Denth, Tonk Fah, Jewels, Parlin e Treledees são só alguns nomes.

 

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As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 4
  • Mundo (setting/milieu): 4
  • Personagens e seus Arcos: 5
  • Sistema de Magia: 4
  • Nota Final (média): 4,25

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Encerro esta resenha com o sentimento de que falei pouco. Entretanto, como apontei no começo, o objetivo deste texto é estimular a curiosidade na leitura do livro, e não dar spoilers.

É isso. Espero que tenha sido uma leitura instigante, frutífera e aprazível.

Vejo-os na próxima! Até breve!