Esta é uma nova coletânea de contos que será publicada regularmente aqui na Taverna. Esta história faz parte do mesmo universo que “O comércio de elixires na Planície dos Trovões”, conto do meu blog pessoal, mas eles podem ser lidos separadamente sem problemas. Esta é a primeira parte de quatro deste conto. A segunda se encontra aqui.

Quer que o seu conto também apareça aqui na Taverna? Fale conosco!


 No horizonte, era possível ver a tempestade que se aproximava de Pico da Rocha. Não mais que um pequeno feudo metido no único planalto da Serra Estilhaçada, a cidadela tinha ao seu redor os dentes da Montanha Espinhosa. Salvo pelo bosque onde os nobres caçavam, todo lugar onde a terra era macia havia sido transformado em fazenda.

 Quase nunca recebiam viajantes, e as famílias que ali habitavam eram as mesmas por várias gerações, mas ainda assim a vida era melhor do que se arriscando com os raios que assolavam o vale abaixo.

 No castelo secular, escavado direto na montanha, a ama percorria de cima a baixo tentando achar a peste que era sua responsabilidade.

 “Pieter!” Ela chamou quase sem voz pelo corredor escuro, sua saia prendendo nos móveis antigos. Nunca vinha resposta.

 Por fim, ela viu o cabelo loiro do menino enquanto ele espiava pela janela de um quarto vazio. Observava a escuridão que vinha do leste, um manto que lentamente cobria a terra e sumia com as montanhas e florestas que tocava.

 “Pieter! Responda quando eu chamo! Vamos, já passou da hora de você ir para a cama!” Dizendo isso, a mulher o puxou pelo braço e o arrastou para o caminho do quarto.

 “Ai, ai! Ama, está machucando!” Ele reclamou, e livrou seu punho da mão dela. “E eu não quero ir para a cama! Ainda é dia!” Fez bico e franziu as sobrancelhas ao olhar para a mulher.

“Eu sei que está dia, tenho olhos! Mas o relógio da torre já marca seis horas, e sua mãe disse que enquanto ela estiver longe, é para você já estar dormindo quando tocarem as seis badaladas!”

 Com mais alguns puxões e empurrões, chegaram ao quarto. Era grande e circular, no formato da torre em que se encontrava. Ama Norma fez o pequeno nobre guardar todos os brinquedos que estavam espalhados pelo chão, enquanto ela ia fechar a janela.

 Um último olhar para fora, e o céu estava tomado por um azul escuro pesado, sua força empurrando o vento contra as paredes da fortaleza. Neste momento que Norma achou curioso de onde a chuva vinha – normalmente, era do leste, e por causa das montanhas, sequer batia vento em Pico da Rocha.

 Com o quarto arrumado, ela mudou as roupas de Pieter para sua veste de dormir e o encaixou entre as cobertas da cama de dossel.

 Deu boa noite, fechou a cortina, e no momento em que ela se virou para sair, a voz jovem soou baixinha atrás de suas costas: “Ama, quando a mamãe vai voltar?”

 Ela abriu o dossel novamente e sentou-se na beira da cama, olhando o menino nos olhos. Será que ele estava triste? Com medo? Pieter sempre foi uma criança difícil de ler. “Ela voltará logo, provavelmente amanhã. Só foi até as terras do seu tio, atrás das colinas, lembra?”

 Ele fez que sim com a cabeça sem olhar para a mulher. “Ama”, ele disse, “acho que não consigo dormir, pode ler uma história para mim?”

 “Claro”, Norma disse, “Só espere aqui enquanto vou buscar um livro na biblioteca e…” mas não conseguiu terminar a frase. O menino saltou da cama, passou por trás dela, abriu o baú de brinquedos e começou a procurar algo lá dentro. Logo ergueu um volume que era quase grande demais para seus bracinhos carregarem, um livro encadernado com couro vermelho.

 “Aonde você achou isto, menino?!” a Ama perguntou indignada. “O Padre Justino sabe que este livro está com você?”

 “Uuuh…” Pieter parecia pensativo quando colocou o livro em cima da cama. “Ele disse que eu podia pegar o livro que eu quisesse, ele disse! Só tenho que devolver amanhã.”

 “Muito bem. Amanhã falarei com ele, e se você estiver mentindo, vai ter que rezar no milho, menino!”

 Enquanto ele se ajeitava, ela observou o volume. Era completamente ilustrado e colorido, com mais detalhes folheados a ouro do que a maioria das bíblias que ela já abrira.

 O conteúdo parecia ser de rimas e histórias de ninar que traziam imagens de carnavalescos festejando, à moda que faziam nas regiões mais quentes ao sul. Norma sentiu-se aliviada pelo livro ser adequado, porque se fosse qualquer outra coisa, ela teria que ir devolvê-lo e o menino abriria o choro como geralmente fazia.

 Depois de lidas duas histórias, as quais a ama achou estranhas e sem sentido, o menino estava quase dormindo, mas ele pediu para ler mais uma.

  Pieter quis a que era ilustrada por um tipo de cavaleiro, que embora usasse as mesmas roupas coloridas e máscara que os outros personagens foliões, montava um cavalo pronto para batalha e trazia uma lança em mãos. Toda a sua decoração era em vermelho vibrante.

 E o conto era, afinal, sobre uma batalha, onde inimigos vagamente mencionados, mas certamente horríveis, saqueavam uma vila e aprisionavam aldeões desesperados. Eles entonaram uma canção para chamar a Cavalaria Escarlate:

Venham, venham

Façam a Roda

E mostrem para eles

Que lutam

A dança da vida

 

Venham, venham

E cumpram seu papel,

Nós temos o tributo

E este canto te levará até

O seu troféu

 

Venham, venham,

E tornem escarlate o céu

Assim, a Cavalaria chegou e expulsou os invasores, os aldeões os pagaram de alguma maneira, e todos foram felizes, os guerreiros sumindo no horizonte, voltando para suas terras…

A Roda cumprida

Levamos o que nos chamou aqui

Outra luta vencida

Só resta para os sonhos

Partir…

Pieter estava num sono profundo. A ama finalmente fechou as cortinas do dossel, e levou o livro para os aposentos dela. Ela iria falar com Padre Justino de manhã, quando fosse devolver o volume junto com o menino.

 Preparou-se para a cama, fez suas preces diárias, e às sete e meia, deitou-se enquanto a chuva tamborilava na janela.


 Duas horas antes, eles haviam deixado os portões de Salões da Planície para trás. Escurecia muito depressa, e a comitiva apertou o passo, ansiosos para chegar em casa antes da tempestade.

 Eram cavaleiros leais de ambos os feudos, protegendo com a vida uma frondosa carruagem que avançava no centro da estrada. Entre os arbustos, batedores procuravam por qualquer sinal de perigo.

 Por trás dos enfeites barrocos folhados a ouro, a Duquesa Ethel se sentava na cabine do veículo, perdida em seus pensamentos enquanto polia um grande medalhão dourado.

Foram-se os tempos em que ela podia confiar em seu irmão. Quando jovem, ele a protegia dos horrores que ouviam na escuridão. Agora que eles se mostravam reais, o velho Rudd respondia com indiferença e fraqueza.

 “É verdade que os usuários de magia estão ficando cada vez menos tímidos, e as consequências de seus atos surgem nos boatos vindos de outras vilas. Se é para acreditar, Mira foi engolida pelo mar, e a Torre Paragônica ruiu, ambas devido aos poderes de magos e bruxas.”

 “Então você vê? Precisamos achar alguma forma de nos precaver contra essas maldades, antes que elas cheguem até nós.”

 “Hah, minha irmã, não seja tão apressada. Duvido que a fofoca dos camponeses tenha muito fundamento. Mira pode ter sido destruída numa tempestade, e é simplesmente impossível que a Torre Paragônica caia por algum truque de salão. Ela é indestrutível! Bruxas trabalham com mentiras e enganação para bobos, e são, no mínimo, divertimento para cortes, e no máximo, charlatãs. Não nos preocuparemos com elas.”

 “Você sabe, no fundo do seu coração, que isto não é verdade. Diz para me acalmar e se livrar do problema. Mas bruxas procuradas andam por nossas estradas… E eu não quero que Pieter encontre ainda mais tragédia em sua infância. Ele precisa crescer num homem forte e bem equilibrado. Mas não sei o que fazer, será que contrato a primeira bruxa ou mago que aparecer em Pico da Rocha para nos defender dos outros? Não é como se a montanha pudesse nos proteger da magia do mesmo jeito que protege do clima.”

“Irmã, ouça o que eu digo. Pare de se preocupar com besteiras e siga sua vida. Acordos desse tipo somente trariam mais dores de cabeça! Agora, por favor, vamos almoçar sem falar de problemas.”

 Ela nem quis passar o dia hospedada lá depois disso. Sentia um gosto amargo toda vez que pensava nos olhos preguiçosos do irmão. O Conde estava cansado de governar.

 “Quanto tempo de estrada ainda temos pela frente, Garret?” Ethel disse, falando com o cavaleiro que acompanhava sua carruagem à direita.

 Ele aproximou o cavalo da janela do veículo. “Já é possível ver a Montanha Espinhosa daqui, então eu diria que levaremos mais umas duas horas.” Sorriu. “Chegaremos um pouco depois do pôr do sol, mas acredito que vamos evitar a pior parte da tempestade que se aproxima.”

“Obrigada” ela disse, retribuindo o sorriso.

 Depois de pensar um pouco, perguntou:

“Acha que temos qualquer chance contra um mago como o que destruiu Mira?”

“Minha Senhora, enquanto podermos acertá-lo com flechas e espadas, claro que temos. Afinal, nossos são alguns dos melhores soldados de toda a região, e até onde sei, magos são oponentes formidáveis, mas ainda são humanos.”

“Espero que esteja certo, nobre cavaleiro.” Ela gostava de Garret. Ele não costumava errar suas previsões, e era o melhor conselheiro que ela encontrara até então.

 Talvez ele estivesse certo sobre este assunto também, e ela se preocupasse demais. Que viagem sem sentido. Por causa dela, teve que deixar Pieter sozinho.

 Agora ela não conseguia parar de pensar em seu menino. Ele provavelmente estava bem, só dando dor de cabeça para a Norma, mas o coração dela ficava apertado quando o deixava sozinho, ainda mais desde que Athos faleceu.

 Ela ouviu os batedores darem alguma ordem, mandarem alguém se afastar.

 A tempestade estava no encalço deles, e agora a escuridão era quase noturna. A Duquesa mal conseguia ver as formas dos batedores atrás das árvores, mas o mais próximo estava com o arco em mãos e uma flecha pronta para o tiro. Continuaram ordenando algo que não dava qualquer resposta, até que ele soltou a corda e a flecha seguiu seu curso até o alvo.

 Mal o disparo foi dado, veio a retribuição – um lampejo e o arqueiro caiu, uma faca cravada entre os olhos.

 O que aconteceu a seguir foi uma sequência desordenada, enquanto os dois grupos se chocavam. Grandes ou pequenos, os inimigos sabiam como cercar a comitiva, suas roupas escarlate reluzindo com o sangue recém-derramado. Eles riam enquanto lutavam, um som não natural que vinha dos pesadelos que não se esquece depois de acordar.

 Garret se pôs entre a carruagem e um inimigo que se aproximava, que também vinha montado. O desconhecido moveu a lança em tom de desafio para ele, e os dois avançaram como se estivessem numa justa. O conselheiro tinha a mira certeira no peito do desconhecido, quando este curvou-se de forma impossível e cravou a lança no abdômen de seu oponente. A estrutura de metal, escondida no centro da madeira, o empalou enquanto o atirava do cavalo, e o nobre cavaleiro teve seu fim encravado no chão.

Ethel gritou instintivamente quando seu protetor morreu. Ela sentiu os olhos do assassino a observando, então rolou e pulou pela porta do lado oposto da carruagem.

 Ela lançou uma adaga que achou caída na direção dos inimigos, e enquanto corria cravou uma flecha perdida no tornozelo de outro. Os tecidos vermelhos pareciam chamas que engoliam os homens, os rostos dos monstros pálidos como a morte.

 No meio daquela dança febril, a duquesa se viu novamente ao lado de Garret. Não teria tempo para velá-lo, pois o oponente que trapaceava rondava o corpo dele, como se quisesse exibir o seu “troféu”.

 Ela desembainhou a espada que ainda estava presa no cinto do conselheiro, e se aproximou do guerreiro orgulhoso. Com um movimento em arco, deixou o peso da lâmina fazer a maior parte do trabalho e acertou a pata traseira do cavalo.

 O resultado foi um urro desnatural, como um trovão que saía do fundo da terra, e cavaleiro e criatura foram ao chão. Foi então que Ethel percebeu que o animal não tinha cabeça; a cintura do homem conectava-se direto no corpo equino, onde o pescoço do cavalo deveria estar.

 Em resposta a dor do companheiro, outra criatura veio correndo sobre os quatro membros, e tentou agarrar a nobre num pulo.

 O ser era enorme, e os chifres de sua máscara o deixavam parecido com um touro. Ela se esquivou no último instante, e se espremeu na carruagem, que agora estava em ruínas. Torceu que a estrutura fosse proteção suficiente até os seus soldados acabarem com os monstros restantes, mas então viu, no canto de seus olhos e através de uma rachadura, algo rolando no chão enlameado. Uma cabeça humana. Os sons da batalha diminuíram, e assim, ela se deu conta de que não haviam mais soldados. Ela estava só.

 A criatura enorme batia seus chifres contra a madeira do veículo quebrado, e a cada batida os pensamentos da duquesa mudavam. Ela rezava, agarrando com força o medalhão da família que trazia enrolado em trapos, e pensava nos homens que seguiram viagem com ela, os homens que ela levou para a morte; e pensava em Pieter, o pobre menininho que agora seria órfão de pai e mãe, e que teria que aprender a governar sozinho; e pensava em todas as pessoas que confiaram nela, quando tomou posse do feudo logo após o funeral do marido, pessoas que agora ela deixava à mercê de monstros. E que ela também deixava Pieter à mercê deles.

 Mas acima de tudo, ela pensava como esta viagem tinha sido um erro idiota, e ela jamais deveria ter saído de Pico da Rocha.

 O monstro dos chifres dourados abriu espaço suficiente para entrar na carruagem. Ele se aproximou lentamente, e apontou sua cabeça em direção de Ethel. A máscara de ouro que a cobria tinha como detalhe nada além de uma bocarra arreganhada, mostrando fileiras de presas enormes, cor de marfim.

 Ela então relaxou, o peso do dever deixando seus ombros. Não precisaria mais se preocupar com qualquer coisa.

 Um impulso para frente, e o chifre a perfurou no centro do peito. Ele foi para trás, e deixou o corpo dela cair sobre o veludo do interior em ruínas.

 A Cavalaria procurou por sobreviventes, e então levou alguns instantes para se reorganizar. Depois, não havia muita razão para ficarem ali, e continuaram sua viagem em direção do leste, dando apoio aos companheiros feridos.

 Choveu.

Próximo >>>