Saudações, taverneiros! Mais uma vez!

Antes de iniciar minha segunda resenha n’A Taverna, relembremos os quatro apontamentos padrões.

i) Devido ao fato de eu ser um “spoilerfóbico”, irei me esforçar em entregar-lhes resenhas inteiramente livres de spoilers, pois não há nada mais devastador do que a ruína da experiência de uma leitura. Em verdade, não só de leituras, mas da absorção de obras de ficção em geral. E, na minha singela opinião, nada dotado de maior potencial destrutivo para tal do que a revelação de surpresas sobre o enredo ou arco de personagens. Fiquem tranquilos quanto a isso, portanto.

ii) Farei minhas resenhas dentro de uma estrutura, que consistirá na análise de voz narrativa (primeira, segunda ou terceira pessoa); enredo (plot); mundo (setting/milieu), seja ele fictício ou não; personagens e seus arcos; sistema de magia; e quão sinérgicos são os elementos citados.

iii) Sempre que necessário, tecerei considerações além da obra em si. Técnicas literárias, reflexões, nuances acerca do autor e afins.

iv) Ao final, darei notas aos elementos expostos em “ii” e tirarei uma média entre elas.

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Respondam-me com honestidade: quando se diz em Fantasia Contemporânea, existe alguma chance de George R. R. Martin não vir à sua cabeça de imediato? A resposta é simples: não.

Estou brincando. Claro. Por evidente, é possível que responda “sim”. Mas, se esse for seu caso, bem, eu diria que você anda meio… desatualizado(a), e por fora das tendências. Melhor: da tendência.

Se você não for destes que têm se mantido reclusos numa caverna e, portanto, sabe de quem se trata, muito provavelmente o conhece graças à sua mais que consagrada saga, “As Crônicas de Gelo e Fogo” (“A Song of Ice and Fire”). No entanto, tal obra-prima não é seu único trabalho. Basta uma ligeira “googlada” para perceber que muitos são os trabalhos do simpático autor.

(É… “Simpático” até a página 2. Após singela reflexão acerca do que ele costuma fazer com seus pobres personagens, “diabólico” poderia, digamos, ser um termo mais adequado…)

Enfim. Apesar de não se tratar do escritor mais produtivo do mundo — fato que gera ferrenha irritação em um sem-número de fãs mundo afora —, é indiscutível: demore ele o tanto que seja, mas tudo que tem o dedo do nosso querido Georjão é digno de louvores ululantes. E é nessa perspectiva que convido-lhes à leitura de “Sonho Febril” (“Fevre Dream” — sim, é “Fevre”, mesmo; e não “Fever”. Não sei o porquê. Eis uma Trivia interessante de ser levantada. Caso alguém saiba o motivo, sinta-se livre para se manifestar!).

Trata-se de livro standalone (fecha em si mesmo). Felizmente, possui tradução em português e, desde que me lembro, a LeYa sempre tem feito questão de manter em dia as tiragens, pois sempre o vejo em estoque nas livrarias (físicas e virtuais) que frequento.

Sigamos. Sem delongas.

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A resenha.

A narrativa é em terceira pessoa, limitada a um POV (ponto de vista) por vez, formato com o qual os leitores das “Crônicas de Gelo e Fogo” estão mais que acostumados. Inclusive, arrisco dizer (sem nenhum embasamento empírico – portanto, perdoem-se caso eu esteja falando asneira) que Martin é uma das principais figuras, da linha do tempo da Literatura Fantástica, responsáveis pela consolidação desse formato de contar histórias, que mescla a profundidade e perspectiva da primeira pessoa com a linguagem desprendida e fluida da terceira pessoa.

George, apesar de sua fama de “assassino impiedoso”, é muitíssimo bem conhecido por conceber personagens densos, profundos, arque-complexos, que vão deveras além da ingênua dicotomia — que adoram nos enfiar goela abaixo — de bem e mal. Oscilam. Não são pretos nem brancos. Cinzas. Um cinza que transita por entre infinitas tonalidades. E, convenhamos, só o consideramos um “assassino impiedoso” exatamente devido ao impacto estonteante que recebemos ao contemplarmos o definhamento de personagens com os quais nutrimos fervoroso apreço, ainda mesmo se tais forem belos canalhas. Neste exato sentido, afirmo que, em “Sonho Febril”, não será diferente: você criará fortes laços com os personagens.

O capitão Abner Marsh, após um inverno inclemente, tem vasta parcela de sua frota de barcos a vapor destruída, levando-o à quase falência. Um evento traumático; impossível negar. Contudo, Marsh nem tempo tem para refletir sobre seu infortúnio, pois é convocado por um tal de York, para uma conversa privada, às altas horas da noite, no restaurante de um hotel aleatório.

York oferta a Abner vultosa quantia monetária; mais que suficiente para a construção de um barco a vapor tão magnífico ao ponto de, sozinho, superar toda aquela frota perdida. O misterioso homem, porém, impõe uma determinada contraprestação. (Não direi o que é. Lembram-se que sou spoilerfóbico?) Apesar de pitoresca, não é, nem de longe, proporcional ao valor oferecido. Marsh, sem vislumbrar nenhuma outra opção para reerguer seu negócio, aceita. Ora, por que recusaria uma oferta tão generosa? Afinal, está em jogo não apenas dinheiro e uma atividade comercial, mas, principalmente, trata-se de seu amor febril pela navegação. Ver o carvão queimando, ouvir o tchu-tchu da buzina, experimentar o balançar das águas do Mississipi, sentir o controle do timão e do leme… tudo isso… é, para o capitão, a mais pura poesia. Um deleite!

Em considerável avançada idade, Marsh nada mais fez — no que concerne à questão profissional — do que navegar. Parar de fazê-lo seria a mais flagrante autoflagelação. Seria como aceitasse a continuar a vida, porém estando morto. Uma antítese. Um paradoxo. Assim sendo, inconcebível seria a ideia de recusar a proposta. O barco, não depois de muito, fica pronto. “Sonho Febril”, Marsh e York nomeiam-no.

Hora de navegar!

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Exposto esse pano de fundo do enredo e com os protagonistas apresentados, foquemos noutras searas.

Muito se diz, no meio literário — sobretudo na Literatura Fantástica —, sobre o tal do “World Building”. Em tradução livre, nada mais significa do que “Construção de Mundo”. Nesse aspecto, talvez por causa do nome que tal conceito técnico carregue, muitos possam concluir que só é possível um autor fazer isso em/com mundos fictícios — na chamada High Fantasy.

Ledo engano.

Qualquer livro literário tem seu World Building, independente de onde ocorram os fatos narrados. Nárnia, Terra-Média, Pern, Europa Medieval, Brasil, Marte… Não importa: todo autor tem o dever de contextualizar, em termos temporais e espaciais, sua narrativa. Seu objetivo é forjar uma ilusão, que leve o leitor a sentir, respirar, viver (!) o lugar no qual se passa a trama, seja este real ou não. Os recursos utilizados para isso são inúmeros. Não me deterei a eles. Não nesta resenha. O que importa, aqui, é: o World Building, que Martin realiza na obra em voga, é estupendo. Ao ler, sentimo-nos imersos no sul dos Estados Unidos do século XIX. Os barcos a vapor em seu auge; o lastimável regime vigente da escravatura; cidades e rios  sobre os quais tanto lemos em clássicos — como os dos livros de Mark Twain, com seus carismáticos personagens Tom Sawyer e Huck Finn — sendo o palco de uma estória sombria e envolvente, repleta de turbulências.

O sistema de magia… O sistema de magia… Francamente? Nada explanarei. Zero. Explico: penso que, neste livro em específico, a surpresa será tamanha se você aventurar-se nele sem ter conhecimento de algumas informações, como nuances das histórias (background) dos personagens. Outrossim, junto destas, devo ressaltar que o sistema de magia  — não só enquanto magia propriamente dita, mas também como mitologia — é fabuloso!

Desbrave-o!

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As notas.

(Escala: 0 a 5.)

  • Enredo (plot): 4
  • Mundo (setting/milieu): 5
  • Personagens e seus Arcos: 5
  • Sistema de Magia: 4
  • Nota Final (média): 4,5

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Esta resenha foi mais enxuta que a anterior. Apesar disso, estou satisfeito. Até porque, como eu sempre defenderei a ferro e fogo, meu objetivo é instigá-los a buscarem a leitura, e não lhes revelar detalhes minuciosos.

Vejo-os na próxima! Até breve!

 

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