PHILLIP

            Minha consciência flutua no mar do vazio infinito. Lembro do cheiro salgado que a brisa noturna trouxe antes que eu mergulhasse; cheiro pútrido que tocou minhas fossas nasais como sinos que celebravam o pior em mim. Se eu soubesse, não teria pulado. Mas nada pude fazer, fui seduzido. Os sons me fizeram pular, compassados e guturais. Me fizeram pular.

            Devo estar morto. Não houve tempo de dizer adeus e sei que Sonia ainda me espera. Seus gritos, súplicas de uma mulher em desespero, ainda reverberam pelas câmaras de memórias soltas e inconsistentes. De nada adiantou tudo aquilo. A imensidão sombria se apoderara do horizonte e não nos permitiu dizer o que era céu ou mar. Tal distinção só podia ser feita pela lua côncava e cheia que se destacava com brilho intenso e solidão.

            Sortudo seria eu se, ao pular, encontrasse somente o mar. Morreria com o abraço gélido das águas negras. Nós apertados prenderam meu tornozelo e para o fundo fui arrastado. Em nenhum momento lutei para sobreviver. Afoguei-me nos goles d´água que violentaram meu interior e tomaram lugar do ar. As profundezas intocadas pela luz fizeram de meu corpo alimento que, mergulhado em ácidos estomacais, se desfaz.

            Agora, tudo é dor. Angústia que me sufoca e enterra em sofrimento. Tenho olhos e não vejo, ouvidos e não ouço. Não há ar, minha respiração cessou. O som é um delírio perturbador de minha mente, que se perde no vazio de algo maior que eu, ou qualquer coisa que possa existir.

            Dos sentidos, poucos me restam. Posso sentir os tentáculos gelatinosos deslizando por todo o corpo, enquanto as ventosas aderem à pele e sugam sem misericórdia. Aos poucos eles me consomem. Começam sempre pelas narinas; os que lá entram percorrem o caminho até encontrarem outros na garganta. Travam batalhas viscerais, uma disputa por espaço em um corpo devassado. Mais deles invadem os ouvidos e forçam passagem para encontrar seus semelhantes. Minha cabeça é tomada por tentáculos de tamanhos diversos, que comprimem o cérebro e forçam saída. Torço sempre por mais, talvez assim minha cabeça exploda e encontre o fim.

            Algo ouve o clamor e meu ânus recebe mais deles, lá encontram metros e mais metros de intestino para explorar e se aninham. Remexem o bolo fecal de forma a fazer com que se espalhem pelo corpo e o contaminam com o que deveria ser excretado. Mas o pior chega logo; através da uretra, ferrões forçam entrada. O orifício estreito arde como se agulhas incandescentes costurassem um caminho sinuoso por todo o canal. Tentáculos que já me dominam passam a inflar e forçar uma saída. Daí para frente, a palavra dor deixa de ser suficiente para descrever minhas experiências sensoriais.

            Essa parece ser a morte. Ela aguarda todos que caminham sobre a terra, todos que um dia inalaram o ar contaminado por ganância, ódio e inveja. Ninguém escapará. Sonia não escapará. O sofrimento eterno aguarda minha amada. Sarah e Susan, minhas sempre pequenas filhas, também estão destinadas a terem seus corpos invadidos por tentáculos inquietos que irão preencher todo o vazio dessa existência sofrida e caótica. Não há salvação. Viver é paraíso quando se entende que morrer consiste na eternidade de dores e horrores intensos em demasia para que possam ser descritos.

 

“O pesadelo envolvendo a família Ward acaba de ganhar um novo capítulo. Dias após Sonia e sua filha Sarah serem resgatadas em um barco à deriva, o pai, Phillip Ward, foi encontrado, desacordado, em uma praia próxima e levado ao hospital. Segundo o último boletim médico, o paciente está em coma e seu estado é grave. A outra filha do casal, Susan, irmã gêmea de Sarah, continua desaparecida.”

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SONIA

            Passo os dias engolindo comprimidos brancos, em um minúsculo quarto branco, de cama e lençóis brancos. Pessoas trajando branco me visitam três ou quatro vezes por dia. De dia tudo é branco, diferente da noite.

            Quando a colossal esfera leitosa domina o céu, o cheiro dos mortos impregna o mundo. Minha pele passa a exalar o fedor da carne apodrecida e o horror recomeça. Todas as noites, o quarto é invadido pelos vermes marinhos que rastejam pelo chão, sobem pelas paredes e chegam ao teto – de onde caem sobre mim. Não há escapatória. Mergulho no lodo asqueroso que trazem junto aos seus corpos asquerosos e deixo que se sirvam de minha carne. Resistir é pior.

            A agonia persiste até o amanhecer. Os que trajam branco chegam para a visita matinal e o que resta são fezes espalhadas por todo o quarto. Dependendo de quem seja o visitante, as punições variam. Surras, queimaduras e choques são as mais frequentes;. Sinto que fazem isso com prazer. Mal sabem eles que o inferno noturno transforma qualquer sofrimento diurno em algo trivial. Ao retornar ao quarto, tudo está limpo novamente. Sei que permanecerei amarrada por alguns dias e só me restará aguardar a chegada da noite. Ela sempre chega.

            Sem poder me desvencilhar das amarras que me prendem à cama, sinto a fria brisa se esgueirar pela pequena abertura próxima ao teto, meu único contato com o exterior. O odor da maresia traz calafrios e precede o tremor que me domina ao lembrar que as criaturas rastejam pelas profundezas submarinas e logo invadirão o quarto em busca do pouco de carne restante sob a pele fina e escamosa que cobre meu esqueleto.

            Se pudesse me comunicar, a morte seria minha súplica. Passo os dias aguardando pelo fim. Não me recordo que dia é hoje, nem faço ideia de onde estou. Em meio às mazelas que conduzem minha existência, resta o ódio de ter sido condenada pela minha própria família à tortura solitária que me resta.

 

“Sonia Ward estava no barco junto à Sarah, uma de suas filhas gêmeas. Por apresentar hematomas pelo corpo e a falta de um dedo, Sonia recebeu tratamento em um hospital próximo. Entretanto, seu comportamento anormal demandou sedação e ela foi separada do convívio com outros pacientes. A previsão é de que seja encaminhada para a ala psiquiátrica nos próximos dias. Susan, a outra filha do casal Ward, continua desaparecida.”

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SARAH

1.

            Vocês conseguiram. Já não suporto mais viver rodeada por parasitas que só querem lucrar com o pesadelo que vivi. Não há compaixão quando a curiosidade humana é instigada. Tortura vivi quando vocês tentaram me fazer narrar tudo o que havia acontecido, mas eu não lembrava. Minha cabeça explodia em enxaquecas lancinantes sempre que tentava recordar, mas vocês não se importavam. O telefone tocou até que eu o arremessasse contra a parede. A campainha quebrei a marteladas. Busquei refúgio em meu quarto para não ouvir as batidas na porta da frente. Tudo em vão.

            Era uma benção, tanto para mim, quanto para todos, que eu não lembrasse. Entretanto, as memórias emergiram das profundezas mais sombrias de minha mente, lugar de onde jamais deveriam ter saído. Já não preciso mais dormir para ter pesadelos, tudo culpa de vocês.

            Aproveitem para matar a sede em minhas memórias. Afoguem-se no mar de horror e sofrimento que aguarda todos aqueles que ousarem provar do veneno despejado sobre as próximas páginas. Bebam e sintam o gosto de sangue a cada gole. Deixem-se embriagar e sofram com a ressaca que está por vir.

 

“Personagem chave do intrigante caso que envolveu toda sua família, Sarah Ward foi encontrada morta em seu quarto. Sarah passou a morar sozinha logo após receber alta hospitalar. Vizinhos relatam que a jovem de dezoito anos vivia reclusa desde então. Segundo investigadores, uma carta foi encontrada junto ao seu corpo. Ainda não há informações relacionadas ao conteúdo da carta.”

 

2.

            Nunca fomos a família perfeita, mas não imaginaria que pudéssemos nos tornar essa entidade destruída pelo horror desconhecido que nos foi apresentado. Vivemos a experiência que causou todo o mal em um local que julgávamos ser paradisíaco. Desde então, tudo é dor e agonia. Sofrimento é uma palavra fraca para expressar o que sentem todos os que olharam para o espelho da existência e não viram reflexo.

            Lembro do barco alugado para nos levar até a ilha. Apesar da aparente limpeza, podíamos sentir o odor desagradável entranhado em cada canto da embarcação. Papai a  conduziu com habilidade. Anos de marinha mercante haviam lhe ensinado mais do que o suficiente para que conseguisse nos guiar até o destino em segurança. Para um senhor que carregava seus sessenta e seis anos nas costas, esbanjava virilidade. “Só a energia desse mar azul para me fazer sentir mais novo”, ele dizia. Mas sabíamos que toda a empolgação tinha nomes, seios, línguas e lábios que eram visitados a cada parada feita em um porto diferente.

            De fato, nem o mais experiente dos marinheiros poderia evitar o sobe e desce causado pelas ondas, que aliado ao fedor do barco, impossibilitou que mamãe segurasse o café da manhã no estômago e rendeu reclamações intermináveis durante todo o percurso. A sensação de alívio surgiu quando veio a notícia:

            — Venham ver, meninas! Estamos chegando! – papai gritou.

            Era inegável a empolgação em seu tom de voz. Mamãe ignorou a convocação soltando apenas um gemido, que julguei ser de alívio.

            — Estão vendo aquelas duas ilhas? Estamos indo para a maior.

            Duas pequenas ilhas, uma bem próxima à outra, se apresentavam no horizonte nublado. Ao meu ver, ambas tinham o mesmo tamanho; eram separadas por uma distância que poderia ser vencida a nado com facilidade e não havia sinal de presença humana.

            Enquanto papai e Susan conversavam sobre a beleza do local e teciam planos para nossa estadia, passei a observar mamãe, que fazia movimentos repetidos e parecia tentar esconder algo. O anel de metal esverdeado que papai oferecera como presente dias antes ainda estava em seu dedo, o objeto havia ficado preso e era possível observar um inchaço que coloria o dedo com tonalidades de roxo.

            — Mãe, quer ajuda?

            Ao notar minha presença, a tentativa de remover o objeto cessou e ela escondeu a mão que o carregava.

            — Já chegamos? – perguntou fingindo interesse.

            — Quase… o que houve com seu dedo?

            — Ah, não… nada.

            — Deixa eu ajudar. Está machucando? Tiro para você.

            — Não!

            Ela se levantou com dificuldade, ainda estava tonta com o balanço da embarcação. Ostentando preocupação em seu semblante, perguntou onde estava a casa em que iríamos ficar. Não duvidaria que papai fosse capaz de inventar a existência de uma só para que embarcássemos em mais uma de suas aventuras. De imediato ele pediu calma, argumentou que daquela distância não seria possível avistar a casa.

            E não seria mesmo. Em pouco tempo descobriríamos que ela ficava bem no centro da ilha, escondida pela vegetação e rodeada por rochas que formavam uma espécie de cerca. Papai amarrou o barco junto ao pequeno cais e, carregados de malas e bolsas, iniciamos a caminhada até lá. Susan fez a pergunta para a qual eu já sabia a resposta:

            — Pai, como você descobriu esse lugar?

            — Se eu contar você não vai acredit…

            Mamãe interrompeu:

            — E não vai mesmo! Essa história que você inventou pra não contar que veio aqui com suas vagabundas não convenceu ninguém.

            — Gente, por favor! Estamos cheios de peso e não viemos aqui para brigar – disse em uma tentativa inútil de evitar que a discussão acontecesse.

            — Ainda tem isso, precisava trazer isso tudo, Phillip? – reclamou mamãe.

            Ao notar o suspiro que ele soltou, Susan se apressou em dizer:

            — Mãe, calma! Estamos chegando, o pior já passou. Vamos aproveitar.

            Quando papai apertou o passo e abriu uma boa distância, fiz o mesmo.

            — Fica tranquilo, pai. A gente veio para se divertir.

            — Vim aqui sozinho, não trouxe nenhuma vagabunda. Não aguento mais sua mãe. Está é querendo brigar. Sorte dela é que não quero me estressar. Se não fosse isso…

            — Pai, por favor. Nunca vi vocês dois assim, eu e Susan queremos aproveitar essa viagem. Talvez seja o nosso último aniversário com a família toda reunida por um bom tempo.

            — Ainda não quero pensar em vocês duas morando longe. Com tanta universidade boa por aqui, vocês inventam essa coisa de ir pra fora do país… Pra piorar, cada uma em um continente diferente!

            — Pai, já conversamos sobre is…

            — É só isso que você sabe dizer, Sarah! Sua mãe está fora de controle e vocês vão me deixar sozinho com ela. Já disse que não vou aguentar, não me responsabilizo se fizer alguma besteira. A culpa vai ser de vocês, ela está me infernizando!

            O tom de voz usado para me interromper fora alto o suficiente para que mamãe e Susan, que ainda estavam mais atrás, conseguissem ouvir. Não adiantaria falar mais nada. Deixei que ele se distanciasse e voltei para junto delas. Pude ouvir mamãe murmurar palavras indecifráveis durante o caminho restante.

“As buscas por Susan, filha desaparecida do casal Ward, foram suspensas hoje. Segundo o investigador responsável, apesar do laudo pericial feito no barco ter indicado sua presença, não é possível afirmar o momento exato de seu desaparecimento. Testemunhas afirmam que o casal e as filhas viajaram juntos na manhã de sábado.”

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3.

Bastou que colocássemos os pés no interior da casa para que estrondos fossem ouvidos. Nunca havia visto o tempo mudar de forma tão repentina. Nuvens carregadas avançaram rapidamente em direção ao azul claro que ainda cobria a ilha;. Em questão de minutos os algodões imundos sujaram o céu. Junto a eles, veio o granizo, que alvejou o telhado e abriu caminho para a tempestade, que só cessou ao cair da noite.

            Nada nos preocupava mais do que o estado do barco. Papai insistiu que todas ficássemos na casa, mas fui em seu encalço para descobrir se o único meio de transporte que tínhamos para sair dali havia resistido aos maus-tratos que sofrera. Árvores tombadas e lama colocavam-se como obstáculos que inviabilizavam a passagem pelo caminho que havíamos tomado mais cedo. Optamos por rotas alternativas e fiquei aliviada por mamãe e Susan não terem ido conosco. Na verdade, mesmo se mamãe quisesse, não conseguiria. A quantidade de calmantes que havia tomado ao chegar era suficiente para que dormisse até o dia seguinte.

            Como se nada tivesse acontecido, o barco flutuava sobre a falsa calmaria do mar traiçoeiro. Risos nervosos rastejaram por nossas bocas em sinal de alívio. Assim como veio, a tempestade se foi; a cortina que impedia que o brilho das estrelas chegasse até nossos olhos foi retirada e a lua aproveitou para abrir um buraco branco em meio ao céu mais negro que já havíamos visto. Por consenso, resolvemos admirar durante um tempo a beleza da escuridão que tatuava sombras e era tonalizada pelo brilho cintilante do luar. Desligamos as lanternas e fomos absorvidos pela noite.

            Eles chegaram sem causar alarde. Remavam em canoas que conduziam cinco dos seus em cada, passaram por nossas vistas e foram em direção à outra ilha. Uma espécie de capa cobria seus corpos. O único tipo de iluminação que traziam eram tochas, uma por embarcação. Assim que percebeu a aproximação dos visitantes inesperados, papai ordenou que eu ficasse em silêncio e não ligasse a lanterna. Quando já estavam quase chegando à ilha ao lado, perguntei:

            — Quem são eles?

            — Não sei… Fique quieta! – ele respondeu.

            Papai e eu estávamos tão próximos que era possível sentir o medo que corria em nossos corpos trêmulos. A mão dele acariciando o revólver que trazia consigo era motivo de preocupação. Assistimos ao desembarque de todos e pegamos o caminho para retornar à casa. Desse ponto em diante, tudo que possuo são memórias turvas, manchadas com suor, sangue e água do mar. Tenho dúvidas se serei capaz de descrever com precisão todo o terror vivido.

            Lanternas apagadas continuavam sendo uma opção desesperada para que não fôssemos notados. Confiar na escuridão como forma de proteção era como ter o demônio no lugar de um anjo da guarda; ainda mais com toda a bagunça deixada pela tempestade, que tornou a viagem de volta à casa muito mais tensa e demorada. Já estávamos chegando quando o som dos tambores reverberou através do ar úmido que provocava espirros constantes em mim. O que era só um batuque distante foi ganhando potência e se transformou em algo tão presente que era impossível de se ignorar.

            As condições adversas contribuíram para que levássemos um tempo muito maior do que deveríamos até a casa. Chegamos bem sujos, mas papai sugeriu que não tomássemos banho, nem fizéssemos qualquer coisa que pudesse chamar a atenção dos visitantes inesperados. Enquanto ele trancava a porta da sala, me dirigi ao quarto onde Susan e mamãe haviam ficado; liguei a lanterna utilizando a mão como barreira para controlar a quantidade de luz emitida e senti meu estômago doer ao perceber que ali não estavam.

            Sem pensar duas vezes, voltei para a sala. O cômodo se encontrava vazio, a porta entreaberta se movia levemente ao ser tocada pela corrente de vento que por ali passava, trazendo o cheiro da maresia. Até aquele dia, eu achava que já havia sentido medo, engano comum de quem nunca esteve realmente em perigo. A solidão nunca foi tão presente, o sentimento de impotência era desesperador. Só o instinto de autopreservação me fazia companhia e foi ele que me fez ir até a cozinha em busca de uma faca.

Me aproximei da porta de entrada. Não havia paz com aqueles tambores tocando em um ritmo acelerado e constante. Tremia tanto que a faca parecia ter vida própria. Quando toquei a maçaneta, um braço empurrou a porta de forma brusca. Não precisei pensar para fazer o que fiz. Em um piscar de olhos, a lâmina estava cravada no invasor e eu gritava. Três tiros romperam o silêncio da casa abafada e o corpo do esfaqueado foi ao chão. De joelhos, senti a urina descer pelas coxas trêmulas. Papai disparou mais um tiro e o corpo que se debatia no chão relaxou.

— Elas sumiram! – gritei.

Papai correu até o quarto para confirmar o que acabara de ouvir e retornou com pavor no olhar. Lembro de ter sido xingada por ele e logo veio o ardor do tapa que atingiu minha face. Fui arremessada longe e caí próxima ao corpo que no chão se encontrava. Em prantos, assisti ao líquido escuro e esverdeado vazar dos buracos de bala em pequenos esguichos.

            — Fique aqui e segure isso – disse ele, enquanto me entregava um outro revólver. – Só atire se outros chegarem ou esse se mexer.

            Acenei positivamente sem ter noção do que fazia. Com lanterna e arma nas mãos ele deixou a casa. Poucos segundos bastaram para que os tambores e a solidão me sufocassem a ponto de não conseguir mais suportar. Nauseada pela podridão que escorria do cadáver, abri a porta e ainda consegui ver o feixe de luz emitido pela lanterna de papai. Passei a segui-lo.

“Em seu depoimento, a vizinha afirmou ter ouvido gritos e discussões diárias durante um curto período que antecedeu a viagem. Tais perturbações também chamaram a atenção de outros moradores da região, que declararam de forma consensual que aquele não era um comportamento típico do casal Ward. Para a polícia, a mudança de comportamento notada faz com que novas linhas investigativas sejam levadas em consideração.”

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4.

            Cerca de trinta pequenas embarcações se acumulavam sobre as extremidades opostas das duas ilhas, a maioria na vizinha. Apenas observei enquanto papai fez uso de uma delas para ir ao outro lado. Esperei até que ele chegasse. Não demorou mais do que cinco minutos e fiz o mesmo. Minha falta de habilidade com o remo e a embarcação instável tornaram minha travessia mais demorada.

            Bastou que meus pés afundassem na areia para que uma pontada de arrependimento me atingisse. Naquele momento, só queria chorar e gritar por meus pais. O batuque agora vinha acompanhado de gemidos que me remetiam a prazeres carnais e dor. Envergonho-me do que senti, mas meu corpo respondia ao som ensurdecedor sem que eu tivesse controle algum.

            Seduzida pelo ritmo, caminhei em direção ao epicentro daquele terremoto gerado sob meus pés. Em uma espécie de transe, senti as partes íntimas serem umedecidas enquanto minhas pernas se cruzavam ao caminhar. O caminho de prazer me levou ao que passei a ver como um momento de adoração e lascívia.

            A grande esfera composta por uma concentração de corpos entrelaçados era o chamariz. Se o sexo fosse uma entidade, ali estaria sua forma mundana. As peles esverdeadas dos humanóides se tocavam e secretavam um líquido viscoso que lubrificava os corpos nus. Ao redor, formando um semicírculo, outros deles tocavam tambores. Até hoje não posso afirmar se meus olhos, induzidos pela atmosfera formada, captaram o que realmente acontecia. Passei a me aproximar aos poucos e quando me dei conta, já abria mão das roupas que cobriam meus pudores. O som de mucosas em atrito fez com que os bicos de meus seios ficassem eretos e, como um convite, a esfera se abriu revelando o que havia em seu anterior. Nua e mergulhada em um fluído leitoso que a cobria, estava minha irmã. Passava as mãos por todo o corpo em um passeio que sempre direcionava todo o líquido que conseguia acumular até sua genitália. Não deveria, mas meu único desejo era de fazer parte daquilo.

            O som dos tiros decretou o fim. Despertei já com o primeiro, mas papai ainda disparou mais alguns. A esfera se desfez e as criaturas que a formavam foram reveladas. Impossível dizer quantas, mas cada uma delas trazia um traço diferente, que denunciava as profundezas obscuras do mar como seu lar. Tentáculos, escamas e guelras faziam parte da fisiologia, que mesclados às características humanas que também traziam, me fizeram sentir pavor imediato por estar ali.

            Papai correu até nós enquanto as criaturas, assustadas com os disparos, se dispersavam. Recolhi minhas roupas e as vesti enquanto ele usava sua própria camisa para vestir Susan, ainda bastante atordoada. Juntos a carregamos até uma das pequenas embarcações que poderiam servir como transporte de volta à ilha.

            — Onde está… – Minha pergunta foi interrompida pelo que vi. Desacordada, mamãe nos aguardava na embarcação.

            — O que você fez com ela? – gritei ao perceber que sangrava por um ferimento na testa.

            — Cala a boca e segura isso! – disse ele, ao me entregar um remo.

            Remamos até voltar para a outra ilha. Com mamãe em seus braços, ele caminhava em direção ao barco que nos trouxera mais cedo. Um pouco atrás, Susan se escorava em mim enquanto caminhávamos.

            — Ilumina esse caminho direito! – ordenou ele.

            Passei a projetar a luz da lanterna com maior atenção e o resto do caminho foi percorrido sem que nenhum de nós pronunciasse uma palavra sequer. Tudo havia sido contaminado pelo silêncio. O cessar dos tambores transformara o ato de respirar em um ruído incômodo e angustiante. Faltava pouco para que chegássemos ao barco.

“Estranhos acontecimentos estão levando funcionários do hospital onde Sonia Ward está internada a solicitar a transferência da paciente. Informações extra-oficiais indicam que seu comportamento agressivo faz com que os profissionais tenham medo de lidar com Sonia. Há quem afirme que episódios aparentemente sobrenaturais tenham agravado a situação. A direção do hospital não quis se pronunciar sobre o caso.”

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5.

            O sentimento de alívio por estar deixando aquela ilha para trás nunca chegou. Enquanto papai deu conta de todos os procedimentos necessários para que a viagem de volta tivesse início, fiquei cuidando do corte que marcava a pele fina de mamãe. Nunca soube como aquele ferimento teve origem, mas imagino que ele a tenha agredido. No fim, isso pouco importa. Deixar aquele lugar para fugir de seus horrores era apenas ilusão.

            Fazendo uso de um balde que, preso a uma corda, permitia que conseguisse água do mar, Susan passou a limpar o corpo do líquido viscoso que havia virado uma camada dura e ressecada sobre sua pele. Papai ignorava tudo o que ocorria dentro do barco. Sua atenção estava voltada para o horizonte. Vergonha e medo dominavam meus pensamentos. Mesmo que quisesse abraçar todos e celebrar o fato de estarmos juntos e vivos, havia uma espécie de pacto silencioso que impedia que qualquer um de nós falasse sobre o ocorrido.

            Ao terminar o banho improvisado, Susan se deitou. Comprimiu os seios ao abraçar os joelhos e o olhar perdido logo se fechou. Em sua mão direita havia um anel que não me era estranho. De imediato, voltei o olhar para as mãos de mamãe; soltei um grito breve ao ver que, do dedo que carregava o anel, só os ossos expostos restavam. Papai sequer virou-se para ver o que acontecia e, posso estar errada, talvez tenha sido traída pela pouca luminosidade do barco, mas poderia jurar ter visto Susan sorrir. Fiz o que me restava: chorei até não mais aguentar, senti lágrimas escorrerem sem que fizesse esforço e solucei como uma criança abandonada à própria sorte. Chorei até que o sono me desse o breve repouso como esmola.

            Se as pessoas soubessem que a perversidade sobrenatural rasteja a todo momento sobre o fundo do mar, não ousariam deixar que suas peles fossem tocadas pela água salgada. Acordei e ainda era noite, preferiria nunca ter acordado. A morte durante meu último sono em paz seria misericordiosa. Demorou um pouco para que minha vista embaçada conseguisse contemplar a visão do grandioso ser, sua voz carregava o assombro de sons impronunciáveis para qualquer humano. Ainda assim, o chamado era claro e deveria ser atendido. Restou-me assistir ao teatro demoníaco que se seguiu.

            Mamãe emitia uivos que cortavam-lhe a garganta e só tinham pausas quando engasgava com os coágulos de sangue escurecido que expelia ao engasgar. Tocar sua pele me fez sentir o quão febril estava. Procurei por papai, mas ele não se encontrava mais entre nós. Restava Susan que, com o corpo exposto ao luar, utilizava as mãos para acariciar o ventre protuberante. As gargalhadas que emitia ainda me servem de despertador quando acordo durante as madrugadas. Não havia felicidade no que fazia. Gargalhava como loucos gargalham, misturando a histeria com a tristeza contida que, tímida, se revela por um breve período e logo volta a ser silenciada.

            Antes que Susan mergulhasse no mar pestilento, pude observar que, os que pareciam ser frutos da orgia de outrora forçavam-lhe as entranhas em tentativas constantes de sair e marcavam sua pele com formas bestiais. Ela se lançou, assim como acredito que papai fizera antes que eu viesse a acordar. O ser emergido das profundezas para lá retornou. Era de tamanha magnitude que levou alguns minutos para submergir por completo. Peço perdão por não ser capaz de descrevê-lo, mas só os que conhecem o terror que habita nosso planeta sabem que palavras faltam para retratá-lo.

            Até hoje não sei explicar como voltamos. Lembro dos pescadores carregando mamãe para fora do barco quando o sol já havia maltratado nossas peles. Já no hospital, ficamos no mesmo quarto na primeira noite. Os gritos de mamãe não me deixavam dormir e os médicos a fizeram parar. Descobri que seus gritos eram inofensivos perto das lembranças que ainda habitavam minhas memórias. Durmo e acordo em meio ao pesadelo de todas as noites. Nele, Susan está na ilha; pernas arreganhadas revelam seu sexo inchado e dilatado que, pulsante, serve como porta de entrada para as criaturas que rastejam de seu ventre para o mundo. Centenas delas deixam um rastro viscoso que se mistura com a areia e marca o caminho até seu grande berço: o mar.

 

“Médicos se assustaram ao retirar o que parece ser um dedo de dentro do estômago de Phillip Ward. A cirurgia que levou à descoberta foi feita de forma emergencial, já que o paciente, que continua em coma, apresentava hemorragias severas. Tudo leva a crer que o dedo pertence a sua esposa, Sonia Ward, que está internada na ala psiquiátrica do mesmo hospital. Exames laboratoriais ainda serão feitos para confirmar a hipótese. Procurada por nossa equipe, a filha do casal optou por não se pronunciar.”

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6.

            Termino o registro escrito de minhas memórias com a súplica de quem um dia já conseguiu enxergar felicidade em um mundo que reserva o sofrimento inenarrável a todos que o habitam: vivam em ignorância. Odeio todos vocês que me fizeram chegar até aqui, mas sei que muitos outros não merecem o sofrimento.

            Há no mundo o refúgio, que protege os humanos de tudo que foge de sua capacidade de entendimento. Durante nossa existência, buscamos explicações para o inexplicável e nossa sede por conhecimento só nos aproxima mais da verdade, que revelará a cruel realidade. Quando isso ocorrer, não haverá escapatória. Rasgar o véu da ignorância sentenciará todos nós ao pesadelo de uma existência em agonia eterna.

            Ofereço meu corpo como templo para aquele que, acordado, não mais espera.

 

“Fotos obtidas por nossa equipe mostram o quarto onde o corpo de Sarah foi encontrado. Desenhos macabros feitos com giz de cera verde cobrem as paredes do local sem mobília. Os detalhes em vermelho parecem ser sangue utilizado quando o giz acabou, informação reforçada pela ausência de unhas e desgaste das pontas dos dedos. Legistas também afirmam que Sarah utilizou uma lâmina para gravar a mesma frase, repetidas vezes, por todo o corpo. Ainda segundo eles, a frase não passa de letras aleatórias que não parecem possuir real significado.”


 

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